sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Criança é morta por eutanásia na Bélgica




Jurandir Dias

A eutanásia é, a seu modo, uma consequência do aborto. O aborto trouxe um enfraquecimento da família e é praticado pelas mesmas razões, ou seja, o casal não quer ter filhos para poder gozar mais a vida, divertir-se livremente, ir à praia etc. sem ter o trabalho de cuidar de crianças.

Morreu na Bélgica a primeira criança por eutanásia. A notícia não poderia ser mais estarrecedora. A informação foi prestada pelo presidente da Comissão Federal para a Eutanásia, Wim Distelmans.[i]

Em 2014, o Parlamento Socialista da Bélgica aprovou uma lei iníqua que permite que os médicos pratiquem a eutanásia – eufemismo para não dizer assassinar – em crianças com doenças ditas incuráveis e que causam muito sofrimento. A lei permite que os menores procurem a eutanásia. Mas as crianças que serão sacrificadas teriam que «possuir a capacidade de discernimento». Que criança, nos tormentos das dores, será capaz de discernir se quererá ou não ser morta?

A eutanásia existe na Bélgica desde 2002, quando o governo socialista daquele país a aprovou para os anciãos.

O número de mortes por eutanásia na Bélgica está a subir rapidamente, com um aumento de 25% em 2012. Estudos recentes indicam que até 47% de todas as mortes assistidas não foram descritas; 32% de todas as mortes assistidas foram feitas sem pedido e os enfermeiros estão a matar os seus doentes sem o conhecimento dos médicos.[ii]

Alguns especialistas belgas estão a apoiar a extensão da eutanásia para crianças com deficiência, porque dizem que isso já está a ser feito. Os mesmos médicos especialistas sugerem que a extensão da eutanásia vai resultar num aumento de 10 a 100 mortes por ano.

Tudo isto causa uma enorme insegurança entre as pessoas. Na Holanda, um dos primeiros países a aprovar a eutanásia, os idosos cruzam a fronteira e vão tratar-se na Alemanha onde a lei da eutanásia não é tão radical. Agora, também a criança doente se sentirá gravemente ameaçada. E pensará se a sua existência não será um peso para a família e que os seus pais, mediante conselho pernicioso de um médico, não venham a terminar com a sua vida.

*    *     *

A eutanásia é, a seu modo, uma consequência do aborto. O aborto trouxe um enfraquecimento da família e é praticado pelas mesmas razões, ou seja, o casal não quer ter filhos para poder gozar mais a vida, divertir-se livremente, ir à praia etc. sem ter o trabalho de cuidar de crianças.

A criança executada pela eutanásia «alivia» a família de gastos com hospitais e do trabalho de acompanhamento familiar naquele momento crucial. Por isso se mata o filho ou a filha e depois vai divertir-se.

Como isto é diferente daquela mãe ou pai que passam noites sem dormir, rezando pela recuperação da saúde do seu filho ou filha, ao lado do seu leito de dor, consolando-a, dando forças para suportar os sofrimentos!

Os outros filhos olharão para os pais e dirão: como os meus pais são maravilhosos, como eles são dedicados. A minha mãe é uma heroína, acompanhou o meu irmãozinho até o fim. Que exemplo!

É neste momento de sofrimento que a família se une melhor; há maior solidariedade entre as pessoas.

Contudo, não são assim os pais que matam os seus filhos. Eles procuram principalmente o prazer, o gozo da vida. Procuram eliminar qualquer forma de sofrimento. Eles são o fruto de uma sociedade descristianizada. Para eles não importa o quinto mandamento que diz «não matarás», assim como os demais.

Prevendo a eutanásia para crianças, em 1936…

Na coluna «7 dias em revista» do Legionário, n.º 212, de 4 de Outubro de 1936Plinio Corrêa de Oliveira comentava um facto então pioneiro: em Perth (Austrália) um pai matou o próprio filho por motivos de saúde. Transcrevemos a seguir o texto na íntegra:

«Pela primeira vez, desde que o mundo se governa pelos princípios da civilização de Jesus Cristo, um pai mata o seu filho por motivos de saúde.

Trata-se do Sr. Sullivan, de Perth, na Austrália, que levou a passear o seu filho de três anos matando-o inesperadamente com um tiro. O próprio infanticida conduziu depois o pequeno cadáver à polícia, e declarou que a razão do crime que praticara era que o seu menino sofria de doença incurável.

