sábado, 9 de abril de 2016


Quero continuar a ser filha dos meus pais


Laurinda Alves, Observador, 29 de Março de 2016

Os filhos que cuidam dos pais por amor são verdadeiros salva-vidas. Salvam da solidão, da exclusão, do abandono, do esquecimento, da indigência moral e emocional em que vivem muitos velhos.

A partir dos quarenta e muitos, cinquenta e poucos, todos começamos a sentir que os papéis se invertem nas famílias e caímos na conta de que mais ano, menos ano, seremos convocados a cuidar dos nossos pais. Confrontados com doenças crónicas, ou chamados de emergência depois de acidentes cardiovasculares cerebrais, quedas e até atropelamentos provocados por distração, falta de audição ou visão, damos connosco atordoados e aflitos, sem saber o que pensar. Pior, sem sabermos o que fazer. Como agir, a quem recorrer, como ajudar?


O «como» é a grande questão que atravessa as nossas vidas. Saber como, é, porventura, mais importante do que saber o quê e porquê. Muitas vezes nem chegamos a perceber os «porquês» do que nos acontece, mas nunca poderemos evitar os «como». O problema é que a vulnerabilidade dos nossos pais – mesmo quando eles não se queixam ou tentam disfarçar! – consome-nos, para-nos e obriga-nos a repensar muita coisa. E a aprofundar este grande «como», para percebermos como havemos de fazer para os ajudar a viver essa etapa de novas dependências, como podemos ficar mais próximos ou estarmos mais presentes sem termos que renunciar à nossa vida pessoal, profissional e conjugal.

Ver envelhecer os pais não é um processo fácil e embora seja natural, traz muita ambivalência ao coração. Ficamos tristes por eles e com eles, mas ao mesmo tempo temos medo que as suas dores, as suas debilidades e a sua perda de capacidades se eternizem. Sofremos porque nos sentimos muitas vezes impotentes perante o seu sofrimento e a sua fragilidade crescente, mas também porque o envelhecimento dos pais nos remete fatalmente para o nosso próprio envelhecimento, que é assim uma espécie de tabu individual. Uma filha não gosta de ver a imagem da degradação física da sua mãe porque mesmo sem querer pensa no seu próprio corpo dali a 20 ou 30 anos. Um filho resiste muitas vezes a cuidar do seu próprio pai, ou chega a afastar-se dele na velhice, pelas mesmas razões. Porque lhe custa lidar com a imagem avelhentada de um pai que deixa de ser forte e protector, que de alguma forma deixa de ser o seu pai-herói.

A realidade dos filhos que começam a ter que ser pais dos seus pais é tremenda e por vezes impõe-se de forma brutal. Pode chegar através de pequenos sinais como as lendárias perdas de memória ou as clássicas quedas em casa e tropeços na rua, mas também pode anunciar-se através de doenças graves que implicam tratamentos delicados ou cuidados continuados que envolvem questões sobre as quais nunca apetece falar (estou a pensar na temível incontinência, por exemplo, mas também na perda de autonomia para fazer a higiene própria ou na incapacidade de tratar da alimentação 4 vezes por dia, todos os dias, e ainda nas noites passadas em branco) e que muitos filhos maiores já sabem porque já experimentaram. Daí o pavor de muitos homens e mulheres ainda entre os quarenta e os cinquenta. Temem que estas situações se agravem e eternizem obrigando-os a adiar ou até a pôr de lado a sua realização pessoal e profissional, abdicando de uma vida que legitimamente sonharam para si mesmos e não contemplava o pesadelo de uma mãe, uma sogra, um pai ou um sogro doentes, acamados ou a precisarem de ser lavados e alimentados todos os dias.

À medida que o tempo passa e as doenças avançam percebemos que não existem pais perfeitos nem filhos ideais. Todos passamos pela experiência dos sentimentos contraditórios, pelas fases de maior nostalgia em que apetece ser apenas filho, voltar à infância (à ideia de uma infância protegida, seja ela real ou idealizada), recusar o envelhecimento, fingir que está tudo melhor do que realmente está, mas também por momentos de zanga, frustração, impaciência, raiva, confusão, alheamento e rejeição, que alternam inexplicavelmente com tempos de ternura, dedicação, amor e compaixão. Trazemos em nós tudo isto e muito mais. Dizem os especialistas que o caminho é aceitar esta mesma ambivalência tentando focar mais no amor e menos na culpa. Percebo os especialistas, pois nada é mais erosivo na relação entre pais e filhos do que os sentimentos de culpa mútuos. São erosivos e empobrecedores, aliás. Não levam a lado nenhum e fazem-nos esbarrar constantemente em muros de silêncio que rapidamente se tornam intransponíveis e nos afastam irremediavelmente uns dos outros. Os pais, porque se sentem culpados de estarem dependentes e darem tanto trabalho; os filhos por não estarem a ser capazes de cuidar, de acompanhar e mimar os pais como deviam e gostariam.

