quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


UM KAMASUTRA PARA CRIANÇAS?








Um Kamasutra para crianças?


Este estranho psiquiatra é o ideólogo da chamada «educação sexual»

Um Kamasutra para crianças?

Graça Canto Moniz

Não faltará muito para que, copiando o exemplo brasileiro, o governo distribua um kit de prevenção contra a homofobia recheado de «manuais escolares» e outro tipo de «material» que estimula experiências auto-eróticas e homossexuais.

O leitor não deve ficar chocado com a pergunta que coloco no título. É que, em rigor, o Kamasutra para crianças existe. E, imagine, goza do alto patrocínio do Estado português na sua qualidade de grande educador das massas. Ainda assim, nem tudo está perdido: pelo menos, do conteúdo do dito manual não constam imagens explicativas. Refiro-me a um documento datado de Outubro de 2016 cujo título é «Referencial de Educação para a Saúde», carimbado pela Direcção-Geral da Saúde e pela Direcção-Geral da Educação, com o objectivo de promover «a educação para a saúde em meio escolar». É neste pedaço de prosa que se encontram as directrizes e orientações no que respeita, entre outros temas, aos «Afectos e Educação para a Sexualidade», dissecados em subtemas, objectivos e metas a atingir.

No que respeita à educação para a sexualidade (em relação aos afectos sabemos bem quem é o titular da cátedra...), o referencial pedagogicamente explica que, apesar da ubiquidade do sexo, a escola é o local onde os alunos [do pré-escolar e do ensino básico] manifestam, de forma mais impressiva, os desenvolvimentos sexuais nos vários ambientes, incluindo «na relação com os docentes e trabalhadores». A prosa social construtivista desenvolve-se entre orientações várias no que respeita às «relações afectivas» e aos «valores» até ao subtema 4, sob o manto diáfano do «desenvolvimento da sexualidade», onde se prevê, em antecipação precoce do processo de erotização natural de desenvolvimento infantil, o objectivo de os alunos do pré-escolar adquirirem «uma atitude positiva em relação ao prazer e à sexualidade». O Estado quererá ensinar bebezinhos de três anos a ter prazer? Por fim, o referencial propõe ainda ensinar os alunos do 2.º Ciclo (5.º e 6.º anos) a distinção entre interrupção voluntária e involuntária da gravidez.

Não faltará muito para que, copiando o exemplo brasileiro, o governo distribua um kit de prevenção contra a homofobia recheado de «manuais escolares» e outro tipo de «material» que estimula experiências auto-eróticas e homossexuais. É, contudo, lamentável que o Estado arrogue para si o direito de, através de um manual de instruções, construído de forma centralizada, definir unilateralmente um modelo único de educação para a sexualidade. Profundamente relacionadas com o conjunto de valores que cada família escolhe, em liberdade, as escolhas quanto à educação sexual devem, impreterivelmente e em primeira instância, passar pelo crivo familiar, pelo respeito pela sensibilidade, pelas questões de consciência e pela autonomia dos pais.






terça-feira, 17 de janeiro de 2017


Gentil Martins:

«Achava que uma pessoa aos 86 anos estaria gagá.

Felizmente não me sinto assim»



A mão não lhe treme e só não opera mais porque não o deixam. Aos 86 anos, numa entrevista de vida, António Gentil Martins conta os momentos mais marcantes da sua vida, fala da família e do seu ídolo.

Marlene Carriço, 
Observador, 15 de Janeiro de 2017


São 86 anos de vida e 63 de carreira.

O cirurgião pediátrico António Gentil Martins colecciona no seu currículo mais de 12 mil operações, das quais se destacam as separações de sete pares de gémeos siameses, com um balanço positivo de nove sobreviventes.

Em entrevista de vida ao Observador, num consultório privado, em Campolide, onde ainda dá consultas, Gentil Martins lembra o atropelamento a que assistiu a caminho do Liceu Pedro Nunes, ainda jovem, para explicar porque decidiu ser médico.

Do concurso de beleza que venceu, na Praia do Tamariz, no Estoril, ao período muito exigente enquanto Bastonário da Ordem dos Médicos, Gentil Martins conta ainda como conheceu a mulher e como três dos oito filhos quiseram ser médicos, mas não conseguiram.

E recorda, orgulhosamente, o seu maior ídolo — o pai, António Augusto da Silva Martins –, em quem se tem inspirado. Dele herdou o gosto pelo desporto, embora não lhe chegue aos calcanhares. Foi campeão de Portugal de ténis, pelos juniores, e campeão de Lisboa de badminton. Com o tiro, foi aos Jogos Olímpicos, em 1960. Fundou a Juventude Musical Portuguesa e a Associação dos Atletas Olímpicos.


Obstinado, mas disposto a ouvir os outros, o católico Gentil Martins explica porque é contra a eutanásia e o aborto.

Durante a sua carreira de cirurgião, dividiu-se entre a cirurgia pediátrica e a plástica, e desdobrou-se entre o Hospital D. Estefânia, o Instituto Português de Oncologia e a clínica privada. Responsável pela criação do primeiro serviço de oncologia pediátrica do Mundo, no IPO, é lá que ainda continua, mas só como consultor. Não opera porque não o deixam. Aceita, embora não entenda. Afirma que ainda está capaz.

