segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Adolescentes alcoólicos



À noite, na zona de Santos, em Lisboa, as ruas enchem-se de adolescentes e copos. Cerveja, vinho, sangria e misturas. Alguns acabam alcoolizados no hospital. É assim de norte a sul do país: todos os meses há miúdos a chegarem às urgências com intoxicações ou comas alcoólicos. Os mais novos não têm ainda 13 anos.

Catarina Guerreiro, Expresso, 15 de Outubro de 2017

No passeio, puseram-se os dez numa roda. Cada um pegou no pequeno copo com líquido escuro, ergueram-nos ao centro, brindaram à mais nova de entre eles e beberam a mistura num gole. Era o ritual de um grupo de primos e aquele estava a ser o baptismo de J., de 14 anos. Dentro do copo havia C 24, uma mistura de vodca preto e limoncello. Sempre que um deles completa 14 anos é assim: reúnem-se num bar e iniciam-no no mundo dos shots — dose de bebida alcoólica que se consome num só gole. Eram 00h28 da madrugada do último sábado quando J. engoliu em menos de um segundo o seu primeiro shot. Gritaram o nome dela e incentivaram-na. «Bebe, bebe...»

Estavam no Largo de Santos, em Lisboa, onde à noite se juntam muitos adolescentes. A uns metros de distância, a Praceta na Avenida D. Carlos I estava cada vez mais cheia e animada com miúdos, de idades entre os 13 e os 17 anos. Desde as 22h30 que começaram a chegar. Na mão tinham copos de cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro) que compravam nos bares do lado oposto da rua. Alguns seguravam garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja — «litrosas», como lhes chamam. Apareceram três miúdas com uma garrafa de plástico, de rótulo cor de laranja e imagens de fruta. «É sangria de vodca branco», desvendaram. E continuaram: «Comprámos no indiano a caminho daqui.» A maioria tinha 15 e 16 anos e, por isso, estão totalmente proibidos de comprar álcool pela lei. Mas conseguem sempre: ou não lhes pedem identificação ou tratam de contornar o problema. «Arranjamos forma. Nem que seja pedir a um maior de idade que o faça.»

Um grupo de seis rapazes divertia-se a meter-se com as raparigas. Um deles exibia, orgulhoso, o charuto que trouxera de casa. Outro corria sorridente enquanto ia buscar mais uma cerveja a um dos bares, onde a afluência era tanta que parecia difícil chegar ao balcão. Mas conseguiu. E saiu de lá com a sua quinta cerveja. «Já estou a ficar acelerado», avisava. Uns estavam mais calmos, outros não escondiam que gostam de beber sem limites. «Outro dia, bebi sozinho quase uma garrafa de whisky. Apanhei uma bebedeira e quando cheguei a casa vomitei imenso», contava um dos miúdos, com ar de «menino bem». Os adolescentes estavam em grupos, espalhados pela praceta. Ouviam-se gargalhadas, gritos. «Vou buscar um vodca», anunciava alto uma miúda que não parecia ter mais de 15 anos. O amigo, ao lado, com um jarro de vidro de sangria na mão, começava a dar sinais do que já bebera. Cambaleava e, ao tentar pegar no telemóvel de uma amiga, deixou-o cair ao chão. Já passava da meia-noite e meia. O espaço, com bancos de madeira corridos e umas mesas de madeira com cadeiras, estava cada vez mais concorrido. Parecia o recreio de uma escola secundária. Mas em vez de ser de dia, era de noite; e em vez de livros, traziam nas mãos copos com bebidas alcoólicas. Alguns fumavam. Ali não havia restrições. «Às vezes, há uns que abusam muito e acabam a noite no chão», descrevia A, de 16 anos, que, apontando para a berma da estrada, onde alguns se encontravam sentados, explicava: «Já vi aqui alguns em coma alcoólico.»

O número de adolescentes com excesso de consumo de álcool que dão entrada no Hospital Dona Estefânia, para onde são enviadas as crianças apanhadas naquela zona, confirmam o cenário: todos os meses entram pela porta da urgência pediátrica, pelo menos, cinco adolescentes com intoxicações alcoólicas agudas e alguns em coma alcoólico. Em 2016, o hospital registou 65 casos, e nos dois anos anteriores mais 132 (60 em 2015 e 72 em 2014). A maioria tinha 15 anos, mas dois deles eram crianças de 11 anos. E 39% tinham mais de 2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l). O caso mais grave foi o de um adolescente que registou 3,84 g/l e que esteve em coma alcoólico. Há situações ocasionais, mas outras são mais preocupantes e têm de ser seguidas de perto, explica a pedopsiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, a médica que fez o levantamento sobre as ocorrências com esta substância, tema a que se tem dedicado. «O álcool atinge o sistema nervoso central e, em miúdos vulneráveis do ponto de vista da saúde mental, potencia comportamentos como a agressividade, a automutilação, a depressão e às vezes é o gatilho para quem tem tendências suicidas», garante a médica.

DOZE ANOS, 1,56 GRAMAS DE ÁLCOOL

O fenómeno repete-se por todo o país. Na urgência pediátrica do Hospital de São João, no Porto, entre 2011 e 2015 deram entrada 346 adolescentes com álcool a mais. «E 8% tinham antecedentes de consumo», nota o director da urgência, Luís Almeida Santos, para quem a situação «é muito preocupante». «Estamos a falar de crianças bêbadas», alerta, explicando que nesta análise verificou-se que os adolescentes de 12 anos que deram entrada na urgência tinham em média 1,56 g/l de álcool no sangue. Já a média dos de 13 anos foi de 1,46 g/l; a dos miúdos com 14 anos situou-se em 1,79 g/l; a dos de 15 ficou pelos 1,64 g/l; a dos 16 anos atingiu os 1,65 g/l; e a dos de 17 anos posicionou-se nos 1,68 g/l. Valores muito elevados, avisam os médicos. Basta ver que os condutores com menos de três anos de carta são multados quando têm mais de 0,2 g/l e todos os outros a partir de 0,50 g/l. E quem revelar 1,2 g/l é acusado de um crime.

«Houve miúdos que chegaram com taxas entre os 0,5 e os 3,8 g/l de álcool», recorda o director da urgência, acrescentando que 40% foram situações com alguma ou muita gravidade, «com alterações do estado de consciência e sujeitos a exame neurológico». Almeida Santos está agora a analisar os processos clínicos do ano passado para concluir as estatísticas de 2016. Mas o fenómeno não parece estar a diminuir. Aliás, 2015 foi o ano em que o São João registou mais casos: 87 num ano. Ou seja, todos os meses, sete ou mais adolescentes deram entrada alcoolizados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, onde em 2016 apareceram «20 adolescentes com alteração do estado de consciência», refere Hugo Tavares, de 40 anos, pediatra e responsável pela consulta do adolescente, para onde são encaminhados os miúdos que surgem nas urgências com excesso de álcool. Para medir a gravidade da situação e o estado de coma, os médicos usam uma escala chamada de Glasgow: através da observação das capacidades ocular, verbal e motora são atribuídos pontos. Quinze é considerado normal; a partir de 11 começa o estado de coma superficial, 8 significa que se perdeu reflexos vitais — como o de se impedir que o vómito vá para os pulmões; e com valor de 3 significa um coma profundo.

Oferta. À noite, em Lisboa, como um pouco por todo o país, não faltam miúdos de copo na mão.
Podem ter cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro), sangria, bebidas brancas.
Outros optam por garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja
— «litrosas», como lhes chamam
.
Hugo Tavares concluiu um trabalho sobre os episódios que chegaram à urgência entre 2008 e 2016, para apresentar no Congresso Nacional de Pediatria, que se realiza no final deste mês. A maioria surgiu nas urgências à noite, ao fim de semana, ou em épocas de festivais e festas populares. A média de taxa de alcoolemia foi de 1,584 g/l. Mas um rapaz chegou com 2,74 g/l. Entre os embriagados havia uma criança de nove anos. As cenas vividas nas urgências revelam os perigos em que os adolescentes se colocam. Ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, chegou um miúdo, transportado pela polícia, que estava embriagado a dormir na estrada, «como se estivesse em casa», e deu entrada uma rapariga que bebeu álcool a mais e foi tomar banho ao mar. «Podia ter morrido afogada», nota Hugo Tavares, garantindo que muitos jovens estão a aderir ao binge drinking: «Ingerem grande quantidade de álcool de forma súbita. Três, cinco, até sete bebidas de uma só vez.» Uma tendência que, assegura, tem um enorme «impacto, porque leva a consumo de grande quantidade de álcool antes de terem tempo de começar a sentir os efeitos do álcool».

Foi provavelmente o que aconteceu a T., um rapaz de 16 anos que entrou em coma alcoólico. Estava com amigos numa feira em Santarém quando, a meio da noite, caiu e acabou internado no hospital. Bebeu sete cervejas e depois «empurrou tudo com 12 shots de absinto» e bebeu-os em pouco mais de 10 minutos. Não tardou até estar dentro de uma ambulância. Lembra-se de começar a ver tudo à roda, de ter momentos em que via tudo preto, de vomitar e de se sentir estranho. Mas a partir daí não se lembra de mais nada. Caiu, fez um traumatismo craniano e desmaiou. Foi levado para o Hospital de Santarém, onde os pais o foram buscar mais tarde. Ficou de castigo, apanhou um susto, mas não o suficiente para deixar de beber. Mas, para muitos, garante Hugo Tavares, passar por uma intoxicação destas é uma lição. O problema, diz, é que se cria uma falta de confiança entre os pais e filhos que às vezes é difícil recuperar. «Por isso estas consultas de adolescentes são importantes, pois também ajudam os pais.»