No meio de tanta vulnerabilidade e dependência também há boas notícias. As relações familiares muitas vezes fortalecem-se na adversidade. É um mistério que assim seja, mas acontece. Irmãos desavindos ou pouco próximos no dia-a-dia são capazes de largar tudo para socorrer outro irmão a braços com a realidade de um cancro terminal, uma situação de demência ou um cúmulo de debilidades dos pais. Já vi isso acontecer muitas vezes nos anos em que fiz voluntariado de cabeceira. Mas também já vivi isso com as doenças dos meus próprios pais. Somos quatro filhos vivos e temos vidas muito diferentes e muito exigentes, mas sempre que o pai ou a mãe precisam vamos a correr. Fomos e somos mais capazes de viver bem as situações más, do que de prestar atenção às fases fáceis e boas. Nessas alturas andamos todos mais absorvidos com as coisas de cada um, com as exigências da vida pessoal, profissional e familiar de cada um. Até podemos parecer distantes, mas perante a notícia de um tumor cerebral ou de uma hospitalização de emergência, criamos tacitamente turnos em que nos revezamos para tudo. Sejam banhos ou compras de supermercado, idas aos médicos e tratamentos, ou permanência à cabeceira. Nisto somos iguais a todos os irmãos e irmãs a quem já aconteceu terem um pai ou uma mãe a precisar de cuidados 24h sobre 24h.

A boa notícia é esta de nas fratrias poder haver uma lógica de entreajuda em que todos contribuem e se complementam. Entre irmãos os papéis são quase sempre diferentes e pode haver um mais pudico, outro mais capaz de dar banhos e tratar da higiene, outro que gosta de cozinhar e outro ainda que gosta de levar a passear. Há mil maneiras de exprimir os afectos pelos pais e a situação só se complica quando os filhos não se complementam, não se ajudam ou descartam o seu papel sobrecarregando um deles. Ou, claro, quando os filhos são únicos e se sentem mais impotentes.

A outra boa notícia no meio das doenças e sintomas de envelhecimento que geram dependências é poder haver um tempo reparador em família. Parece difícil, posto desta forma, mas mais uma vez falo pelo que vi e vivi. Há uma dimensão reparadora na proximidade familiar quando os pais ficam vulneráveis. Seja porque pais e filhos sentem necessidade de se perdoarem mutuamente por razões ou questões antigas, seja porque existe a chamada «dívida de gratidão» que atravessa o coração dos filhos perante quem lhes deu vida e quem cuidou deles na fragilidade extrema dos primeiros tempos de vida, na verdade o tempo da doença prolongada pode ser muito reparador. Pode restaurar relações e fortalecer laços. E também pode desfazê-los para sempre, claro, se tudo isto for vivido de forma negativa ou não houver possibilidade de cuidar.

Os filhos que cuidam dos pais por amor são verdadeiros salva-vidas. Salvam da solidão, da exclusão, do abandono, do esquecimento, da indigência moral e emocional em que vivem muitos velhos. Podem sentir um enorme stress interior e a tal ambivalência de sentimentos, podem até ter pavores de que tudo vá de «mal em pior», mas têm a possibilidade de se reconciliar em vida, de agradecer, de dar de volta aquilo que receberam, e até de aceitar a fragilidade, a dependência e a sua morte. Podem ser obrigados a viver tudo isto no auge das suas próprias crises existenciais, no seu tempo de balanços de vida, de crises e rupturas, de luto definitivo por uma adolescência que já não volta, mas tudo isto vale a pena se quisermos ser para sempre filhos dos nossos pais e cumprir o nosso papel até ao fim. Mesmo que temporariamente pareça que somos pais deles.

A minha experiência de cabeceira com estranhos, mas também de filha que tem os pais a morar em casa há anos, encerra e revela aquilo que Marie de Hennezel resumiu de forma maravilhosa : «Cuidar de um pai velho vai para além da relação filial. Um ser humano ao ajudar outro ser humano vulnerável aprende a ser melhor».





sexta-feira, 8 de abril de 2016


Romenos apoiam em massa

a protecção da família na Constituição



Luis Dufaur

Na Roménia, no tempo recorde de um mês e meio, uma iniciativa cidadã para promover uma emenda constitucional que proteja a família reuniu 2 milhões de assinaturas, equivalente a 10% da população nacional!, divulgou http://infocatolica.com.

O total poderá crescer ainda mais até terminar o prazo, em 24 de Maio. A meta inicial era conseguir 500 000 assinaturas em seis meses, porque assim o prescreve a legislação romena.

A coligação pela família Coalitia pentry Familie visa evitar interpretações enviesadas do artigo 48 da Constituição romena, como aliás aconteceu noutros países.

Para isso a coligação apela para que o artigo refira:

«A família está fundamentada no matrimónio livremente consentido entre um homem e uma mulher, na igualdade deles e no direito e dever dos pais de garantir o crescimento, a educação e a instrução dos filhos.»

A proposta deverá ser apresentada por um grupo parlamentar, ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado por uma maioria de 2/3, e ratificada em referendo.

O partido que assumir a apresentação da proposta sabe que, como aconteceu na Polónia e na Hungria, terá de enfrentar uma agressiva pressão da União Europeia, que vai querer passar por cima da soberania popular.

Mas o povo romeno parece determinado a defender a família, livrando-se dos restos da imoralíssima legislação imposta pela ocupação soviética e ainda vigente em grande medida em países como a Rússia.





segunda-feira, 4 de abril de 2016


T E L E M Ó V E I S

Caminhar a escrever no telemóvel

pode dar prisão


Pedro Mourão, Tecnologia, 29 de Março de 2016



Está a ser alvo de estudo, num Estado dos EUA, uma proposta de uma nova lei que penalize todas as pessoas que caminham ao mesmo tempo que escrevem no telemóvel (por exemplo: mensagens, Facebook, Instagram, Snapchat).

Esta lei está a ser discutida pela Assembleia Geral e o grande objectivo é prevenir (e reduzir) o número de acidentes. Por exemplo, entre 2004 e 2010 o número de acidentes mortais com peões triplicou.