Não era lícito a esse pai desnaturado, matar o seu filho, qualquer que fosse o pretexto por ele invocado. Mas façamos abstração disto, e consideremos a questão sobre outro aspecto. O Sr. Sullivan é «chauffeur», portanto pessoa relativamente desprovida de recursos. Será tão seguro que autorize o infanticídio o diagnóstico do médico de 2.ª classe, a quem provavelmente o Sr. Sullivan consultou? Será realmente incurável essa moléstia? Com os progressos que a medicina vem fazendo, não é bem possível que, daqui a alguns anos, o menino pudesse ser curado?

Em nada disto refletiu o Sr. Sullivan.

*   *   *

O Sr. Sullivan, em si, não interessa. A sua atitude vale apenas como sintoma de uma civilização.

A tal ponto o mundo descristianizado está perdendo o senso da caridade, que diversos escritores europeus já sustentam a inutilidade e, mais do que isso, a nocividade dos estabelecimentos de assistência à doença na infância.

Se a criança doente é um ser inferior, por que razão há-de o Estado sobrecarregar-se com a sua educação? Não seria melhor deixar morrer esses galhos quase secos, para que a seiva afluísse mais abundante, para os galhos sãos?

Se algum dia esse pensamento conquistar o mundo, os casos como o do Sr. Sullivan serão numerosíssimos.»

Nesse dia, a Igreja certamente já terá voltado para as catacumbas. E, no Brasil, as pessoas do povo matarão os seus filhos, nunca a conselho médico, mas por indicação de (satanistas)…»



[ii] http://www.lifenews.com/2016/09/19/first-child-dies-after-belgium-approves-measure-allowing-doctors-to-euthanize-children/ – acessado em 20 de Setembro de 2016.





terça-feira, 20 de setembro de 2016


Pedido de socorro


Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 17 de Setembro de 2016

Tudo começa quando chegam as listas de material escolar. Dá-me nervoso miudinho como se estivesse a dias de fazer uma operação de coração aberto. O sono é solto e os sonhos são pesadelos sobre compassos, canetas e separadores de plástico que me perseguem por florestas a arder em cenários de hipermercados. E eu, com os pés em brasa e a cabeça a andar à roda, não encontro os pincéis de tamanho dois e quatro. Só tenho um e de tamanho seis. Há milhares de tamanho seis. Acordo a suar ao som das gargalhadas da menina da caixa a dizer que tenho de lá voltar no dia seguinte porque já não há cadernos de argolas com capa mole, só há com capa dura. «Não servem. Ahahahah!» Ri-se ela. O sonho muda todos os anos, mas é sempre um pesadelo.

Há quem tire férias para preparar o regresso às aulas. Férias para encontrar guaches de seis cores específicas, tinta acrílica ou portfólios com 20 capas, em vez de férias para ir à praia. Férias para percorrer 200 km nos hipermercados, derreter centenas de euros e perder tempo de vida que fará falta na velhice. Férias para forrar livros. Forrar livros, repito. Há mais satélites no espaço do que baleias-azuis no mar e ainda não inventaram livros que não tenham de se forrar. Seja. Depois, quando finalmente tudo acaba, quando em dois dias ficámos mais pobres e certamente doentes, aparece a criancinha visivelmente irritada que diz: «Mãe, porque é que eu ainda não tenho o livro de Alemão?!»

É então que me sento, que me lembro de todos os mártires que por este mundo passaram, das vítimas da fome e da guerra, dos velhinhos abandonados e dos órfãos, e, relativizando assim a minha existência e a minha frustração, controlo-me e não estrafego a criancinha. Mas chega outro: «Preciso de ténis para a ginástica e a minha mochila está rota.» Abana a cabeça e vai-se embora. Depois outro, de sobrolho carregado a quem falta o bloco de papel A3. E então concluo que sou vítima de bullying. Sim, bullying. Pressão emocional e psicológica que experimenta os limites da minha competência e que me deixa a auto-estima em níveis irreparáveis. Há alguma linha de apoio para pais como eu? Um grupo?





segunda-feira, 19 de setembro de 2016


As perseguições mafiosas

ao juiz Carlos Alexandre


António José Vilela e Fernando EstevesSábado, 26 de Março de 2015


O juiz de instrução Carlos Alexandre não tem tido uma vida fácil. Nos últimos 10 anos, já o ameaçaram, invadiram-lhe a casa, tentaram atropelar-lhe a mulher e agora envenenaram-lhe o cão.