Naquela madrugada de sábado em Santos, no centro de Lisboa, ninguém parece preocupado com os riscos do que está a fazer. «Nós controlamos bem a bebida», diz M., de 15 anos, enquanto dá mais um golo na sua garrafa de plástico cheia de sangria. Nas escolas é raro ouvirem falar dos perigos do álcool, contam.

NAS MÃOS DA POLÍCIA

«É um grave problema de saúde pública. Mas a forma como estamos a passar a informação não dá. Assim não vamos lá», diz Rui Tato Marinho, hepatologista e autor de vários estudos sobre os perigos do álcool para a saúde. «O consumo excessivo está ligado a mais de 100 doenças», garante, dando o exemplo de cirroses alcoólicas, cancros, infertilidade. «E há riscos de morte súbita — que já vi acontecer no Hospital de Santa Maria — e de asfixia pelo vómito», avisa, aproveitando para recordar um estudo da Universidade de Boston, onde se conclui que quem começa a beber com menos de 14 anos tem cerca de 50% de probabilidade de ficar dependente mais tarde. «A única hipótese é restringir mais o consumo», defende Tato Marinho, notando que a. lei não está a ser eficaz.

É também essa ineficácia que a subcomissária da 1.ª Divisão da PSP, Aurora Dantier, de 52 anos, admite testemunhar nas operações que faz durante a noite no Bairro Alto e em Santos, exactamente nos bares ao pé da Praceta D. Carlos I. Por estas zonas encontra regularmente cenas degradantes: menores a caírem de bêbados e a vomitarem, alguns em coma alcoólico; taxistas que não sabem o que fazer a adolescentes embriagadas que não conseguem explicar onde vivem. E, por vezes, chegou a ficar estupefacta quando lhe apareceram pais, a quem ela telefonou para irem buscar os filhos, completamente embriagados. «Não se mudam mentalidades com decretos», diz Aurora Dantier. A subcomissária costuma fazer operações de vigilância de menores que estão na noite sem supervisão de adultos e é acompanhada por técnicas da comissão de protecção de menores, que com ela integram o projecto Sem Rótulos, para ajudar a prevenir situações de maior perigo. É comum a subcomissária entrar num bar e fazer na rua um perímetro de segurança. «Só deixo os adolescentes irem embora quando um adulto o for buscar.» Além disso, notifica por escrito os pais de todos os menores que forem encontrados a beber, como manda o artigo 7.º da Lei 50/2013, que define a venda e o consumo de bebidas alcoólicas. Na última operação que liderou, estavam 20 ou 30 miúdos nessa situação.

P. de 16 anos, já esteve algumas vezes no sítio errado à hora errada e apanhou as operações da subcomissária. «Fazem uma espécie de quadrado e ficamos ali retidos até os nossos pais nos irem buscar.» Na madrugada do último sábado não houve acções policiais em Santos. Por isso, à medida que as horas corriam, o som das garrafas de vidro partidas no chão aumentava. Já passava da uma da manhã e se alguns ainda se comportavam, outros já davam sinais claros do que tinham bebido. E atravessavam a estrada a correr, a rir e a gritar, sem olhar para carros que passavam e sem noção de que podiam ser atropelados. É essa falta de avaliação do risco, dizem os especialistas, um dos perigos do excesso de consumo. «Com o álcool, eles têm comportamentos de risco no sexo, na condução, na agressividade», nota Helena Fonseca, pediatra, responsável pela consulta do adolescente no Hospital de Santa Maria e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. «O álcool é o inimigo número 1», avisa.

Ao Hospital de Viseu, por exemplo, já chegou um rapaz de 17 anos em estado grave por causa de um acidente de mota, resultado do seu estado de embriaguez. E outro entrou, numa madrugada, nas urgências a convulsionar. «Temos de estar muito atentos porque nestes casos há risco de hipoglicemia», descreve Alzira Ferrão, de 58 anos, directora do serviço de pediatria do Hospital de Viseu, onde aparecem também casos de adolescentes muito novos. Não há muito tempo, um casal foi ao hospital com o filho de 10 anos a cambalear. Estava de férias e teve acesso a bebidas alcoólicas através de amigos. O consumo que é feito pelos adolescentes preocupa-a e o hospital tem protocolos com as escolas da zona, onde a sua equipa costuma ir uma vez por semana falar com os alunos. Além disso, fazem sessões de formação nos estabelecimentos de ensino e no próprio hospital, para professores, pais e estudantes. «Tentamos mostrar-lhes que o álcool é tóxico e afecta as células.» Por isso, num dos filmes passam a imagem «de um neurónio a ser regado com gotas de álcool e a atrofiar».

Da sua experiência, consegue perceber que grande parte dos casos são ocasionais e ficam internados menos de 24 horas, mas outros são mais complexos. «Já me disseram que bebem para esquecer.» Alzira Ferrão quer fazer um levantamento dos casos que entraram nos últimos anos nas urgências para comparar a situação com a que está descrita no último estudo feito no hospital de Viseu, que avaliou 74 casos entre 2006 e 2010. A taxa média de álcool foi de 1,78 g/l e 51% tinham consumido shots. Houve registo de escoriações, traumatismos e casos mais problemáticos, como uma fractura do osso frontal, que pode deixar sequelas. Não é assim tão raro, ocorrem acidentes graves.

No Centro Hospitalar de Setúbal, o pediatra José Freixo não esquece o que sucedeu a um rapaz de 16 anos que apareceu alcoolizado e com ataques epiléticos, e que teve de ser operado ao cérebro. O médico dá consultas de adolescentes no hospital, mas lamenta que metade não apareça. São reencaminhados pelos médicos que os atendem na urgência. Joana Cachão, de 29 anos, é interna na especialidade de pediatria neste hospital e já teve nas mãos algumas situações. «Em regra, são intoxicações leves e fazemos hidratação e aquecimento», explica. Há uns tempos, ela e outras médicas fizeram um estudo sobre o tema: analisaram os processos clínicos dos 99 adolescentes que chegaram com excesso de álcool, entre Julho de 2011 e Julho de 2015. Desde então, já atendeu alguns.

O último foi um rapaz de 16 anos que apareceu embriagado e a vomitar sem parar. Ficou a descansar e a avó foi buscá-lo perto das seis da manhã. Sabia que o neto tinha ido sair e beber uns copos, mas nunca pensou que acabasse assim. Foi também com surpresa que os pais de uma estudante chegaram recentemente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para irem buscar a filha, que ali estava deitada numa cama com intoxicação alcoólica, fruto dos festejos das praxes. Tinha bebido sangria a mais. «Tu?», perguntaram, incrédulos, os pais quando chegaram ao pé dela, na enfermaria da urgência pediátrica. Foram ajudados pelo psicólogo que todos os dias passa pelas salas da urgência e que, entre outros casos, auxilia pais e crianças a lidar com os problemas que resultam destas situações. «Os miúdos acham que desiludiram os pais», explica Gabriela Araújo e Sá, directora da urgência pediátrica do Hospital de Santa Maria, onde todos os meses chega um adolescente com intoxicação alcoólica aguda.

Para estes casos, o serviço tem um protocolo de actuação estabelecido, refere, por seu lado, Celeste Barreto, directora do Serviço de Pediatria, que define os exames a pedir, os passos a seguir e os sinais a observar. Um adolescente que apresente 0,5 a 1 g/l tem alterações da coordenação e desinibição; entre 1 e 1,50 revela desequilíbrio, entre 1,5 e 2, mostra letargia e dificuldade em estar sentado, com 3 entra em coma e com 4 a 7 corre risco de depressão respiratória. Uma actuação que segue as regras impostas em Julho passado por uma orientação que a Direcção-Geral de Saúde enviou para os hospitais, onde explica que estas intoxicações são um grave problema de saúde e impõe normas de procedimento.

«SABE A ÁLCOOL ETÍLICO»

Alheios a todas estas regras, naquela noite os miúdos continuavam a divertir-se em Santos. Entravam e saíam dos bares. São 01h20 quando J, de 14 anos, e os primos que a baptizaram continuam no ritual. Entraram noutro bar e beberam todos um shot, desta vez cor-de-rosa. Entretanto, em grupos, dezenas de adolescentes dirigiam-se para a zona das discotecas na Avenida 24 de Julho. «Eh pá, o meu pai disse-me para eu não beber», comenta uma adolescente com os amigos, enquanto dá um gole no copo que tem na mão. Não seguiu o pedido do pai: está embriagada e deita-se no chão da avenida. A um canto, um pouco atrás, uma outra adolescente, de 16 anos, vomita para poder continuar a noite, enquanto uma amiga aguarda pacientemente ao seu lado. Sentados no chão e num círculo, vários miúdos jogam à roleta com a garrafa e vão dando beijos uns aos outros. Num bar ali perto nota-se uma correria de entra e sai. «Vai lá buscar sete shots para nós», pede uma miúda ao rapaz do grupo. Bebem cada um o seu, num gole. «Eh pá, isto sabe mesmo a álcool etílico.»