Nova Iorque, Arkansas ou Nevada já tentaram implementar medidas parecidas, no entanto a aprovação desta lei falhou sempre.

Na lei em estudo, a pena prevista, para pessoas que vão a escrever ao telemóvel enquanto caminham, é uma multa de 50 dólares ou até 15 dias de prisão. Pamela Lampitt, deputada dos EUA diz que «Se uma pessoa na estrada – quer esteja a andar ou conduzir – for um risco para os outros, deve haver uma lei dissuasora e que puna o comportamento de risco.»


Fonte: nydailynews





sábado, 12 de março de 2016


As redes sociais e a cultura da imaturidade


Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 10 de Março de 2016

O Facebook funciona muitas vezes como um «buraco negro» que suga as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo colectivo. O pensamento pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir.

As redes sociais vieram mudar significativamente as nossas vidas. A emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração humana da história.


Ninguém sabe exactamente quais são as consequências que decorrem deste novo estilo de vida passado na internet, embora já haja alguns estudos. Por exemplo, a utilização excessiva da internet e das redes sociais está associada a depressão, a uma baixa auto-estima e a sentimentos de isolamento. Além disso, a utilização regular das redes sociais, e mais concretamente do Facebook, tem sido associada a um maior risco de divórcio e de relacionamentos extraconjugais.

Um inquérito realizado junto da American Academy of Matrimonial Lawyers (AAML) revelou que a utilização da rede social Facebook estava envolvida, como factor principal, em um em cada cinco divórcios nos EUA. O ecrã do nosso computador serve muitas vezes como uma espécie de janela para as nossas fantasias, onde se busca aquilo que não encontramos na vida real. Se um casamento está em crise, se alguém está infeliz numa relação, pode surgir a tendência para essa pessoa procurar uma alternativa amorosa. Essa procura faz-se cada vez mais nas redes sociais. Porém, essa busca pode revelar-se enganadora, uma vez que é essencialmente reactiva e emocional. Muitas vezes não se faz uma reflexão madura adequada sobre o que está mal na relação conjugal e o que poderá ser alterado, o que já foi feito para melhorar e o que ainda é possível fazer; há geralmente uma fuga para a frente.

Qualquer pessoa percebe que, com a rapidez com que tudo se passa actualmente na era da internet, a ponderação e a reflexão foram praticamente excluídas do nosso dia-a-dia. Muitas crises conjugais são intensificadas por uma baixa tolerância à frustração, uma falta de perseverança face à adversidade e por um certo egocentrismo. Com frequência, as justificações das rupturas são importadas das revistas cor de rosa e assentam nos clichês individualistas habituais: «não era feliz», «deixei de gostar», «tenho o direito de procurar a minha felicidade», «quero voltar a estar apaixonado(a)».

O mundo mudou e muitas vezes já não são as televisões, os jornais e as rádios que nos dão as notícias, mas são as redes sociais que, perante determinados acontecimentos que aparentemente seriam insignificantes, fazem a notícia. Todavia, em muitos casos a reacção é emocional, pouco profunda e elaborada, tal como grande parte dos comentários que lemos sobre as notícias dos jornais na internet. A agressividade prepondera, assistem-se a linchamentos públicos, e todos têm opinião sobre tudo.

Veja-se o caso recente do colunista Henrique Raposo, mais concretamente o ódio irracional de que foi vítima nas redes sociais, após a publicação do seu livro Alentejo Prometido. É certo que correu riscos, por ter abordado temáticas nesta obra que não domina propriamente (psiquiatria e sociologia), mas isso não invalida que emita opinião e pense sobre o assunto, ainda que se possa discordar. Ora, é precisamente «o pensamento» que está a desaparecer numa parte significativa da sociedade que emigrou para as redes sociais e que por lá passa cada vez mais tempo. O Facebook funciona muitas vezes como um enorme «buraco negro» que vai sugando as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo colectivo. O pensamento pára, a introspecção e a autocrítica deixam de existir. Tudo é reactivo e instintivo, o hedonismo prevalece e o seguidismo emocional cego surge de forma recorrente e imprevisível. Numa palavra, as emoções dominam o ser humano e surgem dissociadas do pensamento e da inteligência.

Em ambos os exemplos citados anteriormente, há um elemento comum: estamos a assistir à promoção da cultura da imaturidade. Neste contexto, as redes sociais são autênticos «esconderijos emocionais», pois não estão a favorecer propriamente o conhecimento, a reflexão, a prudência e o autocontrolo. Existe uma exaltação febril da impulsividade, da superficialidade, da expressão de sentimentos e comportamentos mais primitivos, como a violência e os julgamentos sumários das pessoas. Estas características são imaturas, primárias e revelam uma reduzida inteligência emocional.

Cada vez mais pessoas passam demasiado tempo imersas no mundo virtual das redes sociais da internet, agarradas obsessivamente ao computador, procurando a sua auto-realização. Mas julgo que este caminho é enganador e não ajuda ao crescimento individual, nem à aquisição de uma verdadeira aprendizagem social. O mundo real é muito mais rico, profundo, e valioso do que o mundo virtual. É motivo para dizer «viva cá fora, não se refugie lá dentro».






quarta-feira, 9 de março de 2016


Do género da parvoíce


Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 5 de Março de 2016

A minha filha tem uma voz fininha que até podia achar esganiçada se não estivesse a falar da minha filha. Ela é muito delicada, amua e reclama que é muito sensível. Tem pânico de aranhas e quer ser educadora de infância. Adora vestir-se de princesa e fica horas na casa de banho a pentear-se. Ela e as amigas gostam de brincar aos cabeleireiros e sentam-se nos cantinhos a falar e a rir de tudo e por nada.