O animal de nome Bart, que lhe tinha sido oferecido pelo procurador João de Melo, morreu envenenado com remédio dos ratos. Durante semanas, o cão agonizou e acabou por morrer na semana passada. Suspeita-se que alguém tenha atirado para o quintal da casa do juiz um alimento misturado com veneno para ratos.

Estes casos já não são estranhos para o magistrado judicial que há mais de 10 anos lida com os processos mais complexos relacionados com criminalidade violenta e económico financeira. Quando estava colocado na Polícia Judiciária Militar, Carlos Alexandre chegou a ser ameaçado e temeu até ser agredido dentro das instalações daquela força policial que dependia hierarquicamente do ministro da Defesa Nacional. Na altura, Paulo Portas era o titular do cargo e o juiz tinha ordenado que o seu chefe de gabinete fosse colocado sob escuta por causa de um alegado negócio de compra de material militar.

Mais tarde, já colocado no Tribunal Central de Instrução Criminal,  invadiram-lhe a residência e deixaram-lhe uma velha pistola à vista que estava guardada numa gaveta. O juiz achou que se tratava de um aviso. Apesar de ter segurança 24 horas por dia, outros dois acontecimentos viriam a deixá-lo bastante preocupado, sobretudo porque em causa esteve a mulher Felisbela, que terá sido objecto de duas tentativas de atropelamento quando passava numa passadeira para peões.

Agora foi a vez do cão da família.






PETIÇÃO



Rogério de Moura enviou-lhe a seguinte Petição.

Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «APOIO AO JUIZ CARLOS ALEXANDRE » no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82973

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Rogério de MouraEsta mensagem foi-lhe enviada por Rogério de Moura (rdemoura007@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT82973







Carlos Alexandre incomoda


A folha de serviço


Eduardo Dâmaso, Sábado, 15 de Setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre já foi alvo de denúncias anónimas sobre contactos com jornalistas que nunca teve. Foi obrigado a um striptease salarial e a relatar a inspectores judiciais todos os rendimentos da família. Foi vasculhado por causa de um empréstimo de 4 mil euros num programa de TV dirigido por Sandra Felgueiras, filha da famosa arguida Fátima Felgueiras, que fez outro programa onde explorava alegadas «coincidências» entre as decisões do juiz e as notícias de um jornalista.

Foi «aconselhado», por superiores, a suavizar decisões sobre o crime de branqueamento em processos relacionados com Angola. Viu processos de obras em casa espiolhados e decisões suas achincalhadas por desembargadores da Relação de Lisboa que passaram mais de uma década em comissões de serviço nomeados pelos amigos políticos, com base em opiniões e não em argumentação jurídica. Viu os filhos ameaçados com pistolas deixadas em cima das respectivas fotografias.

Nunca teve uma repreensão do Conselho Superior de Magistratura. Tem quase trinta anos de serviço público, centenas de decisões acolhidas pelo direito e uma folha de serviço impecável. Tudo isso é indiferente aos pregadores evangélicos como Louçã e a outros que o macaqueiam, que reduzem tudo ao interesse indisfarçável que prosseguem e que não é outro senão safar Sócrates, mesmo que isso leve Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e Duarte Lima na mesma água do mesmo banho a deitar fora. Todos vítimas do malandro Carlos Alexandre e do iníquo Estado de direito em que vivemos… Grandes democratas!






O «caso» Carlos Alexandre


Elogio dos vermes


José Mendonça da CruzCorta-Fitas, 14 de Setembro de 2016


O juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista em que explicou quem era, e tudo o que disse de si está solidamente comprovado pela sua vida, a sua carreira, e o testemunho de quem o conhece ou com ele trabalhou. Mas o juiz Carlos Alexandre cometeu um erro grosseiro de avaliação: avaliou mal o país e o tempo em que vive, incomensuravelmente mais rascas do que julga ou desejaria. Compreende-se, pois, que logo lhe tenham caído em cima os barões do país pardo e da corrupção, obviamente acolhidos e aclamados na comunicação social avençada, e inevitavelmente acompanhados daqueles idiotas úteis que seguem qualquer carroça de pruridos politicamente correctos, na ilusão de mostrar equilíbrio e equidistância.

O juiz Carlos Alexandre avaliou mal.