Bisneto de um professor de obstetrícia, neto de um professor de cirurgia e fundador do IPO, filho de cirurgião, irmão de médico, sobrinho e afilhado de pediatra e por aí fora. A medicina parece estar-lhe nos genes. Era incontornável seguir o ramo da Medicina? Viveu com essa pressão ou foi mais uma inspiração?



Tive a sorte de a minha mãe nunca ter interferido naquilo que nós gostávamos de ser porque entendia, e bem, que nós só somos bons naquilo que gostamos de fazer. Se vamos para uma coisa que não gostamos seremos sempre maus. Então eu estava hesitante entre ser engenheiro ou médico, apesar de ter aquela tradição familiar, não sabia. Um dia, quando ia para o Liceu Pedro Nunes, no largo do Rato, assisti a um senhor que foi atropelado e ficou a sangrar imenso e eu não sabia se ele estava vivo ou morto. Senti-me verdadeiramente impotente. Queria ajudar, mas não sabia como. E então nessa altura decidi que ia ser médico porque pensei que se uma coisa daquelas voltasse a acontecer alguma vez perante mim eu ia ser capaz de fazer algo. E aí decidi definitivamente que haveria de ser médico. E pronto, depois fiz o meu curso do liceu e entrei para a faculdade de medicina.

O seu pai morreu, tinha apenas três meses. Como foi a sua infância na ausência da figura paterna?

Tive uma mãe que valia por dois. Transmitiu-me todos os ideais do meu pai. Por outro lado, no desporto, por exemplo, tive um grande amigo do meu pai, que também era olímpico, o Duarte Montez, que tinha uma espingardaria e que me ensinou e até me emprestou as armas e deu-me munições, porque naquela altura a minha mãe não tinha capacidades.


Mas chegaram a passar necessidades?

Vivemos com muita moderação. Por exemplo, eu no liceu tinha que estar no quadro de honra para ter isenção de propinas. Vivemos com austeridade, sem passar fome. Não me posso queixar. Vivemos com uma certa modéstia, uma certa contenção. Aliás, uma das coisas que mais me marcou foi quando soube que era a minha mãe que nos dava prendas no Natal e não o Pai Natal, porque eu estava habituado a acordar muito cedo e ir à chaminé para ver os presentes que o Pai Natal tinha lá deixado. E quando soube que foi a minha mãe, que eu sabia que tinha dificuldades, foi uma coisa que me ligou ainda mais a ela e ainda senti mais admiração justamente por ela se sacrificar para nos dar os tais presentes que a gente gostava no Natal. Tinha uns seis ou sete anos. Foi um dos momentos marcantes da minha vida. Entretanto fui crescendo, fiz o meu curso, entrei para a faculdade.

Não me parece exagerado dizer que o seu pai é o seu grande ídolo. Mas porquê?

O meu pai era uma pessoa que se dedicava extraordinariamente aos outros. Há um facto muito curioso: ele ajudava o meu avô, o professor Francisco Gentil, e a determinada altura começou a deixar de ajudar. Veio-se a descobrir que era um amigo que ia casar e precisava de dinheiro, então a maneira que o meu pai teve de dar dinheiro ao amigo foi ser o amigo a ajudar o meu avô. Outra coisa também muito engraçada, ainda no tempo da monarquia, ele estava de banco no São José e apareceu um marinheiro que precisava de ser operado, mas precisava de uma transfusão. Não havia ninguém que tivesse o sangue daquele grupo a não ser o meu pai. Naquela altura as transfusões ainda eram feitas de braço a braço. O problema era que o meu pai precisava de ter os braços livres para operar, então lembrou-se de uma coisa espantosa: tirou sangue do pé e nunca ninguém soube, a não ser no dia seguinte, quando o director de serviço foi ver o que se tinha passado com os doentes, e viu a transfusão, e perguntou-lhe e aí ele disse que tirou do pé. E só se soube porque o director o disse. Ele não fez alarme nenhum. E acho espantoso como, em 1930, no enterro dele estiveram 1 500 automóveis. Tenho também um livro, em pergaminho, onde estão os nomes de todas as pessoas que deram 10 tostões para comprar o grau de Grande-Colar da Ordem da Torre e Espada que lhe foi dado depois de se ter oferecido como voluntário para a Guerra de 14/18. Lá você vê desde o primeiro-ministro, ao sapateiro, à criada de servir, ao ministro não sei das quantas, ao Presidente da República. Estão todos lá, sem qualquer distinção. Por outro lado, como desportista, eu vendo todos aqueles troféus, comecei a querer fazer coisas.

E fez.

Acabei por ser olímpico em tiro, fui campeão nacional de vólei, campeão nacional de ténis em juniores, introduzi o badminton em Portugal e sou o jogador número 1 da federação. Joguei também ténis de mesa. Sempre pelo CIF. E fundamentalmente amador.

Mas chegou a ser olímpico em 1960. Quer contar-nos esta passagem?

Em 1960 fui aos Jogos Olímpicos. Tive uma sorte enorme. Como as minhas provas [de tiro] foram logo nos primeiros dias, a partir do momento que acabei as provas, ainda tive 15 dias de férias em Roma. Pude visitar Roma, que foi uma maravilha, e pude provar comida dos outros todos.

E como conciliava os estudos com estes hobbies, a que juntava também violino, creio eu.