A minha filha cresceu com cinco irmãos a infernizar-lhe a vida e ela a vida deles. Ao princípio, quando era mais pequenina, queria ser maria-rapaz já que não podia ser rapaz – uma injustiça. Mas ela combatia a injustiça: batia nos rapazes, gritava mais do que eles e levava uma bola para a escola. E lá ia ela, com a voz esganiçada, medo de aranhas e bola debaixo do braço. Acabou por desistir da bola porque, dizia: tiravam-na dos pés só por ela ser rapariga.

Lá está. Quando a minha filha soube que o último irmão seria rapaz, chorou. Perguntámos pela razão do desgosto, já que ela seria sempre a única menina. Sem concorrência. Mas ela só chorava. Até que gritou: «Eu queria ter uma irmã para poder brincar com coisas de meninas.»

Ups... Mas o que é isto? Isto é sinal de que a minha filha padece de «atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género», como diz a secretária de Estado da Igualdade – uma feroz opositora da «prática de dividir brinquedos por sexo». A minha filha discrimina, divide. Ela nunca gostou de carrinhos ou de futebol – coisas de rapazes, diz. E eles? Eles também. Eles, Deus lhes perdoe, não apreciam a Barbie e evitam pintar as unhas.

Só há uma solução para isto: acabar com os Happy Meals discriminatórios – óbvio, o fim da divisão das roupas, das palavras, mães e pais e tudo o que se divida na cabeça da secretária de Estado da Igualdade. Já agora, quando é que escolhem um homem para esta pasta?


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sábado, 5 de março de 2016


O complexo social-industrial em acção


Carta revela drama de mais famílias

que perderam a guarda dos filhos na Noruega


Num abaixo-assinado, trinta e oito famílias denunciam sequestro sistemático de crianças pelo governo da Noruega: «Os nossos filhos estão sendo literalmente arrancados das nossas mãos.»


«O Barnevernet sequestra crianças!»: protesto de famílias da Lituânia, um dos países mais afectados pelas políticas autoritárias da Noruega.

Trinta e oito famílias escreveram um abaixo-assinado denunciando o sequestro sistemático de crianças feito nos últimos anos pelo governo da Noruega. Assinada no início deste mês por pais vindos das mais diversas partes do mundo, a carta é um protesto contra as decisões arbitrárias do Barnevernet – o departamento de «protecção à infância» do país –, que simplesmente afasta as crianças dos seus pais, sem motivo razoável, nem mandado judicial. O documento foi enviado às Nações Unidas, ao Papa Francisco, bem como à Comissão e ao Parlamento da União Europeia.

Embora a Noruega não pertença à União Europeia, as famílias reunidas na plataforma Stop Barnevernet pedem que a comunidade internacional intervenha de alguma forma para defender os seus filhos e outros tantos que estão retidos pelo governo norueguês. Os signatários da carta vêm de países como Eslovénia, Estados Unidos, Índia, Inglaterra, Iraque, Lituânia, Roménia, Rússia, Suécia, Turquia e até do Brasil. Alguns só podem ver os seus filhos «quatro horas por ano»; a outros é negado qualquer contacto com as crianças. Mesmo os lactentes são tirados às suas mães e uma família norueguesa está sendo perseguida pelo departamento há cinco gerações.

A brasileira residente no país Daiane Alves Lopes, uma das vítimas desta política arbitrária, revelou à TV Anhanguera, no ano passado, como perdeu a guarda de um dos seus dois filhos, Yorrani, que hoje vive num lar adoptivo. «Eles fizeram uma reunião e não falaram que iam pegar a criança. Depois me chamaram. Falaram que iam me ajudar. E quando eu cheguei lá não era isso. Tinha dois seguranças, fecharam a porta e pediram a criança. Arrancaram a criança de mim, do meu braço», refere ela.

Na carta endereçada às autoridades internacionais, os 38 pais condenam o que chamaram de um «inexplicável abuso de poder» por parte do governo de uma nação «supostamente avançada», como é a Noruega. «Famílias inocentes estão sendo destruídas por 'violar' um 'bem-estar infantil' de que ninguém sabe a definição», diz o abaixo-assinado. «Muitas famílias têm que viver uma vida no medo».

A íntegra do documento foi disponibilizada pelo site espanhol Religión en Libertad e contém detalhes assombrosos sobre o que está acontecendo no país:

«As crianças estão a ser literalmente arrancadas das mãos dos seus pais. Tanto o serviço social quanto a polícia são implacáveis. As crianças chorando e gritando, implorando por uma oportunidade de ficar com as suas famílias, não são absolutamente nenhum obstáculo para eles. (...) Geralmente, tudo começa com uma acusação infundada e, depois de um momento iniciar, as crianças são levadas dos seus pais em estado de choque. Os pais, então, colaboram com as autoridades e conformam-se, tudo na esperança de que os seus amados sejam devolvidos um dia. Instruídos pelo Barnevernet, permanecem em silêncio: não lutam contra o sistema, não vão à imprensa com as suas histórias e pacientemente aguardam pelo próximo encontro com os seus filhos, que é agendado para apenas um par de horas algumas vezes ao ano, geralmente sob a vigilância pesada da polícia e do Barnevernet

«Tratam-nos como assassinos, apesar do facto de não terem nenhuma evidência de maus tratos. Não têm nenhuma evidência de que algo ilegal tenha sido feito aos nossos filhos. O destino das nossas vidas é decidido pela chamada fylkesnemnda, uma comissão para assuntos de família que determina com que frequência poderemos ver os nossos filhos – se é que poderemos vê-los – e se os nossos filhos serão obrigatoriamente adoptados.»

