quarta-feira, 24 de junho de 2015


Vamos referendar o Acordo Ortográfico!


Heduíno Gomes

Em boa a verdade, a ortografia não é assunto que se referende por constituir matéria a ser tratada por especialistas — competentes e não por broncos ou vendidos a interesses —, no exercício da autoridade do Estado que defenda a identidade nacional — Estado que não temos.

Esta acção política do referendo não é propriamente para decidir da correcta ortografia mas apenas se destina a travar esse crime contra a língua portuguesa iniciado por Santana Lopes-Cavaco e continuado pelos sucessivos políticos medíocres que nos têm governado ao longo destes decénios.

Eis os elementos essenciais sobre a iniciativa.


Recolha de assinaturas está em marcha.

Personalidades das áreas da política, artes, cultura e académicos estão a recolher assinaturas para um 
referendo ao Acordo Ortográfico  (AO1990) e questionam sobre a matéria os candidatos a cargos políticos nas próximas eleições.

Finalmente, os cidadãos podem pronunciar-se sobre um assunto que sempre foi decidido e imposto sem lógica.

Da lista fazem parte escritores, professores e cientistas, políticos, comentadores, jornalistas, todos juntos numa iniciativa que nasceu em Abril passado num fórum realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com o título «Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao Acordo Ortográfico de 1990».

Além do referendo, os promotores querem também perguntar às forças políticas e aos candidatos presidenciais o que pensam sobre o Acordo, se o utilizarão no exercício do cargo caso sejam eleitos, de que forma Portugal se deve de desvincular (se for o caso) e em que sentido votarão a iniciativa de referendo na Assembleia da República.

A iniciativa tem 52 mandatários. O referendo, segundo a Constituição (artigo 115.º  2) pode resultar de iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República. São necessárias 75 mil assinaturas.


Onde Assino?

https://referendoao90.wordpress.com/






segunda-feira, 22 de junho de 2015


Patrícia Lança sobre mulheres na tropa


Heduíno Gomes

A Patrícia Lança, falecida o ano passado, era luso-britânica e serviu, durante a II Grande Guerra, como sargento, no exército britânico. Estava num serviço de apoio ao Estado-Maior, e portanto na retaguarda.

Ela e o marido, Carlos Lança, foram activos militantes comunistas, tendo estado em Praga nos serviços de propaganda. Cortaram com a União Soviética em 1956, quando da invasão da Polónia e da Hungria. O seu corte com o marxismo teve lugar já no princípio dos anos 70. Entretanto, haviam residido em Argel, onde constaram entre as vítimas do bando de Argel, que integrava o «democrata» Manuel Alegre, então trauliteiro do PCP.

Depois do 25A, deu o nome para as listas do PSD... e acabou por ser eleita deputada durante 4 anos na enxurrada do cavaquismo. Sempre se distanciou do cavaquismo e das taras dos e das cavaquistas, nomeadamente do feminismo das senhoritas da organização de fachada «Mulheres Social-Democratas» e dos mansos oportunistas que lhes aparam as «igualdades» e as «quotas» para mulheres.

Publicou no Diabo muitos artigos, nomeadamente contra o feminismo, um dos quais com o sugestivo título /Deverá a Mãe-Natureza Mudar de Sexo?\.

Uma vez, em conversa sobre as mulheres nas Forças Armadas, diz-me ela: — Ó Heduíno, já pensaste se uma mulher está na frente da batalha e precisa de fazer chichi?

Era a opinião de uma mulher com provas dadas, uma mulher não-bibelot...

Patrícia Lança, sargento, em 1943, e em 2003.





quarta-feira, 17 de junho de 2015


«Chega de igualdade!

Mulher não dá para ser soldado!»

— diz capitã dos Marines


Luis Dufaur

No artigo intitulado «Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais», a capitã defende que a anatomia feminina não é capaz de resistir às asperezas de uma longa carreira militar que envolve operações de infantaria.

Ela adverte que os Fuzileiros Navais (Marines) vão sofrer «um aumento colossal no número de mulheres incapacitadas e obrigadas a concluir a sua carreira por motivos de saúde».

Katie Petrónio baseia-se na experiência pessoal, adquirida em situação de combate. Causando-lhe sérios danos físicos, malgrado um promissor começo na elite da oficialidade da arma.

A capitã escreveu que «preenchia todas as condições» para ser uma mulher-soldado ideal quando começou a carreira. «Eu era uma estrela no hóquei sobre o gelo no Bowdoin College, pequena escola de elite em Maine, com um título em Direito e Administração».

Ela também tirou resultados «de longe acima da média em todos os testes físicos de capacidade para mulheres», embora não completasse todo o treino prévio.

«Cinco anos depois, eu não sou fisicamente a mulher que uma vez fui, e os meus pontos de vista a respeito da mulher ser bem sucedida numa carreira duradoura na infantaria mudaram muito», escreveu Petrónio.