Declarou-se católico praticante, e disse que a fé o estrutura e fortalece. Ofendeu o credo «laico» da redutora acepção socialista, menosprezou jacobinos e maçons.

Contou com alegria que tem uma família sólida e tradicional, com a qual se sente feliz. Desconsiderou, pois, as virtudes fracturantes.

Revelou serenamente que trabalha muito, ganha pouco, e vive uma vida de austeridade e contenção. Mostrou-se, portanto, displicente com uma governação que virou a página da austeridade, que defende a redução do horário de expediente para os trabalhadores (desde que do sector público), e celebra o fausto, (desde que reservado a quem tem políticas para as pessoas). E, pior, desprezou as nobres carreiras daqueles defensores da coisa pública que, à força do seu dinâmico optimismo, saltaram do Clio para o Mercedes S, do apartamento para o palacete e a casa de férias, da mediania para o enriquecimento sem causa ou explicação, do anonimato para a gloriosa inutilidade de algum observatório ou fundação.

O juiz Carlos Alexandre apresentou-se, em resumo, (e a sua vida e carreira, repete-se, parecem confirmar que é assim) como um homem sério e bom, incorruptível, estranho ao deslumbramento das mordomias, do dinheiro a rodos, dos pied à terre em Paris. Mais grave ainda: o juiz pareceu manifestar uma inabalável fé na Justiça, mesmo naqueles casos a que o programa do PS chama perseguição a políticos (seus).

Eis, pois, em pormenor e por extenso, o mais álacre manifesto contra o tempo novo português.

Que juiz deve servir, então, se Carlos Alexandre, que vai tão ao arrepio do miasma, não serve?

É fácil. Algum magistrado fiel como Santos Silva ou Silva Pereira; impoluto como Rocha Andrade; sensato, contido e escrupuloso como Costa; intocável como Ferro Rodrigues; polido como Galamba; sério como César; equidistante como Rangel; insuspeito como Nascimento; trabalhador como Nogueira; crível como Centeno; e que, no entanto, fosse frugal... como Sócrates.





quinta-feira, 15 de setembro de 2016


A preguiça mental contra a acção



Cid Alencastro

Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — «dá trabalho»… «dá preocupação»… «exige empenho»… «não é comigo»… — a pessoa acaba por ficar meio aparvalhada e deixa-se levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.

A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço. Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem é-me muito cómoda para exprimir esse «engorduramento» das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objectiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente «engordurados» da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.

Esse gosto mórbido da inacção mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de Género, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimónias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o «louco» olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.

Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!

O problema é exactamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar as suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem corajosamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.

Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores transformaram-se em lobos.






O feminismo moderno


https://www.youtube.com/watch?v=AGdhCa9K8_w







sexta-feira, 9 de setembro de 2016


A felicidade das famílias numerosas


Família de José Maria Postigo e Rosa Pich, de Barcelona (Espanha)

Plinio Maria Solimeo

É certo que as famílias numerosas são mais unidas. Os filhos aproximam-se mais dos pais e ajudam-os a enfrentar as vicissitudes da vida. Por isso é muito difícil ouvir falar de separação entre eles, o que é muito mais frequente nas famílias menos numerosas, e mesmo sem filhos.

Hoje em dia, quando se diz que uma família é numerosa, é porque tem de três a quatro filhos. E mesmo isso é cada vez mais raro. Pois em geral os casais não querem ter mais que um filho, ou mesmo nenhum, pois «dão trabalho», e «queremos gozar a vida». Infelizmente, boa parte dos casais está substituindo os filhos por animais de estimação, que tratam com mimos que não dariam a filhos.

Deste modo, a finalidade primordial do casamento, que é a procriação da espécie humana, segundo mandado de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é mais observada, ou o é muito pouco. Além de constituir grave pecado, isso traz como consequência secundária o envelhecimento e declínio da população.

Felizes os tempos em que se via por toda a parte a buliçosa e feliz algazarra de incontáveis crianças, cheias de graça, vitalidade e alegria.

Por isso trazemos hoje à consideração dos nossos leitores o exemplo de duas famílias excepcionais, uma espanhola e outra americana, que receberam como verdadeira bênção do Céu os numerosos filhos que Deus lhes mandou. A primeira teve 18, e a segunda, 13.