Os signatários do documento ainda acusam as ditas comissões de se servirem de métodos fraudulentos para manter os filhos longe dos seus pais biológicos. «São capazes de falsificar documentos e pareceres de especialistas, e nós temos fortes evidências disso», refere o texto.

Alguns dos pais que assinaram a carta conseguiram novamente a guarda dos filhos, ainda que em «circunstâncias estranhas». «Não houve nenhuma intenção de indemnizar-nos pela dolorosa intervenção por que passámos», afirma o documento, «nem sequer uma espécie de desculpas ou explicação por tudo o que aconteceu

O abaixo-assinado também faz referência à base cristã em que nasceu a Noruega, hoje em livre decadência. «Ainda que a Noruega não seja um país predominantemente cristão, é um país baseado numa herança cristã», diz a carta. «Essa herança cristã está, agora, severamente ameaçada pelas tendências a ignorar o que a unidade familiar significa, seja para os indivíduos, seja para toda a sociedade.»

No caso dos Bodnariu, a família de ascendência romena que perdeu recentemente a guarda de cinco filhos, o motivo da intervenção parece ter sido eminentemente religioso. A directora da escola em que as meninas estudavam preocupava-se com o facto de Ruth e Marius serem «muito cristãos» e a avó acreditar que «Deus castiga o pecado». Na opinião dela, a ideia criaria «uma inabilidade nas crianças». Outras ocorrências, todavia, sugerem motivações de ordem étnica e económica para o sequestro das crianças.

Porta-vozes da campanha Stop Barnevernet responsáveis por entregar a carta às autoridades europeias. À esquerda, o eurodeputado Tomáš Zdechovský.


O eurodeputado polonês Tomáš Zdechovský, que também está à frente da campanha Stop Barnevernet – reunindo na Internet várias histórias similares ao caso Bodnariu –, explica que muitas das intervenções do governo norueguês afectam principalmente os filhos de imigrantes.

«As famílias são forçadas a enviar os seus filhos à pré-escola, a assistir a programas infantis da Noruega e a ter um número de amigos noruegueses», escreve o deputado. «Não é suficiente que vocês, como pais, planejem ensinar a língua norueguesa ao seu filho fora da escola, nem que estejam prontos para obter o que é necessário quando a escola começar. É o governo que decide o que é melhor para o seu filho. Os legisladores desenvolveram medidas incrivelmente severas para forçar as pessoas a fazer o que o governo acha que está certo.»

É sempre válido lembrar que, independentemente das leis que vigoram num país, o direito dos pais de educar os próprios filhos é um direito natural, reconhecido inclusive pelo art.º 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: «Os pais têm prioridade de direito na escolha do género de instrução que será ministrada aos seus filhos».

Tomáš Zdechovský condena terminantemente o autoritarismo do Barnevernet e questiona o modo como as coisas estão a ser conduzidas na Noruega. «Sempre haverá problemas com a imigração», diz ele. «Mas simplesmente não podem ser resolvidos tirando as crianças sem uma boa razão. Como chamar a tal estado de ilegalidade senão de fascista ou comunista?»





sábado, 27 de fevereiro de 2016


Aprender a ser mãe


Inês Teotónio Pereira

Ao fim de anos a gritar ou a impor castigos por causa das notas, dos quartos desarrumados, das lutas e discussões, das mentirinhas e das desobediências, reformei-me.

Ao fim de 15 anos como mãe, de centenas de textos escritos sobre o assunto e de milhares de textos lidos sobre o assunto, cheguei a uma triste conclusão: sei muito pouco sobre o assunto. Ao fim deste tempo todo constato que repito os mesmos erros, mantenho as mesmas esperanças e tenho as mesmas angústias que tinha quando só tinha um filho e quando esse meu filho tinha meses. Na verdade, não cresci. Eles é que cresceram.

E ainda bem. Aprendi, no entanto, muitas coisas – embora nenhuma delas me tenha ensinado a ser melhor mãe (se é que há melhores mães ou pais). Aprendi que eles nascem com determinadas características que são só deles e que não há educação (boa ou má) que as possa alterar. E aprendi que educar não é construir ou destruir caracteres, personalidades, gostos ou crenças, mas sim moldar cada uma destas coisas. Ora, esta minha aprendizagem teve como consequência que hoje sou uma mãe muito menos mãe dentro do género mãe-galinha. Ou seja, poucas coisas me angustiam.

Ao fim de anos a gritar ou a impor castigos por causa das notas, dos quartos desarrumados, das lutas e discussões, das mentirinhas e das desobediências, reformei-me. Agora é preciso muito mais do que uma negativa ou um vidro partido com uma bola para me alterar a disposição. A minha disposição atingiu o ponto ansiolítico óptimo e as suas variações não são dignas de registo. Percebi, depois de muita energia gasta, que a maioria das batalhas estão perdidas e que a «Música no Coração» é mesmo um filme.

Há coisas que, obviamente, ainda me irritam, e os gritos não cessaram, mas são tudo coisas pouco importantes. Por exemplo, irrito-me quando eles não penduram as toalhas molhadas, não arrumam as canecas que sujam, deixam roupa espalhada no chão, etc. Coisas práticas, portanto. Também me irrito quando eles abrem coisas sem autorização, como latas de salsichas, pacotes de bolachas, Nutella, etc. Não sei porque é que me irrito com isto, acho que é um hábito. Mas são só estas. Irritam-me coisas que me dizem respeito, a mim e não a eles, e todas elas por desafiarem um saudável convívio comunitário. As minhas manias, vá. Nada de estrutural, pedagógico ou educacional, portanto.

Finalmente aprendi a sobreviver como mãe e deixei de me preocupar em ser supermãe. Abandonei o projecto megalómano de construir pessoas como se estivesse a construir legos. Percebi que ser mãe é aceitar que há quem nasça desarrumado e quem nasça arrumado, quem seja organizado e quem não seja, quem goste de desporto e quem não goste, quem seja vaidoso e quem não seja, e quem seja ambicioso e quem não seja. E que contra isso não há quase nada a fazer.

Os meus filhos continuam teimosamente a ter as mesmas características que tinham quando eram mais pequeninos e não há força da natureza que os altere. Nem eu, ou muito menos eu. Aprender a ser mãe, aprendi eu, é aprender a viver com os nossos filhos sejam eles como forem. E fazer tudo para que saibam construir a sua autonomia, confiança e felicidade. Como? Não sei. Sei apenas que não vale a pena chatearmo-nos nem metade daquilo que nos chateamos. É que nem eles são bonecos nem nós somos Deus.





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016


A Eslovénia recusa em referendo

o chamado «casamento» entre invertidos


Luís Dufaur

Em Dezembro de 2015, a Eslovénia recusou em referendo a lei que pretendia permitir o «casamento» entre invertidos, noticiou o jornal francês Le Monde.

O referendo foi de iniciativa popular e os eleitores eslovenos rejeitaram a lei, aprovada pelos deputados há dez meses. A maioria vencedora atingiu 63,12% dos votos.

A participação no escrutínio foi fraca (35,65%), mas legalmente suficiente para validar a votação. Os defensores da família natural conseguiram o apoio de pelo menos 370 000 eleitores. Eram necessários 342 000 votos para vetar a lei.

Esta tinha sido aprovada por larga maioria dos deputados do Parlamento, constituída por partidos de esquerda e engrossada pelos representantes do partido centrista que, como é de praxe nessas formações de meio termo, no momento decisivo traem o seu «centrismo», a sua «moderação» ou a «equidistância» e aliam-se à esquerda.

A Eslovénia votou NÃO ao «casamento invertido»
e à adopção de crianças por esses «casais».

O partido centrista é o mesmo do primeiro-ministro Miro Cerar e tinha à sua disposição as alavancas do poder do Estado.

O texto legal, hoje despojado de valor, concedia aos casais invertidos e lésbicos os mesmo direitos dos casais heterossexuais bem constituídos, inclusive o direito de adopção de crianças, um dos pontos mais contestados pela população.

O referendo pôde ser realizado graças às 40 mil assinaturas recolhidas por grupos pela vida pedindo a convocação de uma consulta de iniciativa popular com poder de veto.

A lei não entrou em vigor antes do veredicto popular e hoje encontra-se revogada.

Santuário e castelo de Bled na Eslovénia

Em 2012, numa consulta similar, os eslovenos já tinham dito «não» ao «casamento» sodomítico com uma maioria de 55%.

O país tem dois milhões de habitantes, pertence à União Europeia desde 2004 e é considerado o mais liberal das antigas nações que sofreram a imoral opressão comunista.

Contudo a lei antinatural acabou por ser rejeitada, facto que pressagia recusas análogas ou mais truculentas noutros países eslavos libertados da tirania soviética.





quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016


Porque sofrem as mães, e os pais nem tanto?


Inês Teotónio Pereira, ionline, 16 de Fevereiro de 2016

Eles só sofrem quando tem mesmo de ser, não fazem telenovelas do assunto, não vão para o café carpir com os amigos e muito menos escrevem sobre o assunto.

Uma mãe nasce para sofrer. Não faz mal nenhum, mas é mesmo assim. Nós sofremos imenso e nem sabemos porquê. Achamos que temos culpa de tudo e principalmente de tudo o que não depende directamente de nós. Somos culpadas e sofremos verdadeiramente sempre que vamos ao médico com eles e que descobrimos que não tratámos devidamente a pele atópica, que não lhes damos todas as vitaminas, que os óculos estão riscados, que não lhes proporcionamos os desportos que eles merecem para crescerem saudáveis e ainda porque nos lembramos que um dia, há dois verões, não espalhámos protector solar na nuca da criança.

Também somos culpadas e sofremos cada vez que um professor nos chama à escola. Vamos de cabeça baixa, carregadas de culpa e de dor, qual Egas Moniz de corda ao pescoço, ouvir que o menino anda atrevido nas aulas, não faz os trabalhos todos, tem uma letra imperceptível e, claro, não trabalha o suficiente em casa. Tudo culpa nossa, mesmo que o professor não ache. Depois sentimo-nos culpadas quando o bebé espirra porque não lhe vestimos o casaco há dois dias, quando até estava sol, ou quando o menino se queixa por não ter um cão e a culpa é nossa por não estarmos a criar todas as condições para ele ter uma infância parecida com as crianças d’Os Cinco. Isto dói. Também nos sentimos culpadas e sofridas porque somos muito exigentes numas coisas mas, por outro lado, sofremos porque somos moles noutras coisas e assim não os estamos a preparar convenientemente para a vida.

Mas o pior sofrimento de todos é quando eles sofrem. Quando os nossos meninos sofrem é verdadeiramente o fim do mundo. E a culpa, claro, só pode ser nossa. Pelo que não fizemos para evitar o sofrimento ou pelo que fizemos provocando sofrimento – como seja fazer uma sopa de legumes não passada. Uma mãe até sofre porque não consegue dar de mamar e enche-se de culpa por isso, tal como sofre porque adormece a ler histórias, porque não gosta de brincar com legos ou porque está mais vezes cansada do que não. Sofremos de remorsos por tudo isto mais do que um criminoso de guerra arrependido.
Depois, no fim do dia, vamos para a cama e, no silêncio da almofada, prometemos que amanhã será diferente, que a partir de amanhã seremos melhores mães e teremos então menos razões para nos sentirmos culpadas e sofrermos. Fazemos isto 300 noites por ano e nas outras 65 adormecemos antes do arrependimento. Ser mãe é mesmo assim e não há psicólogo que nos cure. Viveremos com culpa e com culpa morreremos.

Já os pais é outra loiça. Os pais são objectivamente mais espertos. Eles só sofrem quando tem mesmo de ser, não fazem telenovelas do assunto, não vão para o café carpir com os amigos e muito menos escrevem sobre o assunto. Um pai sofre objectiva e concretamente. Ele sofre quando o filho é de outro clube que não o dele, quando descobre que o filho tem mais jeito para desenho do que para futebol, quando a criança não o deixa dormir à noite, quando percebe que vai passar o resto da vida a guiar carrinhas e, só na outra encarnação, descapotáveis, quando lhe comem as bananas ou roubam as meias, quando lhe vão à carteira e/ou aos cigarros, quando lhe limpam a conta bancária numas férias das quais ele sai arrasado, quando escorrega em brinquedos na casa de banho e, claro, quando o primeiro estupor adolescente envia o primeiro sms à sua filha e ela cora ou chora.

Um pai sofre, mas só sofre depois da mãe. Ele sabe que a mãe sofre muito melhor, que o filho, neste aspecto, está mais bem entregue ao sofrimento da mãe e que não vale a pena estarem o dois a competir pelo mesmo. Chama-se também a isto divisão de tarefas domésticas. Um pai só se preocupa verdadeiramente com a febre da criança se a mãe não se preocupar ou se a mãe não se preocupar o suficiente. Basta um sofrer e, sendo assim, que sofra o melhor. Ora, é um facto que as mães, nisto de sofrer, dão cartas há milhares de anos. E neste capítulo não há paridade possível.






De que falamos quando falamos de eutanásia?


Filipe d'Avillez

O que é eutanásia voluntária? E involuntária? Qual é a diferença entre esta e outras práticas médicas como a ortotanásia, a distanásia e os cuidados paliativos? Explicamos estes e outros conceitos na semana em que se instalou o debate sobre a eutanásia.

A palavra eutanásia vem do grego e significa «boa morte». Em termos médicos, contudo, significa pôr termo intencionalmente à vida de uma pessoa, normalmente de alguém que sofre de uma doença incurável ou que está em grave sofrimento.

Há diferentes tipos de eutanásia, conforme envolvem a manifestação de uma vontade da pessoa doente ou em sofrimento, ou não, mas envolve sempre uma segunda pessoa que toma parte no acto, sendo isso que a distingue do suicídio.

A eutanásia é voluntária quando existe um pedido expresso por parte da pessoa para ser morta. É não voluntária quando essa decisão é tomada por outra, normalmente um familiar, porque o doente não tem capacidade para o fazer. Este último tipo não deve ser confundido com eutanásia involuntária, que é o acto de matar alguém doente, que tem capacidade para manifestar a sua vontade mas não o faz, ou porque a opinião não lhe foi solicitada, ou porque não quer morrer.

Há outras situações em que é a própria pessoa que toma a medida que põe fim à sua própria vida, mas fá-lo com a ajuda de outra que, por exemplo, lhe fornece uma dose letal de medicação. Nestes casos não se fala de eutanásia, mas sim de suicídio assistido.

Há ainda uma série de outros termos que frequentemente são confundidos com eutanásia. A palavra ortotanásia significa morte natural e por vezes é utilizada para situações em que são desligados ou retirados os meios extraordinários para manter a vida. O que é coloquialmente designado como «desligar as máquinas», ou o recusar tratamentos que podem curar uma doença ou eventualmente prolongar a vida, não são formas de eutanásia, nem são moralmente equiparáveis.

distanásia é precisamente o contrário da eutanásia. A palavra significa «má morte» e é entendida como o prolongamento de uma vida, por meios artificiais, mesmo quando isso implica sofrimento para o doente. A distanásia é considerada universalmente uma prática médica inadequada.

Nos últimos anos tem-se falado bastante da expressão testamento vital. Também isto não pode ser confundido com eutanásia. O testamento vital é apenas um instrumento jurídico que permite a uma pessoa, em plena possa das suas capacidades, deixar instruções sobre como gostaria de ser tratada caso venha a encontrar-se incapacitada. O que se pede no testamento vital é que pode, ou não, ser polémico. Mas o pedido de não ser prolongada a vida por meios artificiais, quando não existe esperança médica de uma cura ou recuperação de consciência, por exemplo, mais uma vez, não é eutanásia. Naturalmente, enquanto a eutanásia não for uma prática legal em Portugal, não se pode requisitá-la num testamento vital.