«Mulher nunca deveria ser soldado de infantaria»,
escreveu a capitã dos Marines Katie Petrónio na revista «Marine Corps Gazette»,
segundo informou a agência LifeSiteNews.

«Eu posso dizer, com base na minha experiência pessoal directa no Iraque e no Afeganistão, e não é apenas uma impressão, que nós ainda não começamos a analisar e a compreender as questões específicas de saúde do género e os danos físicos nas mulheres por causa de contínuas operações de combate».

Petrónio «participou em numerosas operações de combate» que por vezes duravam semanas, sofrendo stress e falta de sono. As suas pernas começaram a atrofiar-se, perdeu a mobilidade, perdeu peso, parou de produzir estrógenio e desenvolveu uma síndrome no ovário que a deixou estéril.

Ela completou o seu período com bons resultados, mas percebeu que lhe seria impossível aguentar o esforço que um homem é capaz de fazer e pediu para se retirar por motivos de saúde.

Petrónio manifestou a sua preocupação diante da pressão dos grupos que impulsionam a integração de mulheres no corpo de infantaria.

«Quem está a promover esta agenda? Eu não vejo Marines femininas, recrutas ou oficiais, batendo às portas do Congresso, queixando-se de que a sua impotência para servir na infantaria viola o direito à igualdade» escreve ela.

Kate diz que essa pressão está sendo aplicada pelo «pequeno comité de civis nomeado pelo Secretário da Defesa» denominado Comité Consultivo de Defesa para Mulheres no Serviço (Defense Advisory Committee on Women in the Service – DACOWITS).

Embora alguns deles tenham experiência militar, nenhum de seus membros «estão no serviço activo ou têm qualquer tipo de experiência recente em combate ou em operações relevantes sobre as realidades que eles estão tentando modificar», observou Petrónio.





domingo, 14 de junho de 2015


Sem exames os meus filhos vão estudar

em S. Bento


Inês Teotónio Pereira, ionline, 13 de Junho de 2015

Parece que corro o risco de o meu sofrimento voltar, pois uma das promessas do PS é acabar com os exames «nos primeiros anos de escolaridade».

A primeira grande contrariedade do meu filho mais velho foi o exame do sexto ano. Até lá a criança teve uma vida santa. Ele era um rapaz feliz, descontraído e sem preocupações. Comia, dormia, brincava e fazia os trabalhos de casa. O azar dele foi que a dada altura, sem que tenha feito alguma coisa por isso, o País mudou de governo e o ministério da educação mudou de mãos. Foi o fim de uma era. As férias da Páscoa começaram e acabaram com e ele a estudar para o raio dos exames. Português e Matemática, ainda por cima – podiam ter escolhido educação cívica e moral, sempre era mais aceitável. Ele refilou, refilou, estudou, estudou, eu gritei, gritei e ele passou com distinção. Mas nunca mais foi o mesmo.

No ano seguinte o meu outro filho também fez o exame do sexto ano. «Olha, não te preocupes que aquilo até é fácil. Não precisas de estudar tanto quanto eu estudei», aconselhou o mais velho. Só que o rapaz é perfeccionista e estudou que nem um condenado. Passou com boas notas. Mas nunca mais foi mesmo: achava que era melhor do que era e os exames injectaram-lhe alguma humildade. O ano passado, o meu terceiro filho fez o exame do 4.º ano. Tive mais pena da professora do que dele. A professora esforçou-se a sério para que os seus meninos ficassem bem na fotografia e eles ficaram. Este meu filho, mais inseguro, descobriu que conseguia boas notas se estudasse e que a nota do exame só dependia da vontade dele em responder às exigências da professora. Também este nunca mais foi o mesmo.

Eu também nunca mais fui a mesma. Ao princípio considerava os exames uma questão de vida ou de morte, uma prova definitiva. Confesso que cheguei a ter pena da criançada, dúvidas se eles tinham idade para serem sujeitos a uma prova tão séria e medo das consequências se os resultados não fossem bons. Sofri. Mas isso só aconteceu com os dois primeiros. A minha sorte é que tenho mais e por isso com o terceiro descontraí. Tinha aprendido que, afinal, nada dependia de mim e que muito pouco dependia dos exames. Mesmo que o resultado do exame fosse desastroso era preciso um ano inteiro desastroso para que a nota final fosse trágica. Eles perceberam cedo que a preparação para o exame começa no primeiro dia de aulas, por isso, mais do que a função de avaliação, os exames tiveram sempre nos meus filhos um efeito pedagógico. Não foi por causa dos meus gritos ou ameaças que eles começaram a levar a escola a sério, mas sim – e custa-me dizer isto revelando assim a minha irrelevância – por causa dos exames.