Bom, eu comecei a aprender violino quando tinha 10 anos, a minha irmã piano e o meu irmão violoncelo. Chegámos a fazer um trio. Mas quando comecei a estudar anatomia pus o violino de lado porque eu tinha de estudar 10 ou 12 horas por dia. Aquilo era praticamente obsessão também porque entravam mil alunos para o primeiro ano e depois saíam cem. Era uma razia total. E o violino se não é muito bem tocado, é uma vergonha, é horrível. Então encostei o violino. E passei a ir aos concertos. Fui fundador da juventude musical portuguesa.

Mas conseguia conciliar os restantes hobbies com a medicina?

Como eu era 100% amador, fundamentalmente só trabalhava no desporto aos fins de semana. E deitava-me cedo. Não bebia, não me drogava, não fumava. A minha preocupação não era ser profissional, era ser amador e fazer o que gostava.

Não fumava, não bebia e saídas à noite?

Nas férias, normalmente, ia para o Estoril e muitas vezes íamos para o Casino do Estoril. Depois, a partir do momento em que me tornei médico, passei a ter uma vida muito mais condicionada, até porque estava disponível para os doentes a qualquer hora do dia e da noite. Aliás, o meu telefone toda a gente sempre o teve. E depois tive a sorte de casar com uma mulher extraordinária. A seguir tive de aturar as minhas crianças, sobretudo na adolescência. Porque durante os dez anos que estive na Ordem dos Médicos eu praticamente não existi. O trabalho é extremamente absorvente.

E nunca deixou de exercer.

Nunca deixei de exercer, o que era extremamente complicado. E aí o que se prejudicou foi a família.

Arrepende-se?

É a única coisa de que me arrependo na vida. Mas é muito difícil estabelecer o equilíbrio certo. A Ordem é de facto extremamente absorvente e sobretudo num período de grande controvérsia. Tentaram destruir a Ordem a seguir ao 25 de Abril e eu quis repor a Ordem porque achava que para ser médico não era só defender os interesses da pessoa, a gente tinha de defender o interesse dos doentes. Acho que a Ordem dos Médicos não pode ser um sindicato, tem que ser muito mais que um sindicato. Ao fim de um ano e meio de luta consegui que uma assembleia geral de médicos dissesse que o sindicato era para estudar. E depois concluiu-se que o que os médicos queriam mesmo uma Ordem que os defendesse.

Voltando um pouco atrás. Ainda antes de chegar à profissão teve uma passagem pelo Reino Unido. Esteve lá três anos e meio. Terminado o curso porque decidiu permanecer no Reino Unido?

Eu não terminei o curso lá. Terminei a especialização. Eu terminei o curso em Lisboa, depois fiz o internato dos hospitais civis dois anos e estava a meio do internato de cirurgia pediátrica quando tive a bolsa para ir para Londres. Lá especializei-me. Fiquei com a especialidade de cirurgia plástica e de cirurgia pediátrica. E depois como me dedicava sempre ao cancro na criança, quando vim de Inglaterra, disse ao meu avô para criar um serviço para cancro das crianças, onde houvesse cirurgiões e pediatras. E então fez-se a primeira unidade no Mundo para tratamento do cancro da criança com cirurgiões e pediatras, em 1960. Mas estive dois anos a trabalhar de borla no Instituto do Cancro [IPO] porque o meu avô dizia que eu só tinha direito a receber ordenado quando mostrasse que era capaz de fazer coisas como deve ser. E só após uma conferência é que passei a receber ordenado. Durante dois anos não recebi nada, apesar de ser neto do meu avô.

E porque decidiu fazer especialização em cirurgia pediátrica e plástica?

Escolhi pediatria cirúrgica porque eu tinha uma irmã que era professora de enfermagem pediátrica e que casou com um pediatra. De maneira que eu pensei que era uma equipa óptima: um pediatra, uma enfermeira pediátrica e um cirurgião pediátrico. E gosto de crianças, que aliás são muito mais simpáticas que os adultos como doentes. São muito mais espontâneas e verdadeiras. Por exemplo, se vejo uma criança triste fico logo preocupado, se vejo uma criança bem disposta fico logo tranquilo. Além disso, na pediatria existem imensas mal formações em que a cirurgia plástica é fundamental. Mas uma das grandes coisas que eu gostava na cirurgia pediátrica era a variedade. Hoje em dia começa a existir muito mais sectorização, mas na minha época podia tratar-se de tudo. Aliás, isso foi absolutamente fundamental com os siameses. Os últimos siameses que eu operei demorei 13h30 e nos EUA, num caso idêntico, demoraram mais de 24 horas. A razão é que eu fazia tudo e eles lá tinham 24 cirurgiões a trabalhar e coordenar essas equipas todas era muito complicado.

Se eu lhe pedisse para destacar algum marco importante na sua carreira. Qual destacaria?

Há vários. Um foi a primeira operação em que tirei toda a pele da cara de um doente, de uma vez. Tinha uma doença congénita que fazia aparecer cancros quando apanhava Sol. E demorei 12 horas. Foi a primeira, nunca se tinha feito nem voltou a fazer-se. E foi a primeira vez que num congresso internacional me bateram palmas. Foi em 1961/62. Acabou por viver mais 35 anos e morreu com um cancro na cabeça, mas aí já não podia fazer nada. Depois os siameses de Moçambique foram os mais complexos de toda a cirurgia que fiz até hoje. Até mais complexa que essa. Porque estamos condicionados pela natureza. E penso que a coisa mais importante é tentar perceber o que se faz e porque é que se faz. Eu inventei uma série de técnicas novas, porque fazia as coisas segundo vinha nos livros e depois começava a pensar, será que esta é a melhor maneira, será que não há alternativas? E por causa disso arranjei uma série de alternativas.

Nem sempre lhe correu bem, certamente.

De modo geral, eu só avançava quando estava convencido. Assim por fantasia não. Por exemplo, nos tumores do rim da criança, eu apresentei o primeiro trabalho para fazer injecções antes da operação, em 1969. E durante cinco anos fui considerado violador do protocolo internacional porque era para fazer Raio X antes da operação e eu fazia injecção. Depois, quando uma parte do rim estava boa, eu só tirava a parte doente. Durante 25 anos violei o protocolo internacional, porque não se podia tirar só parte do rim. Mas porque é que eu ia tirar o rim todo? Portanto, sempre que era possível fazia a nefrectomia parcial. Agora já toda a gente aceita isso.

Mas foram 25 anos a contrariar o que estava escrito. Isso mostra um traço da sua personalidade. Chama-lhe determinação ou obstinação?

Obstinação, mas desde que com realismo e compreensão do que estou a fazer. Aliás, há uma frase que gosto muito dos ingleses: «Guidelines are not God’s lines». Portanto, as orientações são úteis e óptimas, agora não são a Bíblia sagrada, que tenhamos que seguir à risca. Temos que analisar doente a doente.

Mas essa obstinação aplica-se a tudo na sua vida? Em algum momento se pode ter confundido com arrogância ou tem por hábito ouvir quem está à volta e dar o braço a torcer se assim tiver de ser?

Eu tenho a preocupação de ouvir as pessoas que estão à minha volta. Mesmo quando operei os siameses de Moçambique fiz várias reuniões de serviço a perguntar o que eles achavam. Mas depois a decisão final é minha. E mais, os meus ajudantes zangam-se muito comigo, às vezes porque eu dou o primeiro corte e o último ponto. Eu começo e eu acabo.

Porquê?

Porque se houver alguma coisa que corra mal a responsabilidade é minha. Se correr bem, também é minha. É uma questão de princípio. Quando começo, devo acabar.

Assistiu ao nascimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Olhando para o percurso traçado, qual a maior conquista?

Toda a gente sabe que eu há 40 anos ando a lutar contra o actual modelo do SNS. Tentam dizer que sou contra o SNS, é pura desonestidade e inverdade. Eu sou é contra o modelo do SNS. Porque para mim nenhum SNS é suficientemente válido, se não der liberdade de escolha ao doente. O doente tem de ir onde se sentir bem, sem ser penalizado. O Dr. Arnaut, que é o chamado pai do SNS, disse que não era preciso fazer contas por causa da saúde, porque era um imperativo constitucional. Ora, toda a gente sabe que tem de se fazer contas para o SNS e tanto é assim que a Constituição teve de ser alterada para o SNS ter de ser tendencialmente gratuito. Só por absoluta inconsciência se pode pensar que a saúde não tem preço.

Modelo à parte. Houve ganhos?

Houve ganhos, mas esses ganhos também são bastante falsificados. Noutro dia vi um gráfico da mortalidade infantil, desde a primeira Revolução da República e depois no Estado Novo e vejo aquilo a descer, a descer, a descer e em 74 a mortalidade infantil ainda era mais ou menos três vezes superior à média europeia e só em 90 é que atingiu a média europeia e até baixou um bocadinho, porque se investiu em tratamento para os recém-nascidos. Por outro lado, também fica um bocadinho mascarado porque se aborta e o aborto não entra na mortalidade infantil. O maior benefício foi o trabalho dos médicos e o desenvolvimento científico.

Mas os portugueses têm acesso a cuidados de saúde de muita qualidade e até equiparados a outros cuidados a nível mundial.

Não tanto como dizem. E não posso aceitar que uma pessoa esteja seis meses numa lista de espera para ser vista. Não posso aceitar. O sistema está errado. Isso não é um sistema válido. Por outro lado, também sabemos que a nossa longevidade aumentou, mas o período em que estamos incapacitados é muito maior do que o que existe na maior parte da Europa. É evidente que estamos muito melhor do que os países africanos, de longe.

Voltemos à sua carreira. O professor reformou-se em 2000. Deixou a prática cirúrgica?

Eu continuo a fazer normalmente. A cirurgia pediátrica é a que gosto mais.

Mas no privado.

Sim, agora já não posso trabalhar noutro lado. Ainda estou no Instituto do Cancro [IPO] como consultor. Como criei o primeiro serviço do mundo de oncologia pediátrica deixam-me lá estar para dar opiniões, não sei quanto tempo. Normalmente não opero, porque eles têm muito medo que dada a minha idade se houver qualquer coisa que corra mal digam que é por eu ser velhinho. Eu acho que eles não têm razão, mas, pronto, aceito o critério. Cá fora continuo a fazer.

Sente-se capaz?

É uma regra médica essencial. Nós só podemos fazer aquilo que sabemos e somos capazes de fazer correctamente. Há certas operações de estética que eu já não faço porque já não sinto a sensibilidade que tinha quando as fazia. Por exemplo, as operações ao nariz. Mas as operações ao peito faço. Porque acho que faço bem.

A mão treme-lhe?

Não. A mão não treme rigorosamente nada. E vejo bem, porque fui operado às cataratas há cinco anos. Consigo ler a lista dos telefones se tiver boa luz. Não quero mais do que isso. Até porque nas operações a gente tem boa iluminação. E, portanto, enquanto me sentir bem e a fazer aquilo bem, faço. Quando tenho dúvidas já não faço. Mas aquilo que acho que faço bem, porque não?

Ao fim de 63 anos de cirurgias, mais de 12 mil operações, recorda alguma em concreto, ou algo que um familiar ou doente lhe tenha dito?

Eu tenho uma colecção de cartas de elogios e agradecimentos de doentes que tratei e que me agradecem a vida que têm hoje, que é normal, e poderia não ser. E isso é uma coisa que me dá imensa satisfação. São extremamente agradáveis para um cirurgião.

E foi a tratar um doente que conheceu a sua mulher.

Ela era a «mãe» de uma criancinha que tinha de ser operada. Porque os pais da criança estavam em África. Era irmã do pai e ela é que fazia de mãe. O pediatra chamou-me, eu tinha regressado de Inglaterra há pouco tempo, e a partir daí comecei a dar-me com a mãe adoptiva da criança. Começámos a namorar, mas fui na tal mobilização para Mafra, o que precipitou o casamento. Tive dois dias de lua de mel e depois o resto foi em Mafra.

Disse há pouco que gosta muito de crianças. Teve oito filhos. Nenhum seguiu medicina. Ficou triste com isso?

Tive pena. Tive três filhos que quiseram ir para Medicina mas não tiveram 18,5 portanto não foram, que é um disparate em Portugal. A vocação não serve para nada. Há uma dos três que ficou enfermeira, mas ganha uma miséria. É uma vergonha. E os outros dois acabaram por escolher outra coisa. Mas já tenho uma neta que é médica, outra está a tirar o curso e outra está em Psicologia e possivelmente irá também para Medicina quando acabar os três anos da Psicologia.


Defende a liberdade das pessoas, mas tem manifestado a sua posição contra a eutanásia. O que lhe pergunto é se não considera que a pessoa é livre de optar por continuar a viver ou não.

Eu acho que não. Aliás, a nossa Constituição diz que a vida humana é inviolável. A eutanásia é condenada há 2 500 anos pela ética médica, desde Hipócrates. E todos os médicos quando acabam o curso fazem o juramento de Hipócrates, em que dizem que o doente é a sua primeira preocupação e que nunca matarão. A pessoa pode suicidar-se, pois pode. Eu não concordo, acho que está a abusar de um direito. Se a pessoa se quiser atirar da janela, é lamentável, mas o problema é dela. Agora, interferência do médico, de maneira nenhuma. O médico, para mim, tem de ser sempre a favor da vida do doente. Se o médico aceitar a eutanásia, para mim deixa de ser médico e passa a ser um profissional de medicina, um licenciado.

E é essa postura pró-vida que o faz também condenar o aborto?

Condeno porque nunca ninguém disse que a vida humana tem interrupções. Quando juntamos duas células, uma do pai e outra da mãe, e se forma o ovo, já está tudo lá. E ao fim de três meses praticamente já existe tudo. Dos três meses em diante é só crescer. Nunca ninguém disse que havia ali uma interrupção. É claro que também tivemos o nosso querido Hitler, que achava que as pessoas deficientes eram para arrumar, eram um encargo financeiro. E ainda há pessoas que dizem que se um doente tem uma má formação grave o melhor é acabar com ele porque custa muito dinheiro. Mas a declaração Universal dos Direitos do Homem veio dizer que não é isso que nós queremos.

Em circunstância alguma?

Em circunstância alguma.

Nem em caso de violação?

Em princípio também sou contra, porque a criança não tem culpa do que aconteceu. Eu pessoalmente sou contra. Sei que há muita gente que é a favor. Aliás, a nossa lei permite tudo e mais alguma coisa. Aceita-se o aborto porquê? Por razões filosóficas, religiosas, políticas, todas as que quiserem, agora científicas de maneira nenhuma.

O facto de ser católico também influencia essa postura.

Isso pode influenciar-me, mas acho que não é preciso ser católico para ser contra a eutanásia e o suicídio assistido. A função do médico não é essa. Dizer que é um direito que acaba com os direitos? Não considero lógico.

Nunca se quis filiar em partidos nem em sociedades. Porquê?

Gosto de dizer aquilo que penso, quando quero e sem me preocupar se interessa a A, B ou C. E se eu julgo que estou certo, sou muito obstinado nisso. Se me convencerem que estou errado, aí aceito perfeitamente porque não sou infalível.

Mas dá espaço para o convencerem?

Perfeitamente. Desde que me expliquem porquê, tudo bem. E desde que eu compreenda porquê.

E já aconteceu muitas vezes?

Poucas, francamente. Desde que eu ache que determinados princípios que acho válidos são para manter, acredito naquilo e mantenho. Não quero estar condicionado por legislação. Serei muitas vezes objector de consciência, eventualmente. Mas não quero estar condicionado a não dizer aquilo que eu acho que devo dizer. Fiquei espantadíssimo, por exemplo, quando ouvi agora o Dr. Arnaut vir declarar que saía do Partido Socialista porque tinha havido lá muita trafulhice e que ele não compactuava com ela. Então agora é que ele acordou? Agora vem dizer que sai porque havia? Então se havia porque é que ele não o fez?

Procura sempre afastar-se das questões político partidárias, mas foi bastonário.

Quando fui bastonário da Ordem dos Médicos fui acusado de actuar como os comunistas e actuar como os fascistas, por causa do que eu defendia em relação à saúde. De maneira que disse: devo estar no sítio certo porque se actuo de umas vezes de um lado e de outras vezes do outro, devo estar certo. Cheguei a fazer uma greve, que é algo que sou absolutamente contra. E fiz a única greve médica que eu acho que foi ética.

E porque fez? Quando foi isso?

Foi em 80 e pouco. Por causa do Estatuto do Médico. O médico era o único profissional, depois da Revolução de Abril, que não tinha direito nenhum. Podia ser posto na rua em qualquer altura. A greve foi ética porque, primeiro, continuávamos a ir todos ao hospital e apenas assinávamos o livro de ponto dizendo greve. Tínhamos uma equipa de chamada nas secções regionais para atender qualquer doente que tivesse uma chamada urgente, que era atendido de borla. E reforçámos os serviços de urgência.

Mas como é que conseguiram então alguma coisa, não perturbando o serviço?

Aí está a nossa sorte. Ao fim de três semanas, num sábado à tarde, eu estava desesperado e dizia: «A gente vai rebentar porque os jovens médicos não têm hipótese. Não recebem ordenado há três semanas. Não têm hipótese de continuar a greve». Então o senhor secretário de Estado foi tão burro que proibiu os médicos em greve de entrar nos hospitais. Sabe quantos médicos ficaram no Hospital de São João do Porto? Sete. Sabe o que é que aconteceu? No domingo de manhã, o Governo reuniu de emergência, nunca tinha acontecido em Portugal, para aprovar o estatuto do médico.

E nunca foi convidado para ministro ou secretário de Estado?

Fui convidado para secretário de Estado no tempo de Sá Carneiro. Mas eu disse que não. Era presidente da Ordem dos Médicos na altura. E disse «não, eu gosto de ser presidente da Ordem e se vou para determinado partido político ou para um governo tenho de estar condicionado ao que o governo decidir, concorde ou não». Eu prefiro estar com independência. Eu sou católico e nunca fui da Juventude Universitária Católica (JUC). Quero dizer aquilo que me apetece, quando me apetece, desde que esteja convencido que tenho razão. Agora sentir que não posso dizer porque estou condicionado por onde estou, isso não me interessa nada.

Casou-se com 33 anos. Na altura já era tarde. Certo?

Bastante tarde. Era muito selectivo. Tinha de pensar muito bem.

Mas também não lhe sobrava muito tempo…

Sobrava. A gente convivia. E depois tive a sorte de ter um doente que me deu muito trabalho e de esse doente ter uma tia que ajudava um bocadinho. Isso também foi muito importante. E curiosamente a mãe dela era muito amiga da minha mãe. A mãe dela fundou a Cáritas portuguesa e eu tinha sido voluntário na Cáritas aí com os meus 19 anos. Ela tem menos nove anos que eu. Eu com 19 e ela com 10 não tem nada que ver. Bom, eu com 33 e ela com 24 já é diferente.

Há pouco contava também que teve de precipitar o casamento porque foi mobilizado. E a lua-de-mel foi onde?

Tivemos dois dias em Lisboa, ali assim para Alvalade numa casa que tinha alugado na altura. E depois Mafra. E estivemos num sótão onde tinha estado o meu genro esteve na tropa. E até aconteceu uma coisa muito engraçada. No dia em que chegámos lá, eu fui-me apresentar e, como era meu costume, quando saí de casa fechei a porta à chave. E ela teve de ficar o dia inteiro, sozinha, dentro de casa, sem comer. Ficou lá fechada. E quando eu cheguei, aflito, a única coisa que me safou foi o fato que eu trazia. Trazia um chapéu que me enterrava até aos olhos, umas calças mais curtas de um lado do que do outro, que era o que tinha sobrado lá do material que havia no quartel. E ela acabou por se rir com aquela figura esquisita e perdoou.

Do passado, para o presente. Já não exerce no SNS, mas exerce no privado. O seu dia continua a ser muito preenchido?

Não, porque não trabalho para os seguros e as pessoas vêm cá muitas vezes para ouvir segundas opiniões. Vêm cá para ver se eu digo se está bem o que lhes propuseram ser feito. E se eu digo que está bem, eles vão lá fora, fazer com um cirurgião mais barato. Antes tinha um consultório meu. Agora tenho umas horas às segundas e sextas num consultório de uma entidade que tem gabinetes.

E o que vai preenchendo o seu dia a dia?

Um dos grandes dramas é deitar os papéis fora. A quantidade de correspondência que eu tenho é brutal e há coisas que eu não sei se devo conservar ou não. Desde a Associação Médica Mundial, ao Colégio Internacional de Cirurgiões. Além disso sou membro de honra das sociedades internacionais da oncologia pediátrica médica e cirúrgica. E fui guardando tudo. Fui presidente 12 anos da associação dos atletas olímpicos e quando junto essa coisa toda penso assim: deito fora ou não deito fora. E é terrível, é muito difícil decidir. E o que é que eu vou fazer àquilo? E ainda por cima as casas hoje em dia não têm espaço para nada, já reparou? São casinhas pequenas onde é que eles [filhos] vão meter toda aquela trapalhada? Tenho também um quadro com medalhas. As do meu pai estão no Museu Nacional do Desporto que só tem três salas e a primeira é com o nome dele, onde estão os troféus dele

Então também tem mais tempo para a família.

Sim, mas está toda dispersa. Tenho uma filha na Suécia, uma filha no México, um filho em Taiwan. Os outros cinco estão em Lisboa. Mas pronto.

Vai dando para passear e viajar.

Eu já viajei tanto. Aliás, a vista mais bonita que eu conheço é a do Corcovado a olhar para o Rio de Janeiro. A cidade não me interessou nada, agora a vista lá de cima, com umas nuvenzinhas no horizonte, é uma coisa absolutamente espectacular.

Pensou alguma vez chegar a esta idade a exercer? Como encara a idade?

Eu quando era mais novo achava que uma pessoa aos 86 anos estaria gagá. Mas felizmente não me sinto assim. Aliás, eu sinto-me espantado como é que estou reformado há 16 anos. Como é que é possível? Eu estou formado há 63 anos, como é que é possível? Porque me sinto bem, graças a Deus. E, repare, não tremo nada. Vejo bem. De cabeça acho que estou bem. Como digo, há coisas que já não quero fazer. Mas enquanto eu estiver acima da média continuo, quando baixar, paro.

E continua com a perfeita noção disso?

Não sei. Mas peço ao meu ajudante que me diga se a coisa lhe parecer que não está a correr bem. E nessa altura, acabou. Mas eu gosto. E se eu gosto e acho que sei fazer porque é que não hei-de fazer? Eu acho que até sou útil, muito sinceramente. Há coisas em que acho um disparate não me utilizarem.

Agora tem muito tempo para descansar.

Agora tenho imenso. Ficar cá não fico de certeza, agora quando não sei, mas não me vou preocupar nada com isso. Não me vale nada. Sinceramente, gostava de acordar morto, como diz o outro. Era o ideal.





sábado, 14 de janeiro de 2017


O que é nacional é bom...








O lóbi das escolas de condução em acção...



MAIS UMA INVENÇÃO DA ESPERTEZA...

Aos de menos de 65 comecem a pensar em deixar de fazer anos.

«PENSE 2020» – REVALIDAR A CARTA AOS 65 ANOS VAI TER CONDIÇÕES.

Estamos bem entregues!... Recentemente alguém resolveu deliberar que para renovar a Carta de Con...dução, passaria a ser dispensável o até aqui exigido atestado médico.

Agora, surgiram por aí uns especialistas, se calhar «formados numa qualquer escola de aviário», que se lembraram de criar e baptizar um pomposo plano denominado de «PENSE 2020», o qual obriga os condutores com 65 anos ou mais que queiram revalidar a sua carta de condução, a terem que frequentar uma acção de formação obrigatória.

A medida consta na proposta do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária e tem como finalidade – segundo os ditos cujos – fazer baixar a sinistralidade rodoviária.

Ainda segundo estes «especialistas», pretende-se com esta medida, que as pessoas com 65 anos ou mais tenham aulas para «actualização obrigatória de conhecimentos».

Actualização de conhecimentos ou mais um saque ao bolso do contribuinte?!... É que se fôr para «sacar mais algum» ainda se percebe – embora devessem chamar o boi pelo nome. Agora para actualização de conhecimentos!... Conhecimento da realidade é o que falta a esta gente.

Ora vejamos:

Basta pesquisar o Relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária publicado em 2015 – o de 2016 ainda não se encontra disponível – para se chegar à conclusão que estamos na presença de um excelente trabalho, esmiuçado com vários gráficos que escalpelizam e tipificam os acidentes e atropelamentos por dia da semana, por hora e por condições atmosféricas.

Uma análise muito bem feita e onde constam os múltiplos acidentes por classe etária. E sendo assim, vamos então aos números ali produzidos:

– Classe etária dos 20 aos 24 anos – 4 788 acidentes;
Classe etária dos 25 aos 29 anos – 4 644 acidentes;
– Classe etária dos 30 aos 34 anos – 5 025 acidentes;
– Classe etária dos 35 aos 39 anos – 5 585 acidentes;
– Classe etária dos 40 aos 44 anos – 5 167 acidentes;

Sub total 25 209 acidentes

– Classe etária dos 60 aos 64 anos – 2 558 acidentes;
– Classe etária dos 65 aos 69 anos – 1 996 acidentes;
– Classe etária dos 70 aos 74 anos – 1 630 acidentes;
– Classe etária c/  mais de 75 anos – 2 164 acidentes;

Total Geral: 33 557 acidentes

Isto é, só se preocupam com uma faixa etária responsável por 11,3%, dos acidentes descartando o impacto das faixas etárias responsáveis por 75,1% da sinistralidade total.

Dito isto, os números valem o que valem!... É natural que depois dos 65 anos os condutores sejam sujeitos a rigorosas inspecções médicas e a partir dos 80 às ditas acções de formação para avaliação das suas capacidades.

Mas se olharmos atentamente os números que «são deles», é na faixa dos 20 aos 44 anos onde residem o maior numero de acidentes. E sendo assim pergunta-se:

O que se deve fazer a esta gente para baixar a mortandade nas estradas?!...

Em que planeta vivem estes chamados especialistas?!...

Porque não exigir isso sim a tal formação obrigatória a condutores que possuam um cadastro que a justifique, e um quadro de honra para os cumpridores pelo seu exemplo?!...





terça-feira, 10 de janeiro de 2017


A eutanásia causa inquietude no Canadá:

«Não pensava que seria tão fácil matar

com esta nova lei»


La amplitud de la norma canadiense ya está produciendo los primeros abusos:
personas a quienes se condiciona para que consientan en su muerte.

Leone Grotti, ReligionenLibertad, 9 de Janeiro de 2017

La ley canadiense que promueve la eutanasia es aún más permisiva que las leyes belga u holandesa, hasta el punto de que el inicio de su aplicación se ha traducido en un número elevadísimo de muertes. Así lo analiza Leone Grotti en Tempi:

La eutanasia en Canadá fue legalizada en junio de 2016 y por lo menos 744 personas ya han muerto con la inyección letal. Los datos, difundidos por CTV News, son altísimos, pero según la doctora de Vancouver Ellen Wiebe, que ha declarado que este año ha matado por lo menos a 40 pacientes, «los números aumentarán, estoy segura de ello. Creo que alcanzaremos a Holanda y Bélgica porque tenemos leyes similares. Esto significa que la eutanasia representará el 5% de las muertes del país».

Ellen Wiebe ha aplicado la ley a cuarenta personas en medio año.
Basta con que ella haya creído que sus pacientes cumplían los criterios legales.

La ley

La doctora se equivoca, porque la ley canadiense es mucho menos restrictiva que las de Bélgica y Holanda. De hecho, según la ley C-14, para que te maten hay que tener una enfermedad incurable para la cual «la muerte natural es razonablemente previsible». El problema es que la enfermedad incurable y su razonable previsibilidad no son establecidos por datos médicos objetivos; basta que «el personal médico o de enfermería crea que la persona cumple todos los criterios». No es necesario, por lo tanto, que la ley sea respetada; basta que el médico piense que lo es.

Inmunidad total

La diferencia es importante, sobre todo porque la ley especifica que un médico no puede ser acusado de homicidio ni siquiera cuando su opinión sobre el respeto de los criterios de la ley se revele «equivocada». Por último, el texto de la ley garantiza una inédita inmunidad a «todo» el que «haga algo» para proporcionar la muerte de un tercero que la haya pedido.

Matar a los deprimidos

¿Cómo se pueden impedir abusos de cualquier tipo? No se puede. De hecho, tras apenas seis meses ya hay testimonios dramáticos. Will Johnston es un médico de familia de Vancouver y desde hace meses relata casos en los que la ley ha sido violada, sin que el gobierno o el sistema judicial de Canadá se sientan en la obligación de intervenir de algún modo.

El doctor Will Johnston, contrario a la legalización de la eutanasia, relata la existencia
de distintos casos de abusos amparados por la amplitud de la norma.

Uno de estos casos atañe a un hombre, cuyo nombre ha sido omitido por cuestión de privacidad, con una enfermedad neurológica que le dejó parcialmente inválido. El hombre «al que yo visité y que estaba muy lejos de morir, tenía una fuerte depresión. Ya no salía de casa, había perdido la esperanza y sentía que su vida no tenía sentido. Por esto quería morir».

«Es tan fácil...»

Ahora bien, escribe Johnston, «a cualquier otra persona no inválida se le habría ofrecido ayuda psicológica parar salir de esta difícil situación». En cambio, este hombre fue muerto por eutanasia a manos de una doctora de Vancouver, que por teléfono le dijo a la esposa que «se le puede dar la vuelta a la ley declarando que en cualquier momento puede morir a causa de una infección por lo que su muerte, en consecuencia, es 'razonablemente previsible'». Johnston volvió a ver a la esposa de este hombre después de que fuera matado con la inyección letal y ésta le dijo: «No pensaba que fuera tan fácil» matar «con la nueva ley».

«Estamos un poco preocupados»

Ante estos casos las palabras de un docente de la Universidad de Toronto, Trudo Lemmens, recogidas por CTV News, parecen casi un eufemismo: «Estamos un poco preocupados porque personas vulnerables o que se encuentran en situación de vulnerabilidad – o por motivos económicos o porque la ayuda médica solicitada no está disponible – podrían ser presionadas consciente o inconscientemente para elegir la asistencia médica de la muerte».

El profesor Lemmens señala el riesgo de que los pacientes sean
presionados para pedir que los maten.

La verdadera «opresión»

Según el texto de la ley, el gobierno tendrá que redactar un informe oficial sobre el desarrollo de la ley sólo cinco años después de su aprobación, es decir, en el año 2021.

Mientras tanto, se podrá llevar a cabo todo tipo de abuso en la ilegalidad más total, desde el momento que los casos de eutanasia deben ser denunciados por los propios médicos, pero en el caso de que no quieran hacerlo por cualquier motivo ningún órgano ha sido predispuesto para el control. Mientras tanto, médicos como Ellen Wiebe están muy preocupados por todos los hospitales y clínicas religiosas que no quieren permitir la eutanasia en las propias estructuras por razones de conciencia: «Tenemos muchos centros que ni siquiera permiten discutir los temas del final de la vida. Creo que ésta es una verdadera forma de opresión».


Traducción de Helena Faccia Serrano (diócesis de Alcalá de Henares).