Quando se fala de sofrimento em fim de vida, fala-se ainda de cuidados paliativos, os cuidados de saúde prestados a pessoa com doença incurável, avançada e progressiva, com o objectivo de intervir no sofrimento global (físico, psicológico, emocional), independentemente da doença de que sofre e do prognóstico (que pode ser de anos, meses ou semanas). Não se destinam apenas a moribundos e pretendem intervir globalmente no sofrimento, evitando que ele se torne intolerável, e apoiam também a família.

Uma das ferramentas terapêuticas, que não se utiliza como medida de primeira linha mas sim para sintomas que não podem ser tratados de outra forma, é a sedação paliativa.

O que é pedido a todos os profissionais de saúde, nomeadamente aos que trabalham em cuidados paliativos, é que não prolonguem a qualquer custo, nem encurtem, a vida dos doentes, mas sim respeitam a inevitabilidade da morte.





sábado, 13 de fevereiro de 2016


Como estacionar facilmente o seu carro?


Para alguns pode ser a coisa mais básica, mas a realidade é esta: muitas pessoas, mesmo com carta de condução há muito tempo, têm dificuldades no momento de estacionar o carro.

A pensar nisso, publicamos este vídeo com truques muito úteis que certamente vai ajudar quem não domina a técnica. Por favor partilhe com os amigos!

http://www.tabonito.pt/como-se-faz-um-estacionamento-perfeito





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Tão inteligentes que eles eram


Inês Teotónio Pereira, Jornal i, 10 de Fevereiro de 2016

Por mim, eu parava de elogiar a criançada. E se eles fossem inteligentes nunca, jamais, lhes revelaria tal descoberta. Escondia a informação e até pedia a ajuda da Comissão Nacional de Protecção de Dados para garantir o sigilo

Quando os professores dos meus filhos escrevem nas avaliações que eles são muito inteligentes, levo as mãos à cabeça. Ao princípio, quando era mais novinha e menos experiente nesta lide maternal, ficava toda orgulhosa: «Ah, que maravilha, este meu rico menino é tão inteligente. Aprende tudo à primeira. Já o estou a ver a ganhar o Nobel.» Foi assim durante anos. O facto de os professores reconhecerem a inteligência da minha criançada era um consolo e, achava eu, o quanto baste. Depois cresci. Cresci eu e cresceram eles. E foi então, mais ou menos por esta altura, que percebi o óbvio: a inteligência é como a farinha, não serve para nada sozinha. Aliás, a inteligência, sozinha, morre. Ora, os meus filhos inteligentes andam todos a dormir à sombra da inteligência que os professores lhes deram há anos. E isso chega-lhes. Houve um dia, quando eles ainda lutavam para aprender a ler e a fazer contas de dividir com dois números, que alguém lhes ditou uma espécie de passaporte para o ócio: «Tu és muito inteligente, se quiseres consegues melhores resultados.» E todos os trimestres, com cada um deles, é a mesma coisa: «Tu és muito inteligente, se trabalhares vais longe, só tens de querer.» É o fim. Este reconhecimento de inteligência, que do ponto de vista dos professores serve para encorajar e motivar a miudagem, tem nos meus filhos o efeito contrário: eles enroscam-se na inteligência e trabalhar, que é bom, nada. Acham que não têm mais nada para provar e ficam pacientemente à espera que uma vontade vinda do além os faça trabalhar. E enquanto a vontade não chega, descansam.

Por mim, e desculpem os professores pelo atrevimento do conselho, eu parava de elogiar a criançada. E se eles forem inteligentes nunca, jamais, lhes revelaria tal descoberta. Escondia a informação e até pedia ajuda à Comissão Nacional de Protecção de Dados para garantir o sigilo. As crianças não têm maturidade para lidar com uma informação tão preciosa quanto esta. Se elas forem de facto inteligentes, não precisam que ninguém lhes diga; se não forem, muito menos precisam.

Uma criança com o rótulo de inteligente na testa acha que se conseguirá safar em qualquer circunstância. De facto, eles até vão passando de ano, até se safam nos exames, conseguem aguentar-se estudando apenas na véspera, apanham meia dúzia de coisas que os professores dizem nas aulas e, muitas vezes, até conseguem inventar outras tantas, revelando a sua inteligência e criatividade. Mas mais tarde ou mais cedo, a farra acaba. E quando lhes são exigidos hábitos de trabalho, treino e responsabilidade, eles nem sabem o que isso quer dizer.

A verdade é que para qualquer miúdo, inteligente ou não, o que conta na escola e na vida é a responsabilidade, a capacidade de trabalho e o esforço. E isso treina-se. A inteligência pode ajudar mas, em qualquer caso, é apenas um acessório. O mundo dos crescidos está cheio de crianças inteligentes que nunca acharam que fosse preciso esforçar-se, pois bastava-lhes a inteligência, e por isso ficaram a meio caminho do sítio onde queriam chegar. Afinal, nunca passaram de uma promessa.

Há uma altura na vida escolar e, depois, na vida profissional que o trabalho e a persistência dão 100 a zero à inteligência. E é aí que os nossos filhos inteligentes se arriscam a ficar para trás, agarradinhos à sua almofada de inteligência e a suspirar por um futuro e por uma vontade de trabalhar que não há maneira de cair do céu. É que é preciso ser-se esperto para usar a inteligência.