Por tudo isto sou hoje uma mãe diferente. E sou de tal maneira diferente que suspeito até ser de alguma forma negligente. Este ano o meu filho mais velho faz os exames do 9.º ano e eu, supostamente uma mãe responsável e presente, achava que a data do primeiro exame era ontem e não depois de amanhã. Só descobri na véspera que ainda faltavam três dias. O rapaz ainda não comentou este meu engano, mas suspeito que abalei de alguma forma a pouca confiança em datas que ele deposita em mim. Seja como for, a verdade é que os exames tiverem o efeito milagroso de transferir a angústia dos pais para os filhos, pelo menos no meu caso (até um bocadinho de mais, é certo). Agora, são eles que sofrem e eu vou mais vezes ao cinema.

Mas parece que corro o risco de o meu sofrimento voltar, pois uma das promessas do PS é acabar com os exames «nos primeiros anos de escolaridade». Ora, como eu ainda tenho mais três filhos para fazerem exames nos «primeiros anos de escolaridade», esta promessa socialista preocupa-me tanto quanto me aterroriza a ideia de o PS ganhar eleições. Para o ano a minha filha faz o exame do 4.º ano – «para o ano é que é mesmo a sério», diz ela – e por isso já proclamou que vai começar a estudar desde o primeiro dia de aulas. Ainda não lhe disse que a concretização desse plano depende de umas eleições – não tive coragem. Mas, caso se concretize esse cenário dantesco prometido pelo PS, vai daqui a minha promessa em como depositarei estes meus filhos à porta de São Bento, pelo menos três vezes por semana, para que o Dr. Costa tome conta deles e os transforme em alunos responsáveis e estudiosos. Só não pode avaliá-los. Coitado do Dr. Costa: o que os meus filhos gozariam com ele.





domingo, 31 de maio de 2015


O Alzheimer descrito pelo próprio paciente


Arthur Rivin (Foi clínico-geral e é professor emérito na universidade da Califórnia)

Sou médico aposentado e professor de medicina. E tenho Alzheimer.

Antes do meu diagnóstico, estava familiarizado com a doença, tratando pacientes com Alzheimer durante anos. Mas demorei para suspeitar da minha própria aflição.

Hoje, sabendo que tenho a doença, consegui determinar quando ela começou, há 10 anos, quando estava com 76. Eu presidia a um programa mensal de palestras sobre ética médica e conhecia a maior parte dos oradores. Mas, de repente, precisei recorrer ao material que já estava preparado para fazer as apresentações. Comecei então a esquecer nomes, mas nunca as fisionomias. Esses lapsos são comuns em pessoas idosas, de modo que não me preocupei.

Nos anos seguintes, submeti-me a uma cirurgia das coronárias e mais tarde tive dois pequenos derrames cerebrais. O meu neurologista atribuiu os meus problemas a esses derrames, mas a minha mente continuou a deteriorar-se. O golpe final foi há um ano, quando estava recebendo uma menção honrosa no hospital onde trabalhava. Levantei-me para agradecer e não consegui dizer uma palavra sequer.

A minha mulher insistiu para eu consultar um médico. O meu médico de clínica-geral realizou uma série de testes de memória no seu consultório e pediu depois uma tomografia PET, que diagnostica a doença com 95% de precisão. Comecei a ser medicado com Aricept, que tem muitos efeitos colaterais. Ressenti-me de dois deles: diarreia e perda de apetite.

O meu médico insistiu para eu continuar. Os efeitos colaterais desapareceram e comecei a tomar mais um medicamento, Namenda. Esses remédios, em muitos pacientes, não surtem efeito nenhum. Fui um dos raros felizardos.

Em dois meses, senti-me muito melhor e hoje quase voltei ao normal.

Demoramos muito tempo para compreender essa doença desde que Alois Alzheimer, médico alemão, estabeleceu os primeiros elos, no início do século 20, entre a demência e a presença de placas e emaranhados de material desconhecido.

Hoje sabemos que esse material é a acumulação de uma proteína chamada beta-amiloide. A hipótese principal para o mecanismo da doença de Alzheimer é que essa proteína se acumula nas células do cérebro, provocando uma degeneração dos neurónios. Hoje, há alguns produtos farmacêuticos para limpar essa proteína das células.

No entanto, as placas de amiloide podem ser detectadas apenas numa autópsia, de modo que são associadas apenas com pessoas que desenvolveram plenamente a doença. Não sabemos se esses são os primeiros indicadores biológicos da doença.

Mas há muitas coisas que aprendemos. A partir da minha melhora, passei a fazer uma lista de insights que gostaria de compartilhar com outras pessoas que enfrentam problemas de memória: tenha sempre consigo um caderninho de notas e escreva o que deseja lembrar mais tarde.

Quando não conseguir lembrar-se de um nome, peça para que a pessoa o repita e então escreva. Leia livros. Faça caminhadas. Dedique-se ao desenho e à pintura.