«Família Numerosa Europeia de 2015»

A família de José Maria Postigo e Rosa Pich, de Barcelona [foto acima, ao lado e abaixo], foi eleita pela European Large Families Confederation como a Família Numerosa Europeia de 2015, «não tanto pelo número dos seus membros, quanto pelo seu modo de encarar os reveses» da vida. A imprensa espanhola trouxe na ocasião extensas reportagens, nas quais nos baseamos, sobre essa família modelo[i].

Os dois esposos excepcionais que a constituíram vêm também de famílias numerosas. José Maria teve 16 irmãos e Rosa, 14. Por isso sempre sonharam em ter muitos filhos.

Mas isso parecia quase impossível, pois a primeira filha, Carmina, nasceu com severa cardiopatia[ii], tendo os médicos lhe dado poucos anos de vida. Entretanto, ela viveu até aos 22 anos, falecendo depois da licenciatura e acabar um mestrado. Os dois filhos seguintes nasceram com o mesmo problema e não sobreviveram. Por isso os médicos recomendaram ao casal que não tivesse mais filhos.

José Maria e Rosa não seguiram esse conselho. Diz ela: «Ninguém sabe o número de vidas que nos espera na Terra ou no Céu. […]  Se os filhos nascem e os tenho de enterrar, terão tido a oportunidade de salvar-se [pelo baptismo], e sempre serão os meus filhos. Pois a vida não acaba aqui na Terra». E conclui, com muita propriedade: «Estamos a voltar ao nazismo quando decidimos matar os nossos próprios filhos. Há algo no mundo que não está a funcionar bem quando consideramos que o aborto é um direito».

Esta mulher exemplar encontra na religião Católica as forças para enfrentar as vicissitudes da vida: «Somos graças a Deus uma família com fé, porque com tudo o que temos passado, não teríamos podido superar de outra maneira. Depois de enterrar dois filhos em quatro meses, a seguir morreu a mais velha, já com 22 anos, e nos teríamos desfeito de todo se não fosse pela fé que temos».


Com o falecimento de três filhos, restam-lhes ainda 15, o que os torna a família com mais filhos em idade escolar de toda a Espanha. Desses 15 filhos, 8 nasceram com a mesma doença de coração. Alguns curaram-se, outros estão em tratamento. Por esse motivo o casal promoveu uma fundação destinada à investigação da cardiopatia, cujo nome é «Menudos Corazones» (Pequenos Corações).
Muito activo, o casal não se limita a cuidar da sua imensa prole, mas já participou em numerosas reportagens e documentários sobre famílias numerosas. José Maria e Rosa também dão palestras de orientação familiar para ajudar outros pais.

Apesar do trabalho insano com uma família de 17 pessoas, Rosa ainda encontrou tempo para escrever um livro sobre a sua experiência e os segredos da felicidade da sua família «Como ser feliz com 1, 2, 3… filhos» [capa ao lado], que já foi traduzido em seis idiomas europeus. Orgulhosa dos seus inúmeros filhos, ela afirma: «Temos um tesouro que queremos compartilhar com a sociedade».

Como educar tantos filhos? Diz Rosa: «Os sacerdotes devem proporcionar uma direcção espiritual, mas creio que como pais de famílias numerosas temos uma graça especial para educar os nossos filhos e somos responsáveis pela sua educação. Creio que o facto de ter uma família tão numerosa tornou o meu coração maior, porque não só quero a todos os meus filhos, como também aos seus amigos».

Para ela, «não importa o que dizem os que não querem [ter muitos filhos] para não sofrer. As alegrias sempre superam os sofrimentos, e vale a pena lutar por cada segundo de vida. Uns lutam para ter um automóvel, por uma viagem, e eu luto por ter uma família. Se passamos de dois a três, tanto melhor. O que os meus filhos querem é ter muitos irmãos».

É preciso notar que o casal não é rico e vive apenas do seu salário. Por isso cria os filhos com muita austeridade. Rosa, além do trabalho com uma família de 17 pessoas, trabalha meio período numa empresa que organiza eventos. José Maria é consultor de indústrias relacionadas com o comércio de carnes, que produzem, processam e distribuem carne aos centros comerciais. Por isso passa quase o dia inteiro a trabalhar.

Os filhos dormem em dois quartos, em cada um dos quais foram adaptados dois conjuntos com quatro camas superpostas, um para os meninos, outro para as meninas. Não dá para mais. Em cada quarto, um dos irmãos fica como responsável, velando pela boa ordem e os bons modos. Os filhos são educados para agir como uma equipa. Cada um encarrega-se de um irmão menor.

As roupas e os livros escolares passam de filho a filho. A comida é muito frugal, não havendo no frigorífico coisas consideradas supérfluas como chocolates e refrigerantes. Também não há presentes de aniversário. Apesar disso, diz a mãe: «Os meus filhos valorizam muito cada coisa, como se fosse algo único».

Todos devem observar algumas normas. Na cozinha há um quadro com a função de cada um, como pôr, servir e tirar a mesa, pôr o lixo, apagar as luzes etc. E também uma lista de sugestões para se melhorar no dia-a-dia como, aos muito chorões, de «chorar uma só vez por dia», «não ficar amuado», «sorrir mais», «tratar bem o pai» etc.

Algumas coisas estão formalmente proibidas, como fumar ou adquirir uma moto ou telemóvel antes dos 18 anos. Todos se contentam com o que têm e não se sentem inferiorizados pelo que não têm. «Nós pomos alguns limites, diz a mãe, pois não esperamos para dizer-lhes ‘não’ só quando forem adolescentes; mas desde o primeiro momento, ano a ano. E sabem? Os meninos agradecem e os amigos querem ser seus amigos, porque vêem que são generosos e serviçais».

Com tudo isto, todos formam uma família muito feliz. E é uma alegria quando se encontram na hora do jantar. Os 15 irmãos estudam, praticam desporto e almoçam no colégio ou fora. Mas, haja o que houver, a hora do jantar é sagrada. «É quando nos juntamos e comentamos como foi o dia, o que sucedeu a cada um, ajudamos-nos, escutamos-nos e rimos», explica a mãe. Para ela,«cada um é um indivíduo, tem o seu carácter diferenciado e as suas preocupações próprias. Entretanto, ainda que custe crer, conheço muito bem todos os meus filhos».

Muito poucas famílias com menos filhos podem ter semelhante felicidade da situação e a satisfação que tal convívio produz!


*       *       *

Os Fatzingers: família numerosa, um dom de Deus

Rob, 51 anos, e Sam Fatzinger, 48, residentes em Bowie, Maryland, Estados Unidos, têm nada menos que 13 filhos [foto acima e abaixo]. A esposa cuida só da casa, de maneira que eles têm de viver apenas do salário do marido para sustentar uma família de 15 pessoas. Apesar de tudo, foram recebendo os filhos como uma dádiva do Céu.

O seu caso é tão excepcional, que «The Washington Post» dedicou-lhes extensa reportagem com o título: «Como uma família está a enviar 13 filhos à escola, vivendo sem dívidas — e ainda planeja aposentar-se cedo»[iii].

Entretanto, a vida desta família modelo não é assim tão fácil. Os seus chefes não nasceram ricos, e vivem somente do salário e de estrita economia. Desde que se casaram, há 27 anos, começaram a fazer um pecúlio para comprar uma casa. O seu único luxo é comemorar anualmente o aniversário de casamento  num restaurante económico.

Católicos ao estilo antigo, quiseram ter todos os filhos que Deus lhes mandasse, confiando em que, como diz um velho ditado popular, «cada filhinho já nascia trazendo debaixo do braço o seu pãozinho». Ou ainda, «Deus manda o frio conforme o cobertor». Por isso, por mais que a família crescesse, nunca passaram necessidades.

Católicos praticantes, o seu primeiro negócio foi uma livraria Católica. Como não tiveram muito sucesso, fecharam-na em 2000, quando já tinham sete filhos. Rob conseguiu então trabalho testando softwares e, muito aplicado e consciencioso, teve várias promoções, até receber um salário bem razoável. Entretanto, para sustentar a numerosa família, eles economizam no que podem. A esposa procura comprar sempre o que está em promoção, e adapta o seu cardápio de acordo com o que encontra. Nas horas vagas, Rob procura ganhar alguma coisa extra, cortando relva ou fazendo pequenos reparos para os vizinhos. Qualquer tostão é importante para eles.

Com as suas economias puderam dar entrada para a compra de uma casa grande, velha, de cinco quartos. Compraram-na barato, pois estava em tão mal estado, que parecia uma casa mal assombrada. O que levou o sacerdote que foi chamado para benzê-la a perguntar jocosamente: «Devemos fazer nela um exorcismo?»

Como a Providência Divina vela pelas grandes famílias, com a ajuda de parentes e amigos, aos poucos reformaram-na e tornaram a casa habitável. Com o tempo foi até possível acrescentar mais dois dormitórios e aumentar a cozinha. E os donativos foram chegando: um fogão a lenha, um sofá velho, um automóvel usado… Assim, foi possível ter coisas indispensáveis para tanta gente, como dois frigoríficos, dois fogões, duas máquinas de lavar pratos, uma caravana e uma máquina de lavar roupa. E os únicos que estão livres de cuidar da lavagem da enorme quantidade de roupa suja são os dois caçulas, de seis e quatro anos de idade. Evidentemente, como católicos exemplares, fica proibido fazer esse trabalho ao domingo, para observar o preceito.

A mãe ensina aos filhos as primeiras letras em casa, seguindo o bom costume americano do home-schooling. Depois frequentam os ginásios e universidades. «Os meus filhos arranjam empregos logo que têm idade, e aprendem a discernir entre necessidades e desejos. Eles pagam os seus telemóveis, os seus colégios, e até a gasolina que gastam». Eles aprendem a economizar para atender às suas necessidades, pois não têm mesadas.

Entretanto, o admirável êxito desta família não seria possível se não fosse a sua profunda fé: «Sem dúvida, a missa diária é o mais importante [para a família], e também o rosário à tarde, quando é possível, bem como viver o ano litúrgico», diz a mãe. «É difícil responder a isto [hábitos religiosos] em nível familiar, porque quase todos os nossos filhos já são maiores de idade e portanto responsáveis pela sua própria formação na fé. Eles vão aos retiros no instituto [católico] sempre que lhes é possível. […] Aqueles que vão, participam nas aulas sobre a Bíblia e nos grupos de jovens. E os menores são coroinhas». […] «Eu gosto de fazer uma Hora Santa durante a semana, mas foi difícil encontrar tempo por causa da numerosa família, e da minha personalidade. Sou muito madrugadora. Finalmente julguei que a melhor hora para mim [para fazer a Hora Santa] era ao sábado, às cinco horas da manhã».

Rob e Sam estão orgulhosos da sua família. E dão às outras alguns conselhos que as ajudaram a ser felizes: «Sê amável, e aja do modo que convenha à situação da tua família na vida. Ajuda as outras famílias, dá-lhes uma mão com os filhos ou a comida, apoiando-os na oração. […] Ama o pecador e aborrece o pecado. Encontra formas para que as pessoas se voltem para Deus, e sê um exemplo num mundo conturbado para ajudar os demais»[iv].

É certo que as famílias numerosas são mais unidas. Os filhos aproximam-se mais dos pais e ajudam-os a enfrentar as vicissitudes da vida. Por isso é muito difícil ouvir falar de separação entre eles, o que é muito mais frequente nas famílias menos numerosas, e mesmo sem filhos.

Que o belo exemplo de religiosidade e confiança na Providência dessas duas notáveis famílias sirva de inspiração a muitos casais.


[i] http://www.religionenlibertad.com/los-postigopich-18-hijos-en-la-cama-de-papa-y-mama-40617.htm

https://www.facebook.com/comoserfelizconunodostreshijos/

http://www.europapress.es/sociedad/noticia-familia-espanola-18-hijos-premio-familia-numerosa-europea-ano-20151209175448.html

http://www.elmundo.es/sociedad/2015/12/26/56731bbaca47410d658b4590.html

http://www.abc.es/familia/padres-hijos/abci-familia-espanola-18-hijos-premio-familia-numerosa-europea-201512100153_noticia.html

http://www.lavanguardia.com/gente/20160227/4035882214/familia-numerosa-postigo-pich.html

[ii] «alteração na estrutura do coração presente antes mesmo do nascimento. Essas alterações ocorrem enquanto o feto se está desenvolvendo no útero e pode afectar cerca de 1 em cada 100 crianças, segundo dados da American Heart Association. É a alteração congénita mais comum e uma das principais causas de óbito relacionados a malformações congénitas»

http://www.minhavida.com.br/saude/temas/cardiopatia-congenita

[iii] https://www.washingtonpost.com/lifestyle/magazine/13-kids-13-college-educations-not-rich-retiring-early/2016/08/08/3abe7cec-38b4-11e6-a254-2b336e293a3c_story.html

[iv] http://www.religionenlibertad.com/los-postigopich-18-hijos-en-la-cama-de-papa-y-mama-40617.htm

http://ipco.org.br/ipco/tag/familias-numerosas/#.V9KfXo-cGK8