quinta-feira, 14 de abril de 2016


Eutanásia, morte digna?


Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador, 22 de Fevereiro de 2016

Como é possível que, num mundo cheio de mortes por ideologias fanáticas que pretendem um mundo limpo de infiéis, sem dignidade nem lugar, estejamos nós a discutir como matar para eliminar o sofrimento

Gostava de perceber o que se entende por dignidade. Para os defensores da eutanásia, esse tem sido um argumento. Mas dá vontade de perguntar: uma pessoa sofrida, em grande sofrimento, por uma doença ou situação «sem cura» perde a dignidade? A mãe a fazer o luto de um filho, por exemplo, ou um deficiente profundo, um doente «terminal» ou o Papa João Paulo II tremendo e babando-se nos seus últimos tempos, tornaram-se indignos? Não seria melhor «ajudá-los a morrer» ou, talvez, «matá-los piedosamente»? A resposta que me dão é que «faz muita impressão», que «não há direito de deixar ali a sofrer», que «a sua vida já só é um peso para si mesmo e para os outros» que «a sua vida acabou», «que sentido tem?»; e por isso mais vale acabar mesmo… e nós ajudamos; claro… se for esse o seu desejo pedido com liberdade.

Vale a pena comentar e responder a estas questões.

1) Então, a dignidade da morte viria desta ser a pedido, consciente e livre! Mas… todos sabemos que a liberdade é sempre condicionada e, de modo especial, ainda mais, no grande sofrimento ou na euforia. Um mínimo de psicologia e de entendimento da linguagem sabe que não se pode tomar à letra o que se ouve ou se lê. Quantas vezes atendo pessoas que mais ou menos com insistência me dizem «não aguento mais», «não sei o que ando cá a fazer», «isto não faz qualquer sentido», «quero morrer, ajude-me», etc. Então começa a conversa, respeitando essa dor. Conte-me a história toda, vamos ver por onde entra essa imensa solidão ou essa revolta, essa culpabilidade ou experiência de desamor insuportável… vamos falar dessa infelicidade, desse medo aterrador, desse sentimento de exclusão… E, tirando alguns casos de suicidas obsessivos, sempre se encontra algum caminho, uma janela, que ajuda a ver a luz (lá ao fundo), a descobrir uma aceitação possível. É preciso tempo, paciência e acolhimento para que a pessoa se comece a sentir amada ou, pelo menos, a admitir que pode ser reconhecido o seu valor. Tomo muito a sério a pessoa que pede a morte, mas devo perguntar-me: quer morrer ou está a dizer-nos outra coisa? Quer que aquele sofrimento morra, certamente. Mas a morte pela eutanásia, não mata o sofrimento, mata a pessoa! Aliás o que a minha experiência diz é que se eu, mais do que entender o seu sofrimento, também lhe mostro que concordo com a eutanásia, o que lhe estou a comunicar é: «realmente, mais um que acha que eu já não sirvo para nada».

2) A desfiguração e o sofrimento psíquico ou físico não tira dignidade à pessoa: esta, por maior que seja a limitação, não deixa de ser pessoa, sempre digna de ser respeitada e amada. O que é indigno na pessoa é a mentira, a corrupção, a inveja, a prepotência e a soberba que exclui e escraviza. A eutanásia também não resolve essas doenças morais, nem dá espaço para que sejam repensadas e superadas, eventualmente, com o acompanhamento, com o perdão e o paliativo necessário. Se, em vez de acompanhar a pessoa, para lhe dar dignidade a mato, não só não a compreendi como a «coisifiquei». Diz-se: faço-o por pena, para que não sofra! Mas bem dizia o Prof. Daniel Serrão: «a morte por compaixão é a morte da compaixão». Na verdade o que acaba ali é a relação e o cuidado com o outro; e, por um acto não médico, alivia-se a tensão: resolve-se, sim, o problema de quem acompanha e já não sabe lidar com ele. Uma subtil tentação, nem sempre perceptível, sob a capa de parecer que é um agir «pro vida».

3) A morte a pedido manifesta a autonomia da pessoa e daí a sua dignidade? Pode parecer, mas vejo aí uma confusão entre auto-suficiência e autonomia. Autonomia significa que se tem uma «lei própria» e se tem consciência dela e se é coerente com ela, com todos os seus condicionamentos. A pessoa vai-se tornando cada vez mais autónoma na medida em que se vai tornando cada vez mais moralmente livre. E a liberdade, que é uma aprendizagem difícil, é a capacidade de gerir os seus condicionamentos e escolher o bem maior; isto é, decidir-se pelo que é mais humano e mais nos humaniza como seres sociais. A auto-suficiência é não ter que dar contas a ninguém e fazer o que se entende por imaginar que se pode dispor de si e dos outros «como se quiser». Não somos auto-suficientes. A morte a pedido pode não parecer, mas é uma tentação de auto-suficiência. Escolher matar-se tal como matar, não é, certamente, escolher o bem maior – com autonomia e liberdade. É mais um grito de socorro. E socorrer deve ser um acto inteligente (o que se passa aqui? Qual é a dor?) e não uma cedência a um impulso ingénuo e «piedoso».