Pratique jardinagem. Faça quebra-cabeças e jogos. Experimente coisas novas. Organize o seu dia. Adopte uma dieta saudável, que inclua peixe duas vezes por semana, frutas, legumes, vegetais e ácidos gordos (Ómega 3).

Não se afaste dos amigos e da sua família. É um conselho que aprendi com muito sacrifício. Temendo que as pessoas se apiedassem de mim, procurei manter a minha doença em segredo e isso significou afastar-me das pessoas que eu amava. Mas agora sinto-me gratificado ao ver como as pessoas são tolerantes e como desejam ajudar.

A doença afecta 1 em cada 8 pessoas com mais de 65 anos e quase metade dos que têm mais de 85. A previsão é de que o número de pessoas com Alzheimer nos EUA duplique até 2030.

Sei que, como qualquer outro ser humano, um dia vou morrer. Assim, certifiquei-me dos documentos que necessitava examinar e assinar enquanto ainda estou capaz e desperto, coisas como deixar recomendações por escrito ou uma ordem para desligar os aparelhos quando não houver probabilidade de recuperação. Procurei assegurar que aqueles que amo saibam da minha vontade. Quando não souber mais quem sou, não reconhecer mais as pessoas ou estiver incapacitado, sem nenhuma probabilidade de melhora, quero apenas consolo e cuidados paliativos.





quarta-feira, 27 de maio de 2015


Família securitária


Inês Teotónio Pereira, Jornal i, 23 de Maio de 2015

Ao fim de alguns anos a montar esta rede, posso dizer com orgulho que os meus serviços secretos não envergonhariam qualquer país da antiga Cortina de Ferro.

Eu sou daquelas mães que proíbe os filhos de fazerem imensas coisas. Sou uma espécie de mãe securitária. Chego mesmo a ter uma rede de informadores, dentro da minha própria casa, ao estilo da Stasi, e cultivo a política do bufo. Ou seja, todos os meus filhos estão autorizados a fazer queixinhas uns dos outros, a denunciarem situações de injustiça e a alertarem os seus progenitores quando outro ou outros transgridem as regras.

Por exemplo, quando alguém não puxa o autoclismo, têm todos a obrigação de denunciar o prevaricador de forma que ele possa ser devidamente sancionado; do mesmo modo, sempre que um mais forte bate noutro mais fraco, com ou sem razão, também deve ser denunciado.

Também recorro muitas vezes a esta rede de bufos para estar a par da vida de cada um dos meus filhos. Com quem eles se dão na escola, se andam a estudar ou não, se andam tristes, se se queixam de mim, etc. A única coisa que não permito é que eles contem segredos que lhes foram confiados. Mas ainda depende: se o segredo prejudicar alguém, deve ser tornado público.

Ao fim de alguns anos a montar esta rede, posso dizer com orgulho que os meus serviços secretos não envergonhariam qualquer país da antiga Cortina de Ferro. Aliás, suspeito mesmo que o Muro não teria caído se todos os profissionais dos serviços secretos desses países trabalhassem tão bem quanto os meus filhos.

Esta minha rede é fundamental para fazer cumprir a lista detalhada de coisas que eles não podem fazer e de obrigações que eles têm de cumprir. Pois, como eu tenho filhos a mais e tempo a menos, preciso de ajuda para a devida monitorização.

Só para dar alguns exemplos, correndo o perigo de ser exaustiva, em minha casa é proibido: os mais velhos baterem nos mais novos, comer na sala, comer fora das refeições qualquer coisa que não seja leite ou fruta, ver televisão se alguém estiver a estudar (a não ser o canal Babyfirst), andarem descalços, jogar futebol na sala ou na varanda, terem os quartos desarrumados (que é como quem diz, não haver coisas no chão), ver o «Dead Man Walking» (só é permitido a partir dos 16 anos), jogar videogames de guerra e de cabeças a saltar se os mais novos estiverem a assistir, ligar para telemóveis do telefone de casa ou fazer o bebé gritar.


Ora, é fácil perceber que, sem bufos, é impossível fazer cumprir todas estas regras e mais outras tantas que não me dei ao trabalho de nomear.

É claro que estou consciente, como qualquer ditador minimamente competente deve estar, de que, muitas vezes, os meus filhos conspiram contra mim e organizam-se de forma a conseguir proteger-se uns aos outros em nome de uma qualquer prevaricação. E, muitas vezes, conseguem.

Nestes casos, eu trato de aliviar a tensão para que não aconteça uma revolução e cedo numa ou noutra regra – não tanto quanto Gorbachov, mas vou cedendo. E é assim que tenho conseguido que a casa não nos caia em cima e que os meus filhos não sejam obesos.

Mas a verdade é que não consigo mais do que isto. As minhas regras, a minha gestão familiar securitária servem apenas para que consigamos todos viver uns com os outros com alguma harmonia. Mas pouco mais. Tudo o resto, ou seja, a educação deles, vai muito para além das regras. O que nos une verdadeiramente, aquilo que nos transforma, de facto, numa família são os valores que partilhamos e que transmitimos uns aos outros. Só eles farão dos meus filhos bons cidadãos.

Quando casos como os desta semana de violência são tornados públicos, lembro-me sempre das minhas regras e de como elas são tão insignificantes ao pé dos valores que tento transmitir aos meus filhos. É que, em minha casa tal como no país, não há regras ou leis que nos valham se não existirem valores. E este é um desafio das famílias, não do Estado ou dessa entidade abstracta que é a sociedade.






Os dois fins do casamento


Michel Schooyansprofessor emérito da universidade de Lovaina, Bélgica

A segunda sessão do Sínodo sobre a família está próxima. Por ocasião dessa sessão serão rediscutidas três questões entrelaçadas: a união conjugal, o casamento e a família. Chegamos de facto a uma época da história da humanidade na qual, sem dúvida pela primeira vez, assistimos a um questionamento radical do casamento e da família. O alvo visado é o casamento e a família, com a sua dupla finalidade: o fim unitivo e o fim procriativo da união do homem e da mulher. A sua destruição desemboca na desagregação de toda a sociedade humana. É toda a família humana que é agora atacada, abalada, desnaturada pela acção de correntes ideológicas hostis.

Fabricar crianças?

A mais evidente dessas correntes complexas é a corrente hedonista que, na união conjugal, separa o fim unitivo do fim procriativo.

Por um lado, essa corrente exalta unilateralmente certos modos de acção e de comportamentos unitivos no casal, excluindo os comportamentos procriativos. A dimensão unitiva insiste no prazer e no individualismo hedonista e utilitarista. Vejam o que acontece com a contracepção. Não há mais abertura ao outro, não há mais reconhecimento da identidade do outro, da diferença que me distingue do outro. Cada um quer fazer aquilo que tem vontade de fazer. É o recuo identitário do mesmo sobre ele-mesmo: a contracepção tranca a relação com o outro.

Por outro lado, a dissociação, a separação entre os dois fins do casamento, escancara a porta à exaltação unilateral da finalidade procreativa, excluindo os efeitos unitivos. Considera-se então que suscitar a vida é uma questão de técnicas e que o enlace amoroso entre homem e mulher não tem nada a ver com isso.

Esses comportamentos unitivos e essas técnicas procrativas podem eventualmente ser controlados pelos poderes públicos. No limite, corremos o risco de nos encontrarmos numa sociedade onde não haverá lugar para um amor responsável. Se for o caso, os pais serão despojados de toda a autoridade, de todo o direito e de todo o dever diante das suas crianças. Porque não poderiam estas serem confiadas à educação, a qual aliás os poderes públicos se arrogam do monopólio?

A dissolução voluntarista dos dois fins da união conjugal é o ponto focal tocado em 1968 pela encíclica Humanae vitae (ver o número 12), pela exortação sinodal Familiaris consortio (1981) e por numerosos documentos magisteriais entre os quais a instrução Donum vitae (1987) e o estudo Família e procriação humana (2006). Se chegarmos a separar os dois fins da união conjugal, e do casamento que sela essa união, tudo pode resultar dessa dissociação provocada e radical.

Uma vez que exaltamos unicamente o fim unitivo, rapidamente chegamos a toda a espécie de práticas sexuais: homossexualismo, lesbianismo, fornicação, etc.  Não há mais lugar para a fidelidade, pois o que importa unicamente é o prazer, o interesse de cada indivíduo. Esse homem não é mais uma pessoa, um ser capaz de se abrir livremente a uma outra pessoa; é um indivíduo que busca o seu próprio gozo.

Se ao contrário se exalta unicamente o fim procriativo, chega-se a outras consequências, entre as quais, por exemplo, a procriação medicamente assistida, a gestação por terceiros, a tecnização da transmissão da vida a ponto de chegarmos à modificação genética do ser humano. O homem não se constrói mais num lar de amor. Não há mais maternidade, nem paternidade; por conseguinte, não há mais filiação nem consanguinidade. Com a chegada do anunciado útero artificial, dentro de pouco tempo não será mais necessário que a mulher abrigue uma criança no seu seio.

Todos esses processos são evidentemente o resultado de experimentações longas e complexas. Os abortos tornam-se «necessários» para resolver os «insucessos». Um exemplo de insucesso? A intolerável chegada de um ser que não se quer, precisamente em nome da exaltação unilateral do fim unitivo. Assim, os embriões produzidos in vitro e depois implantados serão seguidos de perto durante a sua gestação. Se anomalias forem reveladas, serão abortados. Lembremos aqui que os casos em que se assinalam anomalias são mais frequentes nas fecundações in vitro do que nos casos de fecundações naturais. Por outro lado, um número excedente de embriões é especialmente «inevitável» para a experimentação com células-tronco embrionárias.