É natural, explica Luís Patrício, psiquiatra. «O álcool das bebidas é igual ao da farmácia, etanol, que é um químico neurotóxico», explica o médico que se tem dedicado ao projecto «Mala da Prevenção», através do qual tenta alertar para a grave realidade do consumo de álcool por menores. Em vídeos que costuma divulgar, tenta passar uma simples mensagem: «Até 0,5 g/l vem a euforia; com 0,5 a um grama chegam as perdas de memória, de atenção e de juízo; entre 1 e os 3 g/l começa a diminuição da marcha, da visão, e da fala; com 3 a 5 g/l vem a falta de reflexos; e com mais de 5 g/l vem a morte».

Os miúdos não fazem ideia, garante. Alguns são até novos demais. R está com amigos numa fila para a discoteca, mas nenhum, admitem tem 16 anos, a idade permitida para entrar. «Temos bilhete de identidade falsos», acabam por confessar. Na realidade têm 14 anos, desvenda R, enquanto aponta para um outro grupo: «Aqueles ali são de 2004.» Ou seja, têm 13 anos. Segundo um estudo de 2015, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), coordenado por Fernanda Feijão, o álcool continua a ser a substância mais consumida pelos adolescentes das escolas públicas. E 31% dos alunos com 13 anos já experimentaram álcool, especialmente cervejas e misturas. Num inquérito de 2015, feito em 35 países europeus por um grupo de trabalho de especialistas (Espad — The European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs), 47% admitiram que consumiram álcool aos 13 anos e um em cada 12 estudantes europeus contou que teve uma intoxicação alcoólica com essa idade.

Começam a beber para serem aceites pelos amigos, funcionando muitas vezes como uma espécie de ritual, acredita Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra do Santa Maria, notando que em muitas famílias é aceite com naturalidade que os adolescentes bebam álcool. Nem todos os casos acontecem de noite, alguns dão-se no horário da escola. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Sofia Costa Lima, directora da urgência pediátrica, conta que já aparecerem miúdas embriagadas à tarde. E, em Gaia, o pediatra António Vinhas lembra-se do caso de uma adolescente que foi de visita escolar ao parque biológico e acabou a ser levada para o hospital por uma professora, com álcool a mais.

Com o andar da noite, na Avenida 24 de Julho sente-se por vezes o cheiro a haxixe, que vem dos charros que os miúdos acendem e partilham. Pelo meio, fazem directos para o Instagram, tiram selfies. A noite corre. Eram 03h17 quando o funcionário de um dos bares mais concorridos junto à Praceta D. Carlos I varria o chão, cheio de copos de plástico consumidos daquela noite. S. tem 31 anos e passou por um grave problema de álcool. Teve de se submeter a um tratamento e hoje diz que se sente bem e consegue beber com moderação. Mas viveu momentos complicados quando foi ao médico com uma depressão e descobriu que tinha problemas com o álcool. Ao olhar para trás, recorda-se bem como tudo começou. «Tinha 15 anos e comecei a beber shots.»





domingo, 15 de outubro de 2017

A nova fronteira da eutanásia: os pacientes de Alzheimer e a obrigação de não alimentá-los


Los defensores de la eutanasia aseguraban que nunca se permitiría en pacientes sin capacidad
de decisión. Ahora abogan por lo contrario.

ReligiõnenLibertad, 10 de Outubro de 2017

Artículo de Wesley J. Smith publicado en First Things.

Wesley J. Smith es miembro senior del Discovery Institute's Center on Human Exceptionalism y consultor del Patients Rights Council.

Las personas médicamente vulnerables no han estado nunca en mayor peligro, y los pacientes con Alzheimer en particular. En una encuesta reciente realizada en Quebec, donde la eutanasia por inyección letal es legal, un escalofriante 72% de los cuidadores está a favor de la eutanasia en el caso de pacientes con Alzheimer, incluso si la persona en cuestión no lo pide. Si el paciente pidió la eutanasia por escrito antes de  perder la capacidad de hacerlo, el porcentaje de cuidadores que lo aprueba aumenta hasta llegar a un terrible 91%.

Voluntad previa vinculante

Ambos escenarios son ilegales, aunque tal vez no por mucho tiempo. Con la legalización de la  eutanasia por inyección letal en todo Canadá, es previsible que se hayan puesto en marcha los mecanismos que permitan a los pacientes redactar órdenes escritas vinculantes para que les maten si pierden su capacidad mental.

Esto ya es legal en Holanda y Bélgica, dos países que parecen competir entre sí para redactar la ley más radical sobre la eutanasia. Pero, ¿qué pasa si el paciente con Alzheimer, después de perder la capacidad de tomar sus propias decisiones, no está sufriendo para nada? Pues... ¡qué se le va a hacer! Se considera que la voluntad expresada con anterioridad es la que prevalece sobre su actual estado de felicidad. De hecho, en un terrible caso de Holanda, una anciana con Alzheimer fue sujetada por su familia mientras luchaba para que no le pusieran la inyección letal. La autoridades holandesas determinaron que el homicidio había sido lícito porque «el doctor actuó de buena fe».

Objetivo: normalizar la eliminación

Ojalá los defensores de la eutanasia pudieran ser denunciados por defender lo falso. Durante años han asegurado con tono tranquilizador a la sociedad, recelosa, que sólo tendrían acceso a la eutanasia las personas que tuvieran la capacidad de elegir ser asesinadas.

Esta promesa fue siempre muy cuestionada. La «elección» nunca ha sido el punto central de la eutanasia, porque entonces la eutanasia debería estar disponible para todos aquellos, enfermos o sanos, que elijan morir. El objetivo ha sido más bien normalizar el hecho de matar como un remedio aceptable al sufrimiento, incluso cuando el paciente es incapaz de tomar una decisión racional, como en el caso de los pacientes con Alzheimer.


Renuncia voluntaria a ser alimentado

Aunque el suicidio asistido es legal en los Estados Unidos, sigue sin estar permitido en el caso de personas que no tienen capacidad de tomar decisiones. Esta restricción puede ser una cuestión de táctica política más que un principio fundamental. Hace unos años, Barbara Coombs Lee, jefa de la organización en defensa del suicidio asistido Compassion and Choices, dijo que el suicidio asistido para pacientes con Alzheimer era «una cuestión a tratar más adelante, pero no menos imperiosa» que la legalización de la eutanasia para los enfermos terminales con capacidad de decisión; lo que implicaba que la legalización de la eutanasia de personas con demencia sería lo siguiente, una vez que el país hubiera aceptado los planes de Compassion and Choices.

El objetivo de Compassion and Choices son personas ancianas que dejen instrucciones de suicidio mediante la privación de comida, procedimiento conocido en la jerga del movimiento pro-eutanasia como «renuncia voluntaria a comer y beber» (VSED, Voluntary Stop Eating and Drinking).

En su Guía de Instrucciones leemos: «Mucha gente lucha con el sufrimiento continuo de una enfermedad crónica o incurable y progresiva. Hay personas que, en cambio, deciden que simplemente ya están 'acabados' después de ocho o nueve décadas de una vida vivida plenamente».

Es alarmante que la American Nursing Association haya adoptado una política en apoyo del derecho a cometer VSED sin intervención por parte de nadie, y haya declarado que «la decisión de un paciente en lo que respecta a la VSED es vinculante, incluso si el paciente pierde después su capacidad [de tomar decisiones]».

Presumiblemente, la VSED es legal. Pero, ¿qué pasa si un paciente demente sin capacidad de tomar decisiones, que come y bebe voluntariamente, ha dejado instrucciones previas en las que declara que quiere que se le niegue el alimento cuando ya no tenga capacidad de decisión?


Cada vez más, prominentes bioeticistas sostienen que hay que obligar a los cuidadores a que «dejen de alimentar con cuchara a los pacientes», lo que significa literalmente que hay que dejarlos morir de hambre. Por ejemplo, en el Hastings Center Report de mayo-junio de 2014, Paul T. Menzel y M. Colette Chandler-Cramer argumentan: «El principio subyacente [a las directrices médicas anticipadas] es que las personas no pierden sus derechos cuando no tienen capacidad de tomar decisiones; simplemente alguien tiene que ejercer estos derechos por ellas. El elemento conductor detrás de la VSED es que forzar a las personas a ingerir alimentos es una intrusión tan inaceptable en su integridad, privacidad y libertad corporal como imponer un tratamiento médico no deseado. Por lo tanto, si las personas sin capacidad de tomar decisiones no pierden sus derechos cuando se niegan a recibir tratamientos que puedan salvarles la vida, tampoco los pierden en lo que respecta a la VSED».

Es como una adaptación al dispositivo. Directrices previas deciden si hay que aplicar o no tratamiento médico. Un paciente puede rechazar por adelantado la intubación, porque «la nutrición e hidratación artificial» se consideran, por ley, un tratamiento médico. Pero «alimentar con cuchara» no es un tratamiento, es una atención y cuidado humanos, no diferentes éticamente a girar al paciente en la cama para evitar las llagas de decúbito, o proporcionarle una higiene adecuada. Del mismo modo que se ignoraría una directriz que ordenara que un paciente no debe mantenerse limpio, lo mismo vale con una directriz que ordenara que hay que privar de comida a un paciente hasta que muera.

El sufrimiento de los cuidadores

Hay un último punto al que hay que prestar atención. El sufrimiento que causa la enfermedad del Alzheimer recae normalmente mucho más en los cuidadores que en los propios pacientes. Ciertamente muchos, al final del difícil camino, dicen que ha sido un honor cuidar de sus seres queridos incapacitados. Pero no debemos edulcorarlo: el cuidado y la atención de estos pacientes puede ser agotador y muy doloroso y, en algunos casos, peligroso para la salud de los cuidadores. Lo sé porque lo he vivido personalmente muy de cerca. Mi mujer y yo cuidamos de mi anciana madre en nuestra casa durante los últimos cinco meses de su vida, cuando su Alzheimer ya era muy avanzado. Créanme, la pérdida de la memoria es lo menos importante de esta enfermedad.


Es correcto que a los cuidadores se les autorice a rechazar tratamientos médicos intensivos que alargan la vida. Luego, cuando la muerte llega, es una cuestión de la naturaleza que sigue su curso. Pero permitir que los cuidadores ordenen a doctores o a personal sanitario que acaben con la vida del paciente es ir demasiado lejos. En algunos casos, esto lo que permitiría es que los cuidadores eliminaran a los pacientes debido a su propio sufrimiento, el de los cuidadores. Si a esto le añadimos cuestiones de conflicto de intereses, como herencias y costes del tratamiento, tenemos un abuso de personas mayores en potencia.

Por muy malo que pueda ser el Alzheimer, incluso las personas con Alzheimer profundo pueden experimentar momentos de claridad y alegría. Y cuando esto ya no es posible, estas personas indefensas siguen siendo miembros plenos e iguales de la comunidad moral, y tienen derecho a la mejor atención que podamos ofrecerles. Si una sociedad es juzgada por el modo como trata a sus miembros más vulnerables, nosotros rechazamos los planes descontrolados cuyo objetivo es matar a los pacientes de Alzheimer, centrándonos en mejor nuestra capacidad de cuidado y atención de los mismos.

Traducción de Helena Faccia Serrano.





domingo, 1 de outubro de 2017

Ideologia do género como abuso



Matthew Hanley, Actualidade Religiosa, 27 de Setembro de 2017

A chegada do frio outonal traz consigo o começo da época de futebol americano, que é bem-vinda, ainda que ser adepto de alguns clubes (tal como os meus San Francisco 49ers) requeira novamente um acto de fé sobrenatural este ano. Mas para Bennet Omalu, o «médico das contusões» – nome ganho pelo seu papel na revelação do fenómeno neste desporto – esta é uma época melancólica. O médico examinador-chefe do condado de San Joaquin, especulou recentemente que deixar os jovens jogar futebol americano levará eventualmente a um processo, porque o futebol é, nas suas palavras, a «definição de abuso infantil».

Com tantos abusos reais para nos preocupar, uma afirmação destas pode parecer exagerada, ainda que possamos desconfiar da sabedoria de deixar crianças muito pequenas andar a bater com as cabeças umas nas outras. Mas esta cruzada contra o futebol americano está a ser levada bastante a sério. Quase tão a sério como a cruzada a favor da normalização da «fluidez de género».

Recentemente veio-me parar às mãos a edição da Stanford Medicine News do Verão de 2017. A manchete era: «Jovens e Transgénero: Cuidando de Crianças na Transição» e elogiava uma endocrinologista pediátrica pelos seus esforços para «ajudar» estas crianças, utilizando medicamentos para bloquear a puberdade e outros «tratamentos» semelhantes. «Ao tratar os adolescentes transgénero com hormonas», afirma a médica «estamos a afirmar quem eles são». Ou seja, a cirurgia é apenas outra forma de afirmar que os seus corpos estão errados ao desenvolver-se correctamente.

Não pretendo implicar unicamente com a Stanford. A submissão à agenda transgénero tornou-se uma epidemia. A mais recente edição da «Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders» substituiu o antigo diagnóstico de «desordem de identidade de género» por «disforia» de género. E assim – voilá – deixa de haver uma «desordem» para tratar psiquiatricamente e o caminho certo torna-se necessariamente a mutilação através de hormonas ou de cirurgia.

A Associação Psiquiátrica Americana, deixando de lado o seu juízo, afirma simplesmente que a transição de género não envolve qualquer ilusão ou incapacidade psicológica – sendo que ilusão, neste caso, é definida como «uma crença falsa, ou juízo errado, mantido com convicção apesar de provas incontestáveis de sentido contrário».

Para chegar a uma conclusão dessas é necessário negar a realidade objectiva ou, então, declarar que ela é subordinada à forma como os pacientes querem definir a «sua» realidade. Elas são quem afirmam ser, se o dizem. Mas se formos por esse caminho então ninguém pode ser classificado como sofrendo de ilusões e invalida-se por inteiro o próprio conceito de uma desordem psiquiátrica. Estarão os psiquiatras americanos a tentar acabar com a sua própria profissão?

A adesão de tantos profissionais altamente treinados e inteligentes a uma mentira tão óbvia é uma visão verdadeiramente triste. Algumas podem acreditar nos dogmas «oficiais» de género, por mais irracionais que sejam, mas acho que a maioria não acredita. Pelo menos não verdadeiramente. Mas há que salvar a face e preservar o emprego, por isso alinham.

A forma como se conseguiu este conformismo ao melhor estilo soviético sem um politburo é um fenómeno verdadeiramente impressionante. É o último elogio ao pós-modernismo. Não que o Congresso estadual da Califórnia (para citar apenas um exemplo) não esteja a tentar alcançar o estatuto de politburo; eles querem multar ou enviar para a cadeia pessoas em situações de prestação de cuidados de saúde que não se referem aos pacientes utilizando o pronome escolhido, ou seja, o errado.

O triunfo da desonestidade intelectual já é mau por si, mas forçar os outros a concordar com algo que sabem ser uma mentira é um dos maiores sinais de totalitarismo. Pior, «ajudar as crianças a transitar», ao contrário de encorajá-las a jogar futebol americano ou qualquer outro desporto, é verdadeiramente uma forma de abuso infantil.

É isso que diz a Dr.ª Michelle Cretella, presidente da Ordem Americana de Pediatras, que tem coragem de falar sem papas na língua. Mas muitos dos seus colegas não têm essa coragem. Aliás, o número de «profissionais» dispostos a dar ares de legitimidade médica à ideia de «transitar» de género supera até os que se querem submeter a essa absoluta impossibilidade. Com tantos autoproclamados defensores da «ciência» neste mundo, não deveria ser necessário dizer que os «sentimentos» não podem negar o veredicto contido nos cromossomas masculinos ou femininos presentes em cada célula do corpo.

Alguns dirão que afirmar a realidade é uma atitude «julgadora». Mas a tentativa de obrigar à aceitação das teorias de transgenerismo viola o próprio credo do não-julgar. Por isso, já que se estão a fazer julgamentos, a maioria das pessoas concordaria que os profissionais que contribuem, de forma abusiva, para estas «transições» são muito mais culpados do que os adolescentes desorientados que precisam de compaixão e orientação firme. Os resultados para os que se submetem a operações de mudança de sexo não são bons. Os dados revelam-no. Profissionais de saúde que fingem – juntamente com escolas, media, corporações e outros – que a anormalidade é normal são, por definição, abusadores.

E nem falemos do preocupante paralelo entre a mutilação de anatomia saudável envolvida numa «transição» e a prática, justamente condenada, de mutilação genital feminina.

A «transição» é apresentada como um triunfo da ciência e do progresso, mas com a compreensão de que alguns tipos de transição não deviam ser permitidos de todo. Refiro-me, claro está, à perspectiva de alguém que queira mudar a sua orientação sexual de homo para hétero.

Que isto seja prescrito e literalmente criminalizado nalguns contextos denuncia a farsa. Quando a escolha pessoal é tão claramente rejeitada, não obstante toda a retórica tradicional em sentido contrário, isso é um sinal claro de que tudo isto tem a ver com o avançar de uma conclusão já determinada e nada a ver com a vitória da liberdade de escolha em si.

O fim para o qual caminhamos não é outra coisa que a obliteração da ordem e da ética que derivam da tradição judaico-cristã. Tem tudo a ver com o poder para se mudar as regras, trocar o que é bom por aquilo que é mau. É o jogo da desintegração total.

O abuso não é um subproduto ocasional e acidental de uma revolução maior, na qual a fluidez de género é apenas a mais recente rajada. É mesmo o cerne da questão.





sábado, 30 de setembro de 2017

Cartaz e convite — Conferência sobre Cristóvão Colon







Eutanásia... homicídio... Médico?... Assassino!



Pode parecer controverso, mas aconteceu na Holanda. Uma idosa de 74 anos, portadora de demência, manifestou o desejo de morrer «quando chegasse a altura». Mas disse não querer morrer quando lhe aplicaram a injecção letal. Teria a idosa mudado de opinião? É a questão que se impõe.


Mundo ao minuto, Holanda, 29 de Setembro de 2017

O médico que realizou a eutanásia numa mulher de 74 anos pediu à família que a senhora idosa, portadora de uma demência, fosse abraçada enquanto lutava «desesperadamente» para não ser morta, indica o jornal britânico Mirror.

Só por si, o facto de a mulher lutar contra a morte indica que esta não estaria de acordo com o acto que pôs fim à sua vida. E, por isso, o Ministério Público holandês decidiu investigar o caso, considerando que há suspeitas suficientes de que o médico quebrou as leis de eutanásia do país.

Este é, aliás, o primeiro caso a ser investigado nos Países Baixos desde que foi introduzida no ordenamento jurídico a lei da eutanásia, há 17 anos.

Este caso, divulgado pela primeira vez em Janeiro deste ano, causou indignação generalizada nos Países Baixos e em todo o mundo, lançando o debate sobre o facto de os portadores de demência terem, ou não, capacidade para manifestarem a sua opinião sobre um acto que põe fim às suas vidas.

A idosa, de 74 anos, tinha demência e anteriormente tinha manifestado o desejo de terminar com a própria vida «quando chegasse a altura certa».

A sua situação clínica foi piorando dia após dia e os relatórios médicos mostravam que a mulher evidenciava sinais de medo e de raiva durante a noite.

O médico responsável pela casa de repouso defendeu que a idosa já estava «num sofrimento horrível». No entanto, «ela não estava em posição de confirmar se estaria na altura certa para dar seguimento à eutanásia».

Durante a aplicação da injecção letal, a paciente terá dito repetidamente «não quero morrer».





sábado, 23 de setembro de 2017

Já não existe Natureza, abre-se o reino do desejo




Pedro Vaz Patto

Para a «ideologia do género» este será uma escolha independente do sexo de nascença e não haverá modelos de família (homossexual ou heterossexual) de referência, antes, uma indistinta parentalidade.

Quando se estudava o regime político do Reino Unido e se queria acentuar o parlamentarismo que o caracteriza, era habitual dizer: «O Parlamento pode fazer tudo, excepto transformar um homem numa mulher». Para além do exagero da afirmação, quanto à extensão dos poderes de qualquer legislador, o exemplo já não serve hoje, desde que a «ideologia do género» foi penetrando na ordem jurídica de vários países. Entre nós, desde a entrada em vigor da Lei n.º 7/2011, de 15 de Março, pode ser registado como homem ou mulher quem não tenha as características biológicas respectivas, mas que como tal se identifique pela sua auto-percepção subjectiva.

Para a «ideologia do género», que o Papa emérito Bento XVI designou como «revolução antropológica» contrária ao legado judaico-cristão e de outras culturas tradicionais, o género será uma escolha independente do sexo de nascença e não haverá modelos de família (homossexual ou heterossexual) de referência, como não serão modelos de referência a paternidade e a maternidade (antes, uma indistinta parentalidade). Para qualquer destes âmbitos, os dados biológicos relativos à diferença e complementaridade dos sexos serão irrelevantes.

Agora, pretende-se dar mais uns passos no sentido da penetração dessa ideologia na ordem jurídica portuguesa, através dos projectos em discussão na Assembleia da República (uma proposta de lei do Governo e projectos de lei do Bloco de Esquerda e do P.A.N.), relativos ao «direito de autodeterminação da identidade de género». Todos eles dispensam, para a mudança de identificação de género no registo civil, a apresentação, exigida pela lei vigente, de um diagnóstico médico de transexualidade, bastando a vontade do próprio. A proposta do Governo reduz para dezasseis anos a idade mínima para requerer essa mudança. O projecto do Bloco de Esquerda prevê a possibilidade de um menor (sem fixar qualquer idade mínima) requerer essa mudança contra a vontade dos representantes legais (que são quase sempre os pais) e com autorização judicial. O projecto do P.A.N. permite que esse requerimento seja formulado por um menor (também sem fixar idade mínima) através dos seus representantes legais ou do Ministério Público. A proposta do Governo prevê, por outro lado, a possibilidade de cirurgias de reatribuição de sexo em menores, em caso de diagnóstico de transexualidade, com autorização dos representantes legais.

O projecto do Bloco de Esquerda segue a tendência norte-americana que tem dado origem à chamada WC War, fonte de polémicas que inundam os tribunais. Determina que serão «adoptadas as medidas necessárias que permitam, em qualquer situação que implique o alojamento ou a utilização de instalações públicas destinadas a um determinado género, o acesso ao equipamento que corresponda ao género autodeterminado da pessoa». As polémicas norte-americanas surgem porque tal política pretende sobrepor um desejo de afirmação da «identidade de género» à salvaguarda de privacidade e segurança que justifica a separação por sexos de casas de banho, balneários e dormitórios.

O projecto do Bloco de Esquerda consagra o direito de qualquer pessoa ser tratada pelas outras, em qualquer contexto, de acordo com o género com que se identifica, para além do que conste do registo civil. E impõe (tal como a proposta do Governo) directrizes nesse sentido especialmente destinadas às instituições de ensino, públicas e privadas. O que significa impor a todos os ditames próprios da «ideologia do género», com as consequentes limitações da liberdade de expressão de um pensamento que possa ser contrário a tais ditames.

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida emitiu três pareceres sobre estes projectos. Com uma unanimidade pouco frequente neste tipo de questões, este órgão de composição pluralista pronunciou-se pela reprovação ética dos mesmos.

Afirma o parecer relativo à proposta do Governo que esta (o que também se verifica em relação aos restantes projectos), por dispensar qualquer atestado médico para a mudança de identificação no registo civil, «ignora a existência de pessoas afectadas por perturbações mentais, que se manifestam por convicções delirantes de transformação sexual, nas quais a autodeterminação está coartada ou mais ou menos comprometida. A questão suscitada é tão-somente esta: quem distingue, quando e como, os transexuais primários, detentores da plena convicção de pertencerem ao sexo oposto, daqueles outros, reféns de uma crença delirante ou de uma outra condição patológica (transexuais secundários), que procuram alcançar o mesmo desiderato, ou seja, mudar de sexo e nome? Ora, afigura-se inaceitável que esta questão, pelos riscos que envolve, possa ser resolvida mediante a simples apreciação do Conservador do Registo Civil (…). Tornar o registo civil um acto de natureza privada em que cada um, no exercício de uma liberdade absoluta, registasse a sua identidade de género quando entendesse, tornaria este registo como algo da esfera privada de cada pessoa, afastado da natural vivência pública onde todos estamos inseridos. Do mesmo modo, o estabelecimento de uma liberdade absoluta do registo de género de cada pessoa tornaria impossível um reconhecimento público da identidade de cada cidadão. Em diversos sectores da nossa sociedade, como no sistema de saúde, na educação, nos sistemas da segurança e da defesa do Estado, a simples e imprescindível identificação de uma pessoa poderia ficar comprometida.(…)»

Quanto à questão dos menores, afirma esse parecer que «o adolescente de 16 anos não está ainda em situação de exercer o direito de autodeterminação mas tão-só no patamar da elaboração cognitiva e sensitiva que o levará a essa compreensão, para posterior e oportuna decisão.»

A oposição ao projecto do Bloco de Esquerda é sintetizada, no parecer a ele relativo, nestes termos (nalguma medida também aplicáveis aos restantes projetos): « a) interpreta o «reconhecimento da identidade e/ou expressão de género» como «livre autodeterminação do género», autonomizando esse conceito do conceito de sexo, e a essa interpretação atribui, sem sustentação jurídico-constitucional suficiente, valor de «direito humano fundamental»; b) remete para um exercício simples de vontade individual o acto de identificação pessoal no registo civil, desconsiderando a sua natureza pública, com todas as consequências daí advenientes, em termos de certeza e de segurança jurídicas; c) confere aos menores de 16 anos o acesso universal à autodeterminação de género, como expressão de vontade autónoma, sem acautelar ponderadamente questões associadas ao seu próprio processo de maturação e desenvolvimento neuro-psíquico e advogando a possibilidade de litígio judicial contra os progenitores, no exercício das responsabilidades parentais; d) garante o direito ao livre acesso ao SNS para efeitos de tratamentos farmacológicos e para realização de procedimentos cirúrgicos que têm efeitos irreversíveis, sem a existência de um quadro clínico que configure apropriadamente as condições da intervenção terapêutica a realizar.»

As alterações propostas inserem-se, assim, numa agenda de afirmação ideológica. Uma ideologia que se afirma contra a realidade mais evidente, como se o legislador, na sua arbitrária omnipotência, pudesse contrariar essa realidade (se os factos contrariam a ideologia, «tanto pior para os factos»). Afirma o filósofo francês François-Xavier Bellamy a propósito de questão análoga: «Já não existe natureza, abre-se o reino do desejo».

Sobre a «ideologia do género» afirma a carta pastoral da Conferência Episcopal portuguesa de 14 de Março de 2013:

«Reflecte um subjectivismo relativista levado ao extremo, negando o significado da realidade objectiva. Nega a verdade como algo que não pode ser construído, mas nos é dado e por nós descoberto e recebido. Recusa a moral como uma ordem objectiva de que não podemos dispor. Rejeita o significado do corpo: a pessoa não seria uma unidade incindível, espiritual e corpórea, mas um espírito que tem um corpo a ela extrínseco, disponível e manipulável. Contradiz a natureza como dado a acolher e respeitar. Contraria uma certa forma de ecologia humana, chocante numa época em que tanto se exalta a necessidade de respeito pela harmonia pré-estabelecida subjacente ao equilíbrio ecológico ambiental. Dissocia a procriação da união entre um homem e uma mulher e, portanto, da relacionalidade pessoal, em que o filho é acolhido como um dom, tornando-a objecto de um direito de afirmação individual: o «direito» à parentalidade. (…) É certo que a pessoa humana não é só natureza, mas é também cultura. E também é certo que a lei natural não se confunde com a lei biológica. Mas os dados biológicos objectivos contêm um sentido e apontam para um desígnio da criação que a inteligência pode descobrir como algo que a antecede e se lhe impõe e não como algo que se pode manipular arbitrariamente. A pessoa humana é um espírito encarnado numa unidade bio-psico-social. Não é só corpo, mas é também corpo. As dimensões corporal e espiritual devem harmonizar-se, sem oposição. Do mesmo modo, também as dimensões natural e cultural. A cultura vai para além da natureza, mas não se lhe deve opor, como se dela tivesse que se libertar.»

Dir-se-á que todas estas considerações revelam insensibilidade perante o sofrimento das pessoas que se sentem de um género diferente do sexo de nascença e que poderão ver minorado esse seu sofrimento se forem reconhecidas pelo género com que se identificam. Mas não é frutuoso o amor que sacrifica a verdade, mascarando ilusoriamente a realidade. São muitos os casos de pessoas que se arrependem de cirurgias de reatribuição do sexo (veja-se o sítio www.sexchangeregret.com), uma mudança com consequências irreversíveis e que acaba por ser ilusória, dada a dimensão genética do sexo, que é obviamente inalterável. O psiquiatra Paul Mc Hugh afirma que essas práticas mascaram e exacerbam o problema da «disforia de género», sem o resolver, e que delas resultam apenas homens efeminados e mulheres masculinizadas, e não quaisquer verdadeiras mudanças de sexo. Via mais sensata será a da psicoterapia que conduza à harmonia entre a percepção subjectiva e as características biológicas (porque a pessoa nunca deixará de ser uma unidade que integra um corpo na sua integridade). Uma via que, também por razões ideológicas, se pretende proibir, como se proíbem terapias tendentes à mudança de orientação sexual não desejada.

Quanto às crianças e adolescentes, o American College of Pediatricians (ver www.acpeds.org) considera que práticas como cirurgias de reatribuição de sexo, ou o bloqueio da evolução pubertária (que também se advoga em nome do respeito pela «identidade de género») constituem uma «perigosa experiência de engenharia social», «baseada na ideologia e não na ciência», salientando que a grande maioria de casos de «disforia de género» em menores são superados com o normal crescimento, sendo que o bloqueio da evolução pubertária acarreta graves e irreversíveis danos.

O amor na verdade (caritas in veritate) – é o que se deve exigir para enfrentar estas situações.





quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Introdução à ideologia do «género»

Titular de la cátedra McCormick de Filosofía del Derecho de la Universidad de Princeton, Estados Unidos. Director del James Madison Program in American Ideals and Institutions en la misma casa de estudios.

La idea de que los seres humanos son personas no-corporales que habitan cuerpos no-personales nunca termina de desaparecer. Aunque las corrientes predominantes del Judaísmo y del Cristianismo la han rechazado hace ya mucho tiempo, lo que a veces se describe como el dualismo del «cuerpo y el yo» ha vuelto con sed de venganza, y sus seguidores son legión. Ya sea en los tribunales de justicia, en los campus universitarios, o en las mesas de directorios corporativos, ella sustenta y da forma al individualismo expresivista y al liberalismo social que se encuentra en alza.

El rechazo de la Cristiandad al dualismo del cuerpo y el yo se constituyó como la respuesta al desafío planteado a la ortodoxia por parte de aquello que fuera conocido como «gnosticismo». El gnosticismo se componía de una variedad de ideologías; algunas ascéticas, y otras directamente opuestas. Lo que tenían en común era el entendimiento del ser humano –una antropología– que dividía marcadamente lo material y corporal por una parte, y lo espiritual, mental o afectivo, por la otra. Para los gnósticos, era lo inmaterial, lo mental o lo afectivo lo que en última instancia importa. Aplicado a la persona humana, esto significa que lo material o corporal resulta ser inferior; si es que no se trata de una prisión de la cual se debe buscar escapar, cuando mucho sería un mero instrumento para ser manipulado a fin de servir a los objetivos o fines de la «persona», entendida como el espíritu, la mente o la psique. El yo es una sustancia espiritual o mental; el cuerpo, un vehículo meramente material. Tu y yo, en cuanto personas, nos identificamos completamente con el espíritu, mente o psique, y no nos identificamos de forma alguna (o cuando mucho en una forma altamente atenuada) con el cuerpo que ocupamos (o con el que de alguna forma «estamos asociados») y usamos.

Contra este dualismo, la posición anti-gnóstica afirma una concepción de la persona humana como una unidad dinámica: un cuerpo personal, un yo corporal. Esta visión contraria al gnosticismo se encuentra a lo largo de toda la escritura hebraica y de las enseñanzas cristianas. Esto no implica sugerir que la doctrina cristiana descarte la concepción bajo la cual el individuo es numéricamente idéntico con su alma inmaterial. Los pensadores cristianos contemporáneos se encuentran divididos sobre la cuestión de si el alma separada del cuerpo es numéricamente distinta de la persona humana, o si se trata de la misma persona en una forma radicalmente mutilada. Sí se tiene acuerdo, sin embargo, sobre el punto esencial, que es que el cuerpo no es un instrumento meramente extrínseco de la persona humana (o del «yo»), sino que una parte integral de la realidad personal del ser humano. Cristo ha resucitado corporalmente. Aristóteles, quien rompió con su maestro Platón sobre este punto, defiende una forma de este «hilomorfismo», como se le ha denominado. Sin negar la existencia del alma, afirma que la persona humana es un ser material (aunque no exclusivamente material). Nosotros no ocupamos o habitamos nuestros cuerpos. El cuerpo vivo, lejos de ser un vehículo o instrumento, es parte de nuestra realidad personal. Así que, sin poder existir apartados de su alma, no son inferiores a ella. El cuerpo comparte la dignidad personal; es un todo del cual nuestra alma es la forma sustancial. La idea del alma como la forma sustancial del cuerpo es la alternativa de la ortodoxia cristiana a la concepción herética del alma como «el fantasma dentro de la maquina». Es posible que separemos el cuerpo vivo del alma en nuestro análisis, pero no en los hechos; somos compuestos de cuerpo y alma.

Así que somos animales; animales racionales, sin duda, pero no mentes o intelectos puros. Nuestra identidad personal a través del tiempo consiste en la persistencia de los organismos animales que somos. De esto se sigue una proposición crucial: la persona humana comienza a ser al mismo tiempo que el organismo humano, y sobrevive –como una persona– al menos hasta que el organismo deja de ser. Y sin embargo, no somos animales brutos. Somos animales de naturaleza racional, organizados desde un inicio para el pensamiento conceptual, y para la deliberación práctica, el juicio y la elección. Estos poderes intelectuales no son reducibles a pura materia. Las creaturas que las poseen son capaces, con madurez y bajo condiciones favorables, de captar caracteres inteligibles (y no solamente sensibles) de las opciones de acción, y de responder a esas razones con elecciones que no están determinadas por eventos antecedentes. No es que actuemos de forma arbitraria o azarosa, sino que elegimos en base a juicios de valor que nos inclinan hacia diferentes opciones sin obligarnos a esas opciones. No existe contradicción, bajo la concepción hilomórfica, entre nuestra animalidad y nuestra racionalidad. Si adoptamos la posición gnóstica, entonces los seres humanos –miembros vivos de la especie humana– no son necesariamente personas, y algunos humanos son no personas. Aquellos quienes se encuentran en las etapas embrionarias, fetales o de temprana infancia no serían aún personas. Aquellos quienes han perdido el ejercicio inmediato de ciertos poderes mentales –por ejemplo, las víctimas de la demencia avanzada, los que se encuentran en estado de coma prolongado o los mínimamente conscientes– habrían dejado ya de ser personas. Y aquellos que padecen de discapacidades cognitivas congénitas severas no serían ahora, nunca habrían sido, y nunca serán personas.

Las implicancias morales de esto son claras. Es la vida personal la que nos da razones para afirmarla como inviolable y protegerla de todo daño; en contraste, podemos legítimamente usar otras criaturas para nuestros propósitos. Por lo mismo, quien se adscribe a la concepción gnóstica y su antropología, que separa a la persona del cuerpo en la forma que hemos descrito, verá facilitado el referirse a aquellos quienes ostentan capacidades mentales subdesarrolladas, defectuosas o disminuidas, como no-personas. Les parecerá más fácil justificar el aborto, el infanticidio, la eutanasia para los impedidos cognitivos, y la producción, uso y destrucción de embriones humanos para la investigación biomédica.

Bajo la misma premisa, tal antropología es la que sustenta el rechazo del liberalismo social a la ética sexual y marital tradicional y su concepción del matrimonio como una unión masculino-femenina. Dicha concepción carece de sentido si el cuerpo es meramente un instrumento de la persona, a fin de ser usado para satisfacer metas o fines subjetivos o producir sentimientos deseables en la persona-sujeto-consciente. Si no somos nuestros cuerpos, el matrimonio no puede involucrar en su esencia una unión de una sola carne realizada por el hombre y la mujer, como lo sostienen las tradiciones judías, cristianas y clásicas de la ética. Pues, si el cuerpo no es parte de la realidad personal del ser humano, no puede existir nada moral o humanamente importante de la unión «meramente biológica», fuera de sus efectos psicológicos enteramente contingentes. El presuponer el dualismo del cuerpo y del yo hace más difícil apreciar que el matrimonio es un bien humano natural (pre-político e incluso pre-religioso) con su propia estructura objetiva. Si la sexualidad es solamente un medio para nuestros fines subjetivos, ¿No significa que ella es lo que sea que queramos que sea? ¿Cómo puede estar orientada a la procreación o requerir exclusividad en forma permanente, por su propia naturaleza?

Sólo podemos encontrar sentido en la concepción del matrimonio como una unión de una sola carne si entendemos al cuerpo como verdaderamente personal. Es entonces que podemos ver la unión biológica entre un hombre y una mujer como una forma distintiva [y única] de unión entre dos personas, la que es alcanzada, a la manera de la unión biológica de las partes al interior de la persona, por medio de la coordinación hacia un fin corporal único del todo. Para la pareja, ese fin es la reproducción. Su orientación hacia la vida familiar tiene por lo mismo una significancia humana y moral, y no «meramente biológica». Los cónyuges, en su unidad corporal, renuevan la unión omnicomprensiva que es su matrimonio. Esta concepción, a su vez, nos ayuda a captar el sentido del deseo natural y espontáneo de querer criar a los propios hijos y la importancia normativa de comprometerse a hacerlo cada vez que ello sea posible, incluso a un costo personal elevado. (Una madre desea que la manden de la maternidad a su casa con el bebé que ella de hecho parió, y no con uno que le fuera asignado al azar de la reserva de bebés nacidos durante su estadía en el ala de maternidad). Este instinto refuerza una ética sexual sensata, que especifica los requerimientos del amor conyugal y parental fiel; una ética que parece carecer de sentido y ser hasta cruel a los ojos de liberales sociales contemporáneos.

Para ellos, después de todo, lo que importa es lo que sucede o se verifica en la mente o la consciencia, no en el cuerpo (o el resto del cuerpo). La unidad personal verdadera, en la medida de que algo así es siquiera posible, es una unidad al nivel afectivo, no al biológico. El «matrimonio» tiende a ser visto y tenido, entonces, como una institución socialmente construida que existe para facilitar los vínculos románticos y para proteger y favorecer los variados sentimientos e intereses de la gente que formaliza esos vínculos. No se trata de una sociedad conyugal en lo absoluto, sino de una forma de compañerismo románticosexual o bien de una asociación doméstica. La procreación y los niños son apenas contingentemente relacionados a ellas. No hay ningún sentido, ni siquiera en términos indirectos, en que el matrimonio es una asociación procreativa o una sociedad cuya estructura y normas reciban su forma de la orientación inherente de nuestra naturaleza sexual a la procreación y sustento de los niños. La concepción conyugal del matrimonio como una unión del tipo que se realiza en plenitud natural por la generación y sustento de los hijos en común se presenta como una idea ininteligible y hasta extravagante para el neo-gnóstico.

En la misma línea, y de la forma en que el liberalismo social presenta esta materia, el sexo en sí no es un aspecto inherente del matrimonio o parte de su significado; la idea de la consumación marital por medio de las relaciones sexuales también aparece como extraña. Así como para los liberales sociales dos (o más) personas pueden tener sexo perfectamente legítimo y valioso sin necesidad de estar casados el uno con el otro, también sería el caso que dos (o más) personas pueden tener un matrimonio perfectamente válido y completo sin tener relaciones sexuales. Se trataría enteramente una cuestión de preferencias subjetivas. El juego sexual consensual es valioso en la medida de que permite a los involucrados expresar sus sentimientos deseados, como la afección, o bajo la misma medida, la dominación o sumisión ante el otro. Pero si es el caso que no tienen deseo por ello, el sexo carece de sentido incluso al interior de la relación matrimonial. Es meramente incidental y por lo mismo opcional, como es opcional el ser o no dueño de un auto, u optar por tener una cuenta corriente conjunta o separada. La esencia del matrimonio es el compañerismo, no la noción sexual, y por supuesto mucho menos la procreación.

Y todo esto explica, por supuesto, por qué la ética liberal contemporánea apoya y patrocina el matrimonio entre personas del mismo sexo. Incluso sugiere que el matrimonio puede existir entre tres o más individuos en grupos poli-amorosos sexuales (o no sexuales). Dado que el matrimonio se desenvuelve con prescindencia de la biología y se distingue por su intensidad emocional y calidad –en atención a que la verdadera «persona» es el yo consciente y sintiente– los «matrimonios» entre personas del mismo sexo y los poli-amorosos son posibles y valiosos en la misma forma básica que la unión conyugal entre el hombre y la mujer. Pues los compañeros en estas otras agrupaciones también pueden sentir afecto los unos por los otros e incluso creer que la calidad de su relación romántica se verá favorecida o estimulada por el juego sexual mutuamente acordado (o por la inexistencia del mismo, según sea el caso). Si esto sería en definitiva, la esencia del matrimonio, aquello de lo que se trata, entonces negarles el estatus marital implica denegarles «igualdad matrimonial».


Y sobre todo esto encontramos además el transexualismo y el transgenerismo. Si somos compuestos de cuerpomente (o cuerpo-alma) y no simplemente mentes (o almas) que habitan cuerpos materiales, entonces el respeto por la persona exige respeto por el cuerpo, lo que descarta las mutilaciones y otros ataques directos e intencionados contra la salud humana. Esto significa que, excepto en casos extraordinariamente raros de deformidades congénitas que llevan al extremo de la indeterminación, nuestra masculinidad o femineidad [en cuanto pertenencia al conjunto macho o hembra] es discernible a partir de nuestros cuerpos. El sexo se constituye a partir de nuestra organización biológica básica en relación a nuestro funcionamiento reproductivo; es una parte inherente de qué y quiénes somos. Cambiar el sexo es una imposibilidad metafísica porque es una imposibilidad biológica. O al menos extremadamente improbable. Es posible que resulte ser tecnológicamente factible cambiar el sexo de un individuo humano en una etapa muy temprana del desarrollo embrionario, ya sea por medio de la alteración del genoma o, en el caso de un macho embrionario, por medio de la inducción de insensibilidad andrógina de forma suficientemente temprana como para que el desarrollo sexual proceda como lo haría si se tratara de una mujer genética. Pero, por supuesto, hacer esto sería inmoral, pues involucraría una intervención corporal radical sin consentimiento del afectado y con graves riesgos para su salud. Luego, los cambios de sexo son biológicamente imposibles siempre que se hace cierto que el cambiar las capacidades sexuales de una persona desde la raíz requeriría revertir una multiplicidad de órganos y otras características sexuales que ya se encuentran diferenciados sexualmente, al punto de que por hacerlo terminaríamos con un organismo distinto de aquel con el que empezamos (y sospecho que ese punto se alcanza cuanto menos en las etapas más tempranas dentro del útero). Como ha argumentado Paul McHugh, desear el cambio del propio sexo es una patología; un deseo de dejar de ser uno mismo y pasar a ser un alguien distinto. No es por lo mismo desear el bien propio, sino que desear la no- existencia propia de quien uno es. En contraste, la concepción liberal considera que ninguna dimensión de nuestra identidad personal está verdaderamente determinada por la biología. Si tú crees y sientes que eres una mujer atrapada en el cuerpo de un hombre, entonces eres exactamente eso: una mujer («transgénero»). Y por lo mismo puedes legítimamente describirte a ti mismo como mujer, a pesar del hecho de que eres biológicamente hombre, y tomar acciones concretas –incluso al punto de realizarte amputaciones y tratamientos hormonales cruzados– para alcanzar la apariencia externa femenina, especialmente dónde crees que el hacerlo te permitirá «sentirte» más plenamente como mujer.

Esta forma de plantear el asunto va demasiado lejos. ¿Qué es lo que está diciendo un individuo transgénero pre-operativo de «hombre-a-mujer» cuando afirma que él «es en realidad una mujer» y que desea la cirugía para confirmar ese hecho? No está diciendo que su sexo es femenino-hembra; eso es obviamente falso al no ajustarse a la realidad material. Tampoco está diciendo que su género es «mujer» o «femenino», incluso si concedemos que el género es en parte o en todo una cuestión de autopresentación o apariencia social. Es claramente falso el decir que este macho biológico es actualmente percibido como una mujer. Él quiere ser percibido de esa forma. Pero la premisa para su solicitud de cirugía es la afirmación del pre-operado de que es «en realidad una mujer». Por lo mismo, ella debe ser previa. ¿A qué se refiere entonces? La respuesta no puede ser su sentido interior. Eso de todas formas exigiría que fuera su sentido interior de algo, en circunstancias de que parece que no existe «algo» de lo cual pueda tener un sentido interior (pues aún no lo tiene ni interior ni exteriormente, y desea tenerlo porque no lo tiene). Para el neo-gnóstico, el cuerpo sirve al placer del yo-consciente, a quien está sujeto, y por lo mismo las mutilaciones y otros procedimientos no presentan problemas morales inherentes. Ni tampoco es contrario a la ética médica el realizarlos; de hecho, puede ser para él contrario a la ética que un cirujano calificado se rehúse a realizar tales procedimientos. Al mismo tiempo, el neognóstico insiste que los cambios quirúrgicos e incluso los puramente cosméticos no son necesarios para que un macho sea una mujer (o que una hembra sea un hombre). El cuerpo y su apariencia no importan, excepto en un sentido instrumental. Dado que tu cuerpo no es el verdadero «tu», tú sexo (biológico) e incluso tú apariencia no tienen que estar necesariamente alineados con tu «identidad de género». Tienes un derecho, se nos dice en la actualidad, a presentarte a ti mismo de cualquier forma que sientas que eres. Y dado que los sentimientos, incluyendo los sentimientos acerca de qué o quién eres, caben o se posicionan en un espectro, y serían por lo demás fluidos, no nos encontraríamos limitados a sólo dos posibilidades sobre la cuestión de nuestra identidad de género (pueden de igual forma ser de un «género no conforme»), ni se estaría permanentemente adherido o atado a un género en particular. Existen, por ejemplo, los 56, 58, o más géneros reconocidos por Facebook, y es posible que se encuentre al género cambiando a lo largo del tiempo, o de forma abrupta. Es incluso posible que se cambie el género por medio de actos de la voluntad. Puedes cambiar de género en forma temporal, por ejemplo, por razones políticas, o de solidaridad con otros [o por conveniencia]. Por supuesto, la mayoría de las observaciones aquí realizadas sobre el género pueden extenderse de igual forma a la «orientación sexual», y la práctica de auto-identificarse en términos del deseo sexual; un concepto y práctica bien servido por una concepción del ser humano como una persona no-corporal que habita un cuerpo no-personal.

La posición antidualista que ha sido históricamente abrazada por Judíos y Cristianos (tanto en el Oriente como en el Poniente, por Protestantes y Católicos) ha sido nuevamente articulada en forma potente por el Papa Francisco:

«La aceptación de nuestros cuerpos como un regalo de Dios es vital para dar la bienvenida y aceptar el mundo entero como un regalo del Padre y nuestro hogar común, mientras que el pensar que disfrutamos de un poder absoluto sobre nuestros propios cuerpos deviene, a menudo en forma sutil, en el creer que disfrutamos de un poder absoluto sobre la creación. Aprender a aceptar nuestros cuerpos, cuidarlos y respetar su significado pleno, es un elemento esencial de una ecología humana genuina. Asimismo, valorar la propia femineidad o masculinidad del cuerpo es necesario si es que voy a ser capaz de reconocerme a mí mismo en el encuentro con otro que es diferente. En esta forma podemos aceptar con gozo los regalos específicos de otro hombre u otra mujer, la obra del Dios Creador, y encontrar un enriquecimiento mutuo. No es una actitud sana aquella que busca ‘cancelar la diferencia sexual porque ya no sabe cómo hacerle frente a la misma’».

El Papa, quien recientemente enfureció a los defensores del liberalismo social al denunciar la práctica de enseñar a los niños que su género es electivo y no dado como una cuestión vinculada a su sexo biológico, no está realizando un ejercicio ocioso o de filosofía puramente especulativa. Está respondiendo a un desafío concreto de la ortodoxia cristiana, representado por el resurgimiento moderno de una antropología filosófica contra la cual la Iglesia luchó en sus primeras batallas formativas contra el gnosticismo. Él sabe que esta antropología en sí se ha transformado en nuestros días en una especie de ortodoxia –la ortodoxia de una forma concreta de secularismo liberal a la que, siguiendo a Robert Bellah, me he referido como «individualismo expresivista»– que ha procurado una posición de dominación entre las élites culturales de Occidente. Ella presenta el sustento metafísico de prácticas sociales y desafíos ideológicos en contra de los cuales los Judíos ortodoxos y los fieles Cristianos (así como también muchos musulmanes y tantos otros) se encuentran batallando al día de hoy: aborto, infanticidio, eutanasia, liberación sexual, la redefinición del matrimonio, y la ideología de género.

¿Hacemos bien en resistir? ¿Es posible que la concepción dualista de la persona humana haya sido la correcta desde un inicio? Tal vez es real que la persona no es su cuerpo, sino que simplemente lo habita y que lo usa como un instrumento. Tal vez la persona real sí es el yo consciente y sintiente, la psique, y el cuerpo es simplemente materia: la maquina en la que reside el fantasma. Pensar así, sin embargo, exige ignorar el hecho de que la totalidad de nuestra experiencia es la experiencia de ser actores unificados. Nada nos da razón de suponer que nuestra experiencia es ilusoria. Incluso si la posición del dualismo del cuerpo y el yo pudiera cuadrarse en forma coherente –lo que dudo– de todas formas no tendríamos más razones para creer en ella que las razones que tenemos para suponer que en este preciso instante estamos soñando, o que somos prisioneros de la Matrix sin saberlo.

Pero hay más. Consideremos la más común de las experiencias humanas: el sentir (v.gr. oír o ver). Sentir es, obviamente, una acción corporal realizada por un ser viviente. El agente que realiza el acto de sentir es una creatura corporal, un animal. Pero es también claro que en los seres humanos, en cuanto animales racionales, es uno y el mismo agente quien conjuntamente siente y entiende o busca entender (por medio de una actividad mental) que es lo que él o ella está sintiendo o percibiendo por los sentidos. El agente que realiza el acto del entendimiento, por tanto, es un ente corporal, y no una sustancia nocorporal usando el cuerpo como una especie de artefacto cuasi-prostético. De no ser así, no seríamos nunca capaces de explicar la comunicación o la conexión que existe entre la cosa que realiza el acto de percibir o sentir y la cosa separada que realiza el acto de entender.

Para ver el punto más claramente, permítanme invitarlos a considerar lo que están haciendo en este preciso instante. Ustedes están percibiendo –viendo– palabras en una hoja de papel o una pantalla. Y no solo están percibiendo, considerado como el acto de recibir impresiones (una especie de dato) a través del medio de la visión, sino que están entendiendo qué es lo que están percibiendo. Primero, están entendiendo que lo que están viendo son palabras (y no, por ejemplo, números o manchas o algo distinto), y segundo, están entendiendo que las palabras en sí tienen un significado (tanto individualmente consideradas, como cuando están junto a otras formando oraciones). Ahora, ¿qué exactamente es la entidad –es decir, ustedes– que está simultáneamente realizando el acto de percibir y entender? Y más precisamente, ¿se trata de una entidad o de dos? La percepción o el acto de percibir es de hecho un acto corporal, pero ¿no es el mismo actor (es decir, ustedes mismos en cuanto seres unificados) el que está viendo las palabras y entendiendo que son palabras y qué significan? No tendría sentido suponer que el cuerpo está realizando el acto de percibir y que la mente, considerada como una sustancia ontológicamente separada y distinta del cuerpo, está realizando el entendimiento. Por lo pronto, ello generaría una regresión infinita de explicaciones en tratar de explicar adecuadamente la relación existente entre las dos sustancias distintas y separadas. No seríamos capaces de entender la idea de que ustedes están realizando el entendimiento, pero que un instrumento que están usando –no ustedes mismos en cuanto agentes únicos y unidos– está realizando las percepciones.

O consideren un caso simple de predicación gramatical y de pensamiento. Se aproximan a su escritorio y juzgan que lo que ven encima de él –esa cosa ahí– es una revista. Ese es un solo juicio, y ambas partes del mismo (el sujeto y el predicado) deben tener un solo agente: un ser que hace o realiza tanto el ver como el pensar, es decir, que ve aquella cosa concreta y particular y que entiende la misma al aplicarle un concepto abstracto (revista). ¿Cómo podría ser de otra forma? ¿Cómo podría ser que un ser contuviera ambas partes unidas en un mismo acto de juicio –la imagen sensorial y el concepto abstracto– sin estar ejerciendo al mismo tiempo las capacidades sensoriales e intelectuales?

Más aún, el agente que siente el particular –aquella cosa ahí– debe ser un animal, esto es, un cuerpo con órganos perceptivos. Y la predicación que va con la percepción es un acto personal; el agente que está aplicando un concepto universal (revista) debe ser una persona. (Una creatura no racional, como un perro, bien puede percibir, pero al carecer de la razón del tipo que permite o hace posible la formación de conceptos universales, no podría entender que lo que está percibiendo es una instancia particular de un universal.) Se sigue de esto que el sujeto que realiza el acto de juicio –aquella cosa ahí es una revista– es un ser, personal y animal. No somos dos entidades separadas. Ni es posible que la «persona» sea plausiblemente una etapa en la vida del animal humano. Si fuera el caso, después de todo, una diferencia categórica en el estatuto moral (persona vs. no persona) estaría basada exclusivamente en una mera diferencia de grado (en vez de ser una diferencia del tipo de cosa que el ser es), lo que es absurdo. Nosotros somos, en todo momento de nuestra existencia como seres humanos, yos-corporales y cuerpos personales.

En el plano del pensamiento moral y la práctica, existen pocos proyectos más urgentes que el de recuperar la noción de sentido común de la persona humana como una unidad dinámica; creaturas cuyos cuerpos son partes de sus «yo», y no sólo instrumentos extrínsecos. El liberalismo social contemporáneo descansa sobre un error, que es la trágica equivocación detrás de tantos esfuerzos de justificar –e incluso de inmunizar de toda crítica moral– actos y prácticas que son, en verdad, contrarios a nuestra dignidad igual, inherente y profunda.

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Introducción a la Ideología de Género


Abril 2017


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CONTENIDOS

  Prólogo
Cardenal Francisco Javier Errázuriz Ossa

➤ «Gender» y relación hombre-mujer
Piersandro Vanzan, S.J.
Robert P. George

Pronunciamientos Papales


Tomás Henríquez · Hernán Corral
Conferencia Episcopal Venezolana

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EL CASO DE ESPAÑA

Mons. Juan José Asenjo Pelegrina, Arzobispo de Sevilla.

Joaquín Mantecón Sancho, Catedrático de Derecho Eclesiástico del Estado, Facultad de Derecho, U. de Cantabria.

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SEMANA TEOLÓGICA PASTORAL 2017

Ver exposiciones de la semana teológica pastoral 2017: «Hombre y Mujer Dios los creo: Desafios actuales a la Antropologia Cristiana»