4) Se admitirmos que há um direito a querer morrer (e um direito a que me matem?), isso não implica que alguém, um médico, por exemplo, tenha o dever de o fazer. Terá o dever moral de ajudar quem faz tal pedido, na medida das suas possibilidades, mas ninguém pode impor essa obrigação de matar outro, mesmo que compreenda a sua dor e o seu pedido. Se se chegasse a legalizar a eutanásia devíamos ter claras várias coisas importantes. A primeira, que o que é legal não só não é necessariamente bom, como não é necessariamente legítimo moralmente. A segunda, que os direitos de uns não podem forçar os de outros; além do direito de discordar, tem-se o direito a que se respeite, positivamente, a objecção de consciência. Por fim, cada um deveria ter o direito de ter a lista toda dos médicos «eutanasistas». Eu não recorreria a um médico que pudesse olhar para mim e pensasse «este já está a mais; não vai longe; a sua vida não é digna!» Aliás, nenhum parlamento tem direito a avaliar e legislar sobre a vida. Isto é a determinar que há vidas que se podem descartar ou que não são dignas; mesmo que se diga que é para respeitar a autonomia e a liberdade.

5) A «solução» da eutanásia, no estádio actual da medicina (do acompanhamento psicológico e espiritual, dos cuidados paliativos, das possibilidades de enquadramento social, etc.), seria uma saída completamente reaccionária e violenta. Sim, num estádio anterior de civilização, cultural e socialmente falando, talvez se pudesse entender os defensores da «boa morte» ou até os «abafadores». Mas, hoje, é difícil de aceitar o matar como um bom caminho. É claro que é preciso compreender a dor de quem acompanha a doença prolongada de uma pessoa querida sem ver saídas rápidas e eficazes. Mas os cuidados paliativos também atendem e apoiam o contexto familiar da pessoa em processo terminal, mais ou menos prolongado.

6) Há ainda um outro perigo ou tentação. A eutanásia pode dar dinheiro! Poupar nos gastos com velhinhos ou deficientes, ter mais facilmente espaço e camas para outros com mais possibilidades e mais ricos, poderia ser um razoável negócio, dentro de uma cultura de morte que elimine quem não é útil, quem não produz, ou quem é considerado um peso demasiado. Nessa cultura, seriam os próprios infelizes, pobres e feios a pedir a eutanásia, não encontrando lugar num «desejável mundo cosmeticamente limpinho». Os totalitarismos já fizeram essa experiência e não deu resultado. Como seria «O admirável mundo novo» dos «eutanasistas»?

7) Morte assistida! Todas as mortes devem ser acompanhadas com cuidado respeito e afecto: não assistidas como quem vê o espectáculo, mas como quem vive solidário esse momento tão importante de cada vida humana. Porquê trocar os nomes à realidade? Para enganar quem? Se estou a facilitar e dar condições para que alguém se suicide, não é suicídio assistido, é conivência e participação. Se estou a «eutanasiar» outra pessoa, ainda que com todo o jeito e preparação, estou a matá-la. Mesmo que tenha sido a seu pedido, não é assistência, é ser autor «responsável». Para quê branquear o acto de matar com o título de «morte assistida»? Se é preciso perceber o que se quer dizer com «mata-me!», também é preciso desmascarar o que se quer dizer com «dou assistência à tua morte!»

Como é possível que, num mundo cheio de mortes por ideologias fanáticas e doentes que pretendem um mundo limpo de infiéis, sem dignidade nem lugar, estejamos, nós, a discutir como matar para eliminar o sofrimento! Que atraso civilizacional!





domingo, 10 de abril de 2016


A União das Famílias sobre o rapto dos filhos às famílias

pelas sujeitas do complexo social-industrial

em nome da defesa dos interesses das crianças


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http://uniaodasfamiliasportuguesas.blogspot.pt/2009/01/manifesto-das-familias-portuguesas.html


Manifesto das Famílias Portuguesas

RESUMO

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10 – A subtracção das crianças às famílias e a sua estatização

Para além da intoxicação geral das crianças e jovens através dos meios de comunicação e dos programas escolares, assistimos ainda a um outro atentado contra a sua integridade: a subtracção das crianças às famílias e a sua estatização. Bem entendido, não nos referimos aqui aos casos de pais manifestamente incapazes de cuidar dos seus filhos. Referimo-nos aqui aos puros abusos contra as famílias, aos puros raptos de crianças às famílias, numa actividade dita «social» e envolvendo muitos interesses.

11 – O complexo social-industrial contra a família

Estes fenómenos negativos que afectam as famílias são mais do que geradores da infelicidade individual e da desagregação social: eles servem igualmente para justificar a existência dos curandeiros dessas desgraças – as desgraças que são simultaneamente o alimento da burocracia estatal e da indústria do «social», a sua «razão» de existir, e que, por cima, acarretam pesadas consequências no orçamento do Estado e no agravamento dos impostos. Trata-se, pois, de uma autêntica indústria, da indústria da desgraça, funcionando em benefício dos curandeiros do sistema e à custa das famílias e dos contribuintes.

A necessária protecção das crianças e jovens encobre, pois, um negócio. Essa tal pseudo-protecção torna-se assim perversa. De facto, estas actividades «altruístas», entre outras, compõem o complexo social-industrial, uma monstruosa hipocrisia que alimenta uma chusma de burocratas, psicólogos, sociólogos, pedagogos e psiquiatras oportunistas, autênticos abutres.


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O Estado contra a autoridade dos pais na educação dos filhos

Outro meio de ataque à família é a proibição pelo Estado dos pais exercerem a sua autoridade natural para educarem os filhos aplicando castigos quando necessário. Em nome da chamada «protecção da criança», os pais e professores estão simplesmente proibidos de dar um tabefe a um filho ou aluno mal comportado. Só podem chamar à razão o... irracional. O pequeno terrorista pode impunemente partir a loiça, desobedecer, insultar, não estudar, perturbar as aulas. Qualquer tentativa firme de pará-lo com aquela única linguagem que ele percebe é... ilegal.

As televisões são inundadas por pedagogos e psicólogos de má fé ou lunáticos das «novas pedagogias», onde impera a utopia e a permissividade.

O psiquiatra Daniel Sampaio é uma espécie de papa destas teorias da permissividade.

O chamado «Instituto de Apoio à Criança», de Manuela Eanes, criado, promovido e financiado durante o mandato politico-militar do esposo, foi e é um dos grandes propagandistas deste modelo permissivo de «educação» e de perseguição dos pais que não abdicam de realmente educarem os seus filhos.

Laborinho Lúcio, enquanto ministro da Justiça de Cavaco, foi o grande percursor da cobertura jurídica de todas estas anormalidades. Um ministro da Justiça do Bloco de Esquerda não faria melhor do que Laborinho Lúcio.

Afinal, a «protecção da criança» por essa gente resulta na sua deseducação. A prova provada é o que hoje se vê nas escolas, a todos os níveis de ensino, onde o ambiente é simplesmente de selva.

Nos meios de comunicação, os casos de violação de crianças são frequentemente catalogados como acontecendo «no seio da família», quando na realidade, na quase totalidade das vezes, o violador é simplesmente alguém estranho à família que mantém uma relação com a mãe da criança. O objectivo desta desinformação, como se torna evidente, é criar a ideia de que a família não é um lugar seguro para as crianças, pretendendo assim justificar, como veremos, a intervenção abusiva do Estado na família.

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O roubo de crianças aos pais e a sua entrega para adopção, incluindo a invertidos

Os políticos inimigos da família já transportaram para o plano jurídico todas estas anormalidades.

Aproveitando-se da existência de casos dramáticos que realmente justificam uma intervenção, os políticos antifamília, recorrendo aos sofismas «uma criança não é propriedade dos pais», «protecção da criança» «superiores interesses da criança», legislaram no sentido de criar pretextos para roubar aos pais a tutela da criança e a sua autoridade sobre ela e para passar o Estado a ser efectivamente o dono da criança.

Quem pode definir as regras de educação dos filhos é o Estado.

Quem define o que são os «superiores interesses» dos filhos é o Estado.

E quem não preencher os mandamentos do Estado vê-se na contingência de lhe serem roubados os filhos e entregues a uma instituição, privada ou da Segurança Social, onde o Estado educa e cuida directamente da criança à sua maneira ou encomenda o trabalho a fundações e associações com ele sintonizadas.

E quem é o Estado? São precisamente eles, os mesmos, os políticos inimigos da família e seus executantes.

O cume deste atentado contra as crianças e a família é a sua entrega aos chamados «casais» de invertidos. A adopção de crianças por esta espécie é apoiada pela generalidade dos partidos da esquerda e por alguns membros dos restantes, por sua vez comandados pela maçonaria, que destas causas fracturantes faz ponto de honra. A lacrimosa «católica» Manuela Eanes, em declaração do seu «Instituto de Apoio à Criança», teve o descaramento de se pronunciar a favor deste crime.

Esta apropriação das crianças pelo Estado só encontra paralelo no comunismo, no fascismo e muito especialmente no nazismo. Pio XI, na sua encíclica Divini Illius Magistri Acerca da Educação Cristã da Juventude (1929), denuncia frontalmente a apropriação das crianças pelo Estado fascista que o cercava, definindo claramente o papel que cabe ao Estado e o papel que cabe à família.

Mas este estado é democrático — objecta o gangue. Mais uma vez, estamos perante a manipulação de palavra: democracia serve para camuflar práticas que são o seu contrário. Sob o pretexto do bem social, temos a prática fascista: é a reedição «democrática» do social-fascismo.

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O complexo social-industrial como aliado das centrais antifamília

Quem pense que se trata apenas de opção ideológica ou de vício sexual desta gente engana-se redondamente. A sua «actividade social» alimenta-se de uma indústria. É a indústria do social, num volumoso complexo envolvendo verbas gigantescas e os mais variados interesses que nele se cruzam: é o complexo social-industrial.

O complexo social-industrial proporciona milhares de empregos e carreiras a gente que vegeta no mundo deste «trabalho» e para quem a existência da desgraça é condição sine qua non para esses empregos e carreiras. E quando não há desgraça, toca a inventá-la, como acontece por todo o mundo. Porque a indústria do social precisa matéria-prima, isto é, de vítimas.

Como vimos, nos temas predilectos do complexo social-industrial encontramos a falsa «protecção de crianças» em falsos casos de maus tratos. E também a actividade da «protecção de mulheres» em falsos casos de violência doméstica. Este complexo industrial é sem dúvida o mais pernicioso para a Civilização e para a humanidade. Muito mais pernicioso do que a poluição atmosférica porque estamos a falar da poluição dos espíritos, da destruição da família, do desequilíbrio das crianças e adultos, de ecologia humana.

Lamentavelmente, muitas supostas autoridades morais estão mais preocupadas com o CO2 e as garrafas PET do que com a destruição da Civilização e da família pela contracultura.


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sábado, 9 de abril de 2016


Quero continuar a ser filha dos meus pais


Laurinda Alves, Observador, 29 de Março de 2016

Os filhos que cuidam dos pais por amor são verdadeiros salva-vidas. Salvam da solidão, da exclusão, do abandono, do esquecimento, da indigência moral e emocional em que vivem muitos velhos.

A partir dos quarenta e muitos, cinquenta e poucos, todos começamos a sentir que os papéis se invertem nas famílias e caímos na conta de que mais ano, menos ano, seremos convocados a cuidar dos nossos pais. Confrontados com doenças crónicas, ou chamados de emergência depois de acidentes cardiovasculares cerebrais, quedas e até atropelamentos provocados por distração, falta de audição ou visão, damos connosco atordoados e aflitos, sem saber o que pensar. Pior, sem sabermos o que fazer. Como agir, a quem recorrer, como ajudar?


O «como» é a grande questão que atravessa as nossas vidas. Saber como, é, porventura, mais importante do que saber o quê e porquê. Muitas vezes nem chegamos a perceber os «porquês» do que nos acontece, mas nunca poderemos evitar os «como». O problema é que a vulnerabilidade dos nossos pais – mesmo quando eles não se queixam ou tentam disfarçar! – consome-nos, para-nos e obriga-nos a repensar muita coisa. E a aprofundar este grande «como», para percebermos como havemos de fazer para os ajudar a viver essa etapa de novas dependências, como podemos ficar mais próximos ou estarmos mais presentes sem termos que renunciar à nossa vida pessoal, profissional e conjugal.

Ver envelhecer os pais não é um processo fácil e embora seja natural, traz muita ambivalência ao coração. Ficamos tristes por eles e com eles, mas ao mesmo tempo temos medo que as suas dores, as suas debilidades e a sua perda de capacidades se eternizem. Sofremos porque nos sentimos muitas vezes impotentes perante o seu sofrimento e a sua fragilidade crescente, mas também porque o envelhecimento dos pais nos remete fatalmente para o nosso próprio envelhecimento, que é assim uma espécie de tabu individual. Uma filha não gosta de ver a imagem da degradação física da sua mãe porque mesmo sem querer pensa no seu próprio corpo dali a 20 ou 30 anos. Um filho resiste muitas vezes a cuidar do seu próprio pai, ou chega a afastar-se dele na velhice, pelas mesmas razões. Porque lhe custa lidar com a imagem avelhentada de um pai que deixa de ser forte e protector, que de alguma forma deixa de ser o seu pai-herói.

A realidade dos filhos que começam a ter que ser pais dos seus pais é tremenda e por vezes impõe-se de forma brutal. Pode chegar através de pequenos sinais como as lendárias perdas de memória ou as clássicas quedas em casa e tropeços na rua, mas também pode anunciar-se através de doenças graves que implicam tratamentos delicados ou cuidados continuados que envolvem questões sobre as quais nunca apetece falar (estou a pensar na temível incontinência, por exemplo, mas também na perda de autonomia para fazer a higiene própria ou na incapacidade de tratar da alimentação 4 vezes por dia, todos os dias, e ainda nas noites passadas em branco) e que muitos filhos maiores já sabem porque já experimentaram. Daí o pavor de muitos homens e mulheres ainda entre os quarenta e os cinquenta. Temem que estas situações se agravem e eternizem obrigando-os a adiar ou até a pôr de lado a sua realização pessoal e profissional, abdicando de uma vida que legitimamente sonharam para si mesmos e não contemplava o pesadelo de uma mãe, uma sogra, um pai ou um sogro doentes, acamados ou a precisarem de ser lavados e alimentados todos os dias.

À medida que o tempo passa e as doenças avançam percebemos que não existem pais perfeitos nem filhos ideais. Todos passamos pela experiência dos sentimentos contraditórios, pelas fases de maior nostalgia em que apetece ser apenas filho, voltar à infância (à ideia de uma infância protegida, seja ela real ou idealizada), recusar o envelhecimento, fingir que está tudo melhor do que realmente está, mas também por momentos de zanga, frustração, impaciência, raiva, confusão, alheamento e rejeição, que alternam inexplicavelmente com tempos de ternura, dedicação, amor e compaixão. Trazemos em nós tudo isto e muito mais. Dizem os especialistas que o caminho é aceitar esta mesma ambivalência tentando focar mais no amor e menos na culpa. Percebo os especialistas, pois nada é mais erosivo na relação entre pais e filhos do que os sentimentos de culpa mútuos. São erosivos e empobrecedores, aliás. Não levam a lado nenhum e fazem-nos esbarrar constantemente em muros de silêncio que rapidamente se tornam intransponíveis e nos afastam irremediavelmente uns dos outros. Os pais, porque se sentem culpados de estarem dependentes e darem tanto trabalho; os filhos por não estarem a ser capazes de cuidar, de acompanhar e mimar os pais como deviam e gostariam.

No meio de tanta vulnerabilidade e dependência também há boas notícias. As relações familiares muitas vezes fortalecem-se na adversidade. É um mistério que assim seja, mas acontece. Irmãos desavindos ou pouco próximos no dia-a-dia são capazes de largar tudo para socorrer outro irmão a braços com a realidade de um cancro terminal, uma situação de demência ou um cúmulo de debilidades dos pais. Já vi isso acontecer muitas vezes nos anos em que fiz voluntariado de cabeceira. Mas também já vivi isso com as doenças dos meus próprios pais. Somos quatro filhos vivos e temos vidas muito diferentes e muito exigentes, mas sempre que o pai ou a mãe precisam vamos a correr. Fomos e somos mais capazes de viver bem as situações más, do que de prestar atenção às fases fáceis e boas. Nessas alturas andamos todos mais absorvidos com as coisas de cada um, com as exigências da vida pessoal, profissional e familiar de cada um. Até podemos parecer distantes, mas perante a notícia de um tumor cerebral ou de uma hospitalização de emergência, criamos tacitamente turnos em que nos revezamos para tudo. Sejam banhos ou compras de supermercado, idas aos médicos e tratamentos, ou permanência à cabeceira. Nisto somos iguais a todos os irmãos e irmãs a quem já aconteceu terem um pai ou uma mãe a precisar de cuidados 24h sobre 24h.

A boa notícia é esta de nas fratrias poder haver uma lógica de entreajuda em que todos contribuem e se complementam. Entre irmãos os papéis são quase sempre diferentes e pode haver um mais pudico, outro mais capaz de dar banhos e tratar da higiene, outro que gosta de cozinhar e outro ainda que gosta de levar a passear. Há mil maneiras de exprimir os afectos pelos pais e a situação só se complica quando os filhos não se complementam, não se ajudam ou descartam o seu papel sobrecarregando um deles. Ou, claro, quando os filhos são únicos e se sentem mais impotentes.

A outra boa notícia no meio das doenças e sintomas de envelhecimento que geram dependências é poder haver um tempo reparador em família. Parece difícil, posto desta forma, mas mais uma vez falo pelo que vi e vivi. Há uma dimensão reparadora na proximidade familiar quando os pais ficam vulneráveis. Seja porque pais e filhos sentem necessidade de se perdoarem mutuamente por razões ou questões antigas, seja porque existe a chamada «dívida de gratidão» que atravessa o coração dos filhos perante quem lhes deu vida e quem cuidou deles na fragilidade extrema dos primeiros tempos de vida, na verdade o tempo da doença prolongada pode ser muito reparador. Pode restaurar relações e fortalecer laços. E também pode desfazê-los para sempre, claro, se tudo isto for vivido de forma negativa ou não houver possibilidade de cuidar.

Os filhos que cuidam dos pais por amor são verdadeiros salva-vidas. Salvam da solidão, da exclusão, do abandono, do esquecimento, da indigência moral e emocional em que vivem muitos velhos. Podem sentir um enorme stress interior e a tal ambivalência de sentimentos, podem até ter pavores de que tudo vá de «mal em pior», mas têm a possibilidade de se reconciliar em vida, de agradecer, de dar de volta aquilo que receberam, e até de aceitar a fragilidade, a dependência e a sua morte. Podem ser obrigados a viver tudo isto no auge das suas próprias crises existenciais, no seu tempo de balanços de vida, de crises e rupturas, de luto definitivo por uma adolescência que já não volta, mas tudo isto vale a pena se quisermos ser para sempre filhos dos nossos pais e cumprir o nosso papel até ao fim. Mesmo que temporariamente pareça que somos pais deles.

A minha experiência de cabeceira com estranhos, mas também de filha que tem os pais a morar em casa há anos, encerra e revela aquilo que Marie de Hennezel resumiu de forma maravilhosa : «Cuidar de um pai velho vai para além da relação filial. Um ser humano ao ajudar outro ser humano vulnerável aprende a ser melhor».





sexta-feira, 8 de abril de 2016


Romenos apoiam em massa

a protecção da família na Constituição



Luis Dufaur

Na Roménia, no tempo recorde de um mês e meio, uma iniciativa cidadã para promover uma emenda constitucional que proteja a família reuniu 2 milhões de assinaturas, equivalente a 10% da população nacional!, divulgou http://infocatolica.com.

O total poderá crescer ainda mais até terminar o prazo, em 24 de Maio. A meta inicial era conseguir 500 000 assinaturas em seis meses, porque assim o prescreve a legislação romena.

A coligação pela família Coalitia pentry Familie visa evitar interpretações enviesadas do artigo 48 da Constituição romena, como aliás aconteceu noutros países.

Para isso a coligação apela para que o artigo refira:

«A família está fundamentada no matrimónio livremente consentido entre um homem e uma mulher, na igualdade deles e no direito e dever dos pais de garantir o crescimento, a educação e a instrução dos filhos.»

A proposta deverá ser apresentada por um grupo parlamentar, ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado por uma maioria de 2/3, e ratificada em referendo.

O partido que assumir a apresentação da proposta sabe que, como aconteceu na Polónia e na Hungria, terá de enfrentar uma agressiva pressão da União Europeia, que vai querer passar por cima da soberania popular.

Mas o povo romeno parece determinado a defender a família, livrando-se dos restos da imoralíssima legislação imposta pela ocupação soviética e ainda vigente em grande medida em países como a Rússia.





segunda-feira, 4 de abril de 2016


T E L E M Ó V E I S

Caminhar a escrever no telemóvel

pode dar prisão


Pedro Mourão, Tecnologia, 29 de Março de 2016



Está a ser alvo de estudo, num Estado dos EUA, uma proposta de uma nova lei que penalize todas as pessoas que caminham ao mesmo tempo que escrevem no telemóvel (por exemplo: mensagens, Facebook, Instagram, Snapchat).

Esta lei está a ser discutida pela Assembleia Geral e o grande objectivo é prevenir (e reduzir) o número de acidentes. Por exemplo, entre 2004 e 2010 o número de acidentes mortais com peões triplicou.

Nova Iorque, Arkansas ou Nevada já tentaram implementar medidas parecidas, no entanto a aprovação desta lei falhou sempre.

Na lei em estudo, a pena prevista, para pessoas que vão a escrever ao telemóvel enquanto caminham, é uma multa de 50 dólares ou até 15 dias de prisão. Pamela Lampitt, deputada dos EUA diz que «Se uma pessoa na estrada – quer esteja a andar ou conduzir – for um risco para os outros, deve haver uma lei dissuasora e que puna o comportamento de risco.»


Fonte: nydailynews





sábado, 12 de março de 2016


As redes sociais e a cultura da imaturidade


Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 10 de Março de 2016

O Facebook funciona muitas vezes como um «buraco negro» que suga as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo colectivo. O pensamento pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir.

As redes sociais vieram mudar significativamente as nossas vidas. A emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração humana da história.


Ninguém sabe exactamente quais são as consequências que decorrem deste novo estilo de vida passado na internet, embora já haja alguns estudos. Por exemplo, a utilização excessiva da internet e das redes sociais está associada a depressão, a uma baixa auto-estima e a sentimentos de isolamento. Além disso, a utilização regular das redes sociais, e mais concretamente do Facebook, tem sido associada a um maior risco de divórcio e de relacionamentos extraconjugais.

Um inquérito realizado junto da American Academy of Matrimonial Lawyers (AAML) revelou que a utilização da rede social Facebook estava envolvida, como factor principal, em um em cada cinco divórcios nos EUA. O ecrã do nosso computador serve muitas vezes como uma espécie de janela para as nossas fantasias, onde se busca aquilo que não encontramos na vida real. Se um casamento está em crise, se alguém está infeliz numa relação, pode surgir a tendência para essa pessoa procurar uma alternativa amorosa. Essa procura faz-se cada vez mais nas redes sociais. Porém, essa busca pode revelar-se enganadora, uma vez que é essencialmente reactiva e emocional. Muitas vezes não se faz uma reflexão madura adequada sobre o que está mal na relação conjugal e o que poderá ser alterado, o que já foi feito para melhorar e o que ainda é possível fazer; há geralmente uma fuga para a frente.

Qualquer pessoa percebe que, com a rapidez com que tudo se passa actualmente na era da internet, a ponderação e a reflexão foram praticamente excluídas do nosso dia-a-dia. Muitas crises conjugais são intensificadas por uma baixa tolerância à frustração, uma falta de perseverança face à adversidade e por um certo egocentrismo. Com frequência, as justificações das rupturas são importadas das revistas cor de rosa e assentam nos clichês individualistas habituais: «não era feliz», «deixei de gostar», «tenho o direito de procurar a minha felicidade», «quero voltar a estar apaixonado(a)».

O mundo mudou e muitas vezes já não são as televisões, os jornais e as rádios que nos dão as notícias, mas são as redes sociais que, perante determinados acontecimentos que aparentemente seriam insignificantes, fazem a notícia. Todavia, em muitos casos a reacção é emocional, pouco profunda e elaborada, tal como grande parte dos comentários que lemos sobre as notícias dos jornais na internet. A agressividade prepondera, assistem-se a linchamentos públicos, e todos têm opinião sobre tudo.

Veja-se o caso recente do colunista Henrique Raposo, mais concretamente o ódio irracional de que foi vítima nas redes sociais, após a publicação do seu livro Alentejo Prometido. É certo que correu riscos, por ter abordado temáticas nesta obra que não domina propriamente (psiquiatria e sociologia), mas isso não invalida que emita opinião e pense sobre o assunto, ainda que se possa discordar. Ora, é precisamente «o pensamento» que está a desaparecer numa parte significativa da sociedade que emigrou para as redes sociais e que por lá passa cada vez mais tempo. O Facebook funciona muitas vezes como um enorme «buraco negro» que vai sugando as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo colectivo. O pensamento pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir. Tudo é reactivo e instintivo, o hedonismo prevalece e o seguidismo emocional cego surge de forma recorrente e imprevisível. Numa palavra, as emoções dominam o ser humano e surgem dissociadas do pensamento e da inteligência.

Em ambos os exemplos citados anteriormente, há um elemento comum: estamos a assistir à promoção da cultura da imaturidade. Neste contexto, as redes sociais são autênticos «esconderijos emocionais», pois não estão a favorecer propriamente o conhecimento, a reflexão, a prudência e o autocontrolo. Existe uma exaltação febril da impulsividade, da superficialidade, da expressão de sentimentos e comportamentos mais primitivos, como a violência e os julgamentos sumários das pessoas. Estas características são imaturas, primárias e revelam uma reduzida inteligência emocional.

Cada vez mais pessoas passam demasiado tempo imersas no mundo virtual das redes sociais da internet, agarradas obsessivamente ao computador, procurando a sua auto-realização. Mas julgo que este caminho é enganador e não ajuda ao crescimento individual, nem à aquisição de uma verdadeira aprendizagem social. O mundo real é muito mais rico, profundo, e valioso do que o mundo virtual. É motivo para dizer «viva cá fora, não se refugie lá dentro».






quarta-feira, 9 de março de 2016


Do género da parvoíce


Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 5 de Março de 2016

A minha filha tem uma voz fininha que até podia achar esganiçada se não estivesse a falar da minha filha. Ela é muito delicada, amua e reclama que é muito sensível. Tem pânico de aranhas e quer ser educadora de infância. Adora vestir-se de princesa e fica horas na casa de banho a pentear-se. Ela e as amigas gostam de brincar aos cabeleireiros e sentam-se nos cantinhos a falar e a rir de tudo e por nada.

A minha filha cresceu com cinco irmãos a infernizar-lhe a vida e ela a vida deles. Ao princípio, quando era mais pequenina, queria ser maria-rapaz já que não podia ser rapaz – uma injustiça. Mas ela combatia a injustiça: batia nos rapazes, gritava mais do que eles e levava uma bola para a escola. E lá ia ela, com a voz esganiçada, medo de aranhas e bola debaixo do braço. Acabou por desistir da bola porque, dizia: tiravam-na dos pés só por ela ser rapariga.

Lá está. Quando a minha filha soube que o último irmão seria rapaz, chorou. Perguntámos pela razão do desgosto, já que ela seria sempre a única menina. Sem concorrência. Mas ela só chorava. Até que gritou: «Eu queria ter uma irmã para poder brincar com coisas de meninas.»

Ups... Mas o que é isto? Isto é sinal de que a minha filha padece de «atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género», como diz a secretária de Estado da Igualdade – uma feroz opositora da «prática de dividir brinquedos por sexo». A minha filha discrimina, divide. Ela nunca gostou de carrinhos ou de futebol – coisas de rapazes, diz. E eles? Eles também. Eles, Deus lhes perdoe, não apreciam a Barbie e evitam pintar as unhas.

Só há uma solução para isto: acabar com os Happy Meals discriminatórios – óbvio, o fim da divisão das roupas, das palavras, mães e pais e tudo o que se divida na cabeça da secretária de Estado da Igualdade. Já agora, quando é que escolhem um homem para esta pasta?


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sábado, 5 de março de 2016


O complexo social-industrial em acção


Carta revela drama de mais famílias

que perderam a guarda dos filhos na Noruega


Num abaixo-assinado, trinta e oito famílias denunciam sequestro sistemático de crianças pelo governo da Noruega: «Os nossos filhos estão sendo literalmente arrancados das nossas mãos.»


«O Barnevernet sequestra crianças!»: protesto de famílias da Lituânia, um dos países mais afectados pelas políticas autoritárias da Noruega.

Trinta e oito famílias escreveram um abaixo-assinado denunciando o sequestro sistemático de crianças feito nos últimos anos pelo governo da Noruega. Assinada no início deste mês por pais vindos das mais diversas partes do mundo, a carta é um protesto contra as decisões arbitrárias do Barnevernet – o departamento de «protecção à infância» do país –, que simplesmente afasta as crianças dos seus pais, sem motivo razoável, nem mandado judicial. O documento foi enviado às Nações Unidas, ao Papa Francisco, bem como à Comissão e ao Parlamento da União Europeia.

Embora a Noruega não pertença à União Europeia, as famílias reunidas na plataforma Stop Barnevernet pedem que a comunidade internacional intervenha de alguma forma para defender os seus filhos e outros tantos que estão retidos pelo governo norueguês. Os signatários da carta vêm de países como Eslovénia, Estados Unidos, Índia, Inglaterra, Iraque, Lituânia, Roménia, Rússia, Suécia, Turquia e até do Brasil. Alguns só podem ver os seus filhos «quatro horas por ano»; a outros é negado qualquer contacto com as crianças. Mesmo os lactentes são tirados às suas mães e uma família norueguesa está sendo perseguida pelo departamento há cinco gerações.

A brasileira residente no país Daiane Alves Lopes, uma das vítimas desta política arbitrária, revelou à TV Anhanguera, no ano passado, como perdeu a guarda de um dos seus dois filhos, Yorrani, que hoje vive num lar adoptivo. «Eles fizeram uma reunião e não falaram que iam pegar a criança. Depois me chamaram. Falaram que iam me ajudar. E quando eu cheguei lá não era isso. Tinha dois seguranças, fecharam a porta e pediram a criança. Arrancaram a criança de mim, do meu braço», refere ela.

Na carta endereçada às autoridades internacionais, os 38 pais condenam o que chamaram de um «inexplicável abuso de poder» por parte do governo de uma nação «supostamente avançada», como é a Noruega. «Famílias inocentes estão sendo destruídas por 'violar' um 'bem-estar infantil' de que ninguém sabe a definição», diz o abaixo-assinado. «Muitas famílias têm que viver uma vida no medo».

A íntegra do documento foi disponibilizada pelo site espanhol Religión en Libertad e contém detalhes assombrosos sobre o que está acontecendo no país:

«As crianças estão a ser literalmente arrancadas das mãos dos seus pais. Tanto o serviço social quanto a polícia são implacáveis. As crianças chorando e gritando, implorando por uma oportunidade de ficar com as suas famílias, não são absolutamente nenhum obstáculo para eles. (...) Geralmente, tudo começa com uma acusação infundada e, depois de um momento iniciar, as crianças são levadas dos seus pais em estado de choque. Os pais, então, colaboram com as autoridades e conformam-se, tudo na esperança de que os seus amados sejam devolvidos um dia. Instruídos pelo Barnevernet, permanecem em silêncio: não lutam contra o sistema, não vão à imprensa com as suas histórias e pacientemente aguardam pelo próximo encontro com os seus filhos, que é agendado para apenas um par de horas algumas vezes ao ano, geralmente sob a vigilância pesada da polícia e do Barnevernet

«Tratam-nos como assassinos, apesar do facto de não terem nenhuma evidência de maus tratos. Não têm nenhuma evidência de que algo ilegal tenha sido feito aos nossos filhos. O destino das nossas vidas é decidido pela chamada fylkesnemnda, uma comissão para assuntos de família que determina com que frequência poderemos ver os nossos filhos – se é que poderemos vê-los – e se os nossos filhos serão obrigatoriamente adoptados.»

Os signatários do documento ainda acusam as ditas comissões de se servirem de métodos fraudulentos para manter os filhos longe dos seus pais biológicos. «São capazes de falsificar documentos e pareceres de especialistas, e nós temos fortes evidências disso», refere o texto.

Alguns dos pais que assinaram a carta conseguiram novamente a guarda dos filhos, ainda que em «circunstâncias estranhas». «Não houve nenhuma intenção de indemnizar-nos pela dolorosa intervenção por que passámos», afirma o documento, «nem sequer uma espécie de desculpas ou explicação por tudo o que aconteceu

O abaixo-assinado também faz referência à base cristã em que nasceu a Noruega, hoje em livre decadência. «Ainda que a Noruega não seja um país predominantemente cristão, é um país baseado numa herança cristã», diz a carta. «Essa herança cristã está, agora, severamente ameaçada pelas tendências a ignorar o que a unidade familiar significa, seja para os indivíduos, seja para toda a sociedade.»

No caso dos Bodnariu, a família de ascendência romena que perdeu recentemente a guarda de cinco filhos, o motivo da intervenção parece ter sido eminentemente religioso. A directora da escola em que as meninas estudavam preocupava-se com o facto de Ruth e Marius serem «muito cristãos» e a avó acreditar que «Deus castiga o pecado». Na opinião dela, a ideia criaria «uma inabilidade nas crianças». Outras ocorrências, todavia, sugerem motivações de ordem étnica e económica para o sequestro das crianças.

Porta-vozes da campanha Stop Barnevernet responsáveis por entregar a carta às autoridades europeias. À esquerda, o eurodeputado Tomáš Zdechovský.


O eurodeputado polonês Tomáš Zdechovský, que também está à frente da campanha Stop Barnevernet – reunindo na Internet várias histórias similares ao caso Bodnariu –, explica que muitas das intervenções do governo norueguês afectam principalmente os filhos de imigrantes.

«As famílias são forçadas a enviar os seus filhos à pré-escola, a assistir a programas infantis da Noruega e a ter um número de amigos noruegueses», escreve o deputado. «Não é suficiente que vocês, como pais, planejem ensinar a língua norueguesa ao seu filho fora da escola, nem que estejam prontos para obter o que é necessário quando a escola começar. É o governo que decide o que é melhor para o seu filho. Os legisladores desenvolveram medidas incrivelmente severas para forçar as pessoas a fazer o que o governo acha que está certo.»

É sempre válido lembrar que, independentemente das leis que vigoram num país, o direito dos pais de educar os próprios filhos é um direito natural, reconhecido inclusive pelo art.º 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: «Os pais têm prioridade de direito na escolha do género de instrução que será ministrada aos seus filhos».

Tomáš Zdechovský condena terminantemente o autoritarismo do Barnevernet e questiona o modo como as coisas estão a ser conduzidas na Noruega. «Sempre haverá problemas com a imigração», diz ele. «Mas simplesmente não podem ser resolvidos tirando as crianças sem uma boa razão. Como chamar a tal estado de ilegalidade senão de fascista ou comunista?»