Sob a pressão das ideologias hedonistas, as crianças são geradas proporcionalmente aos prazeres dos parceiros, às necessidades da sociedade, tais como estas são definidas pelos «sábios», por economistas, por demógrafos, por políticos ou por tecnocratas com forte impregnação ideológica. A selecção está inscrita nessa tecnização; está na lógica da ideologia liberal seleccionar: o produto deve ser impecável, senão será deitado fora. Conhecemos a selecção racial; aqui o que conta, é a selecção política, económica, a qualidade do produto fabricado. O homem e a mulher alienam-se: transferem para máquinas e para encubadeiras a fabricação de crianças. Eventualmente a criança, o produto fabricado, poderá ser comprado, vendido ou escolhido em catálogo.

Assim como deve haver o aborto «seguro», deverá também haver a procriação «segura». É preciso «desobrigar» a mulher da sua capacidade de procriar porque a procriação natural é muito arriscada. Actualmente, muitas mulheres não têm filhos porque a procriação é tida como não-segura.

Assim, abre-se o caminho ao prolongamento de uma vida de prazer e livre das constrições conjugais e parentais. A transmissão da vida não se fará mais segundo uma perspectiva humana; ela obedecerá a planeamentos ideológicos. Enfim, na outra ponta da vida, teremos em breve a eutanásia em massa.

O que está em jogo no trans-humanismo

Esses são alguns dos pontos em jogo e que podemos observar nos debates actuais sobre o trans-humanismo: as novas técnicas – asseguram-nos – oferecem aos homens meios que permitem dispor dos corpos e fabricar super-homens. Desculpem a modéstia! Resumindo, assistimos à impulsão de um novo eugenismo e mais precisamente à construção de novas espécies «humanas» modificadas geneticamente e hibridificadas com máquinas. Uma tal hibridização entre o corpo vivo e a matéria morta é irreversível. Assistimos à destruição irreversível da integridade do corpo humano. Decididamente, a cultura da morte  espalha-se por toda parte...

Hoje em dia, mesmo em certos estabelecimentos hospitalares que se dizem católicos, praticam-se intervenções tais como o aborto, as procriações medicamente assistidas, as pesquisas com embriões, sem esquecer a eutanásia, etc. Quantas vozes, no laicado, no clero e no episcopado, se erguem num convite a se reconsiderar essas práticas? Diante desse mutismo, é preciso fazer valer o carácter indissociável entre os fins da união conjugal e o casamento. Com efeito, é a separação entre os dois fins que escancara a porta aos múltiplos desvios que hoje conhecemos. Os efeitos perversos da separação entre os dois fins do casamento vão muitíssimo além da esfera íntima onde essa separação tem início. Aqueles que atacam a Humanae vitae, a Familiaris consortio, a Donum vitae e os outros documentos magisteriais devem ter pesquisado que, no ensinamento da Igreja não basta destacar porque é que a Igreja recusa a contracepção e o aborto, nem porque é que a Igreja recusa a ideologia do género; essa ideologia não é senão uma das metamorfoses da dissociação do que tratamos. É preciso então colocar em evidência que uma vez admitida a separação entre os dois fins da união conjugal, abrem-se sem nenhuma rede de segurança todas as possibilidades oferecidas pelas técnicas e asseguradas pelo direito.

Quanto àqueles que, na Igreja, batalham para que essa cisão seja admitida, devem saber que correm o risco de provocar um cisma do qual deverão prestar contas a Deus e aos homens.

O terror, ontem e hoje

A discussão aqui travada não diz respeito unicamente aos cristãos de hoje e aos seus adversários. As correntes individualistas que se encontram na origem dos desvios que acabámos de evocar, desenvolveram-se inicialmente na Inglaterra, sempre líder intelectual nessas matérias, depois nos Estados Unidos, estrategistas do eugenismo mundial e país onde os médicos fazem morrer, sem que isso suscite discussão. Em igual medida, essas correntes difundiram-se a partir da Alemanha. Recordemos ao menos que foi nesse país que se difundiram e foram postas em prática as ideologias celebrando o racismo e o eugenismo, bem como a eutanásia.

Ora, essas mesmas correntes desenvolveram-se sobretudo em França a partir do Século das Luzes. É a partir de França que se forma, se desenvolve e se exporta uma poderosa corrente exaltando o indivíduo, o «sujeito», a sua razão, a sua liberdade, o seu direito ao prazer, as suas paixões. A França tornou-se a portadora mundial da tocha da laicidade republicana. Segundo diferentes impostações, a religião revelada é rejeitada. O homem progride, garantem-nos, apoiando-se somente na sua razão e na sua experiência; deve-se dar lugar à religião civil ou ao ateísmo. As paixões devem estar ordenadas à maximização do leque de voluptuosidades. O direito ao prazer erótico, levado certas vezes ao paroxismo do direito à destruição, é reivindicado e confortado pela rejeição de Deus. Do seu calabouço, ao divino marquês não faltou audiência e conseguiu garantir a sua posteridade.

Ora, após ter-se matado Deus ou agindo como se Deus não existisse, torna-se difícil encontrar um fundamento ao direito. É essa uma das maiores dificuldades do iluminismo, versão francesa. Desde o século XVIII, uma fracção significativa e actuante da intelectualidade francesa esforçou-se, em nome da liberdade, de dar ao terror um lugar na vida pública. Com uma obstinação acachapante, os manuais de história politicamente correctos transmitem de geração em geração a vulgata revolucionária.

Não obstante, impõe-se uma revisão dessa vulgata, ainda que essa revisão seja perturbadora. Os media e a opinião pública recentemente ergueram-se, e com razão, face às decapitações e outros actos de barbárie ocorridos na área de influência do islão integrista. Porém, é desonesto ocultar, como se faz nas arengas politiqueiras e nos manuais escolares, que foram os senhores da guilhotina a guilhotinar em série e a exportar a sua técnica aprimorada. Esse desvio cruel observa-se ainda hoje. Orgulhosos da sua ascendência voltairiana, as forças da laicidade agitam como lúgubre troféu a marca de 200 000 abortos por ano em França. O terrorismo revolucionário instalou-se de modo duradouro, em nome da liberdade. Querendo ir muito além do necessário, a França não deixa passar a ocasião de se autoproclamar «Pátria dos Direitos do Homem», um erro histórico grosseiro mas útil à causa de um messianismo arrogante.

A questão do mal, hoje

Na actual situação, a questão do mal coloca-se como jamais se colocara antes. É verdade que há tentativas notáveis de se analisar o mal tal como se apresentou nas grandes ideologias totalitárias do século XX. Frequentemente se invocou uma perturbação da razão. Mas hoje, em nome de uma perversão da verdade, desde já desnorteada, somos confrontados com uma tentativa sem precedentes na história da humanidade: a de destruir a própria humanidade, de destruir a capacidade que o homem tem naturalmente: a capacidade de amar. Recusa de tomar consciência do plano de Deus para o homem! Essa destruição leva por fim à destruição do corpo do homem pela destruição irreversível da sua integridade genética. É o maior drama da história da humanidade.

Não há muito tempo, Hilary Clinton pediu à ONU que o direito ao aborto fosse proclamado à escala universal. Vejam a perversão que espreita o direito: como podemos reduzir um ser humano a um objecto do qual se pode dispor até à destruição?  Um ser humano é para ser acolhido, respeitado: não é objecto de um direito; os juristas dizem que ele não está disponível. Eu tenho direito de comprar pão, um automóvel ou uma casa. Mas não tenho direito, eu que sou um ser humano, de matar alguém de eliminar outro ser humano. Ora, a partir da dissociação entre os fins, não importa o que passa a ser não somente legalizável, mas até mesmo legal; o próprio direito se vê desnaturado. No torvelinho dos acontecimentos, a medicina é também pervertida, uma vez que em lugar de procurar curar, melhorar a saúde, suavizar os sofrimentos, consente em se colocar a serviço da morte, tanto antes quanto depois do nascimento. Na Bélgica, por ocasião do debate sobre a eutanásia de crianças (em 2014), legislou-se: a lei passou sem problemas; não houve senão alguns protestos, enquanto que, o que está em jogo em todos esses debates é o próprio futuro da humanidade.

Proteger a moral natural

Todas essas questões novas não podem ser resolvidas por uma casuística como esta aqui: «Em tal caso pode-se abortar, em tal caso não se pode; em tal caso  pode-se praticar eutanásia, em tal outro não». Limitamo-nos a decidir casos pontuais de consciência sem nos referirmos aos princípios fundamentais da moral. Essa casuística é de certo modo precursora da moral da situação. O que é preciso é ir verdadeiramente à origem do problema e reencontrar, na destruição dos fins do casamento, as raízes da acção de Satã, hoje, na história da humanidade e no coração dos homens.

Convém ainda acrescentar uma reflexão a propósito da casuística que acabámos de mencionar. A Igreja encontra-se numa situação espantosa. Altos prelados, vindos sobretudo das nações opulentas, empenham-se em introduzir modificações na moral cristã referente aos divorciados-recasados e a outras situações problemáticas das quais algumas delas foram citadas aqui. Esses Guardiões da Fé não deveriam contudo perder de vista que o problema fundamental colocado pela destruição dos dois fins do casamento é um problema de moral natural.  É no plano natural que o homem e a mulher são chamados a unirem-se para testemunharem o afecto e para procriarem. É essa a realidade natural que o Senhor elevou à dignidade de um sacramento. Diante das potências que abalam actualmente a família, a Igreja deveria descobrir a sua vocação de ser a única instância à altura de salvar a sexualidade humana e a instituição natural do casamento e da família.  Não se trata apenas de salvar a moral cristã; é preciso salvar e proteger a moral natural. Não é possível que, por meio de procedimentos casuísticos capciosos, católicos de todos os estratos e de todas as idades contribuam para a destruição da moral natural.  Os grandes desvios surgiram quando certos intelectuais católicos começaram a dizer e a escrever: «Sinal verde para o aborto, para as uniões homossexuais, para a eutanásia, etc.». Ora, a partir do momento em que os católicos surfam essa onda fatal, contribuem para a destruição da instituição natural do casamento. É toda a comunidade humana que se vê cindida com essa nova «traição dos clérigos».

Vale a pena levantar aqui uma questão chave: o Magistério da Igreja é competente para modificar a moral natural? Uma redução da moral natural a uma moral puramente casuística leva certos teólogos e certos pastores a caucionarem a redução do direito fundado na natureza do homem. Por ocasião de um processo recente e muito divulgado pelos media, comentou-se repetidamente que o direito nada tinha a ver com a moral. A partir daí, não há direito senão o direito puramente positivo, originário da vontade isolada do legislador. Nesse último caso, não há mais direito que fosse inato ao homem pelo simples facto de ser homem. Não haveria senão os direitos definidos pelas instâncias politicas nacionais, internacionais e mundiais. É de se ter calafrios pensar que a generalização de um direito assim prenunciasse a instauração de uma sociedade «global», isto é mundial, teleguiada pela vontade dos mais fortes.

Resumindo, em vez de proteger a célula familiar da sua detonação, da sua fissura, o próprio direito coloca-se ao serviço da destruição da pessoa e da família. O papel do direito não é, ao contrário, proteger o núcleo conjugal, familiar e os frutos que dele decorrem, a saber, os filhos?

A recepção dos ensinamentos pontificais

O beato Paulo VI conheceu incompreensão e rejeição quando da publicação da encíclica Humanae vitae, encíclica que o fez sofrer, antes como depois do seu aparecimento. Dissera: «Vocês ainda me agradecerão por ter publicado esse documento».

São João Paulo II retomou esse ímpeto profético com seu engajamento em favor dos mais pobres e dos mais vulneráveis. Daí os seus repetidos apelos para que se pusesse um fim à banalização do aborto e à sua legalização. Nas intervenções posteriores de João Paulo II, foram examinadas outras questões cruciais. O Papa aborda ali, entre outras, as politicas do controle de nascimentos, especialmente nos países do terceiro mundo. Menciona também o aumento da esperança de vida do nascituro, principal causa do envelhecimento da população, envelhecimento que por sua vez, é invocado com vistas à legalização da eutanásia. Estamos portanto diante de um conjunto de problemas emaranhados aos quais as pessoas estão mais e mais atentas, ainda que estejam frequentemente pouco ou mal informadas, como mostram as discussões nos países ocidentais sobre as adequações a serem feitas na idade da reforma.

São João Paulo II exprimiu no rosto, no seu comportamento, a sua acção, os seus discursos, pelas suas encíclicas, por toda a sua maneira de ser que foi um mediador entre Deus e os homens. Em todos os lugares que foi no mundo, foi percebido como um enviado de Deus, mesmo entre os não-cristãos. Era um ícone vivo de Deus entre os homens. Deu aos homens a confiança necessária para que as pessoas se engajassem no serviço à vida e à família. São João Paulo II é o Papa que terá salvado a família, que terá salvado incontáveis vidas humanas com a potência da sua palavra. Desse ponto de vista, São João Paulo II aparece no primeiro plano das figuras carismáticas da Igreja contemporânea. Tinha efectivamente um contacto extraordinário com os homens, com as mulheres, e com as crianças de todos os meios. Mas aquilo que mais nos retém a atenção, é a sua determinação em salvar a vida e a família. Ele mobilizou as pessoas e os casais suscitando-lhes a audácia de se lançarem à aventura de serem pais, de acolherem a vida, de serem profissionais da ternura.

Será preciso que a Igreja retorne à Humanae Vitae de Paulo VI, bem como aos ensinamentos de João Paulo II e de Bento XVI sobre essas questões. O Papa Francisco permanece na trilha dos seus predecessores cada vez que sublinha a coincidência entre o Evangelho do amor e o Evangelho da alegria. Será preciso fortalecer o peso magisterial  de todo esse ensinamento, colocar em relevo a sua coerência  e proteger esse tesouro contra os predadores.

A conversão do coração

Não é pretendendo modificar o homem ou «melhorá-lo» por meio de técnicas arriscadas que se irão elevar os indicadores de justiça, de bem estar e de felicidade. As técnicas actualmente disponíveis lançam-se sem nenhum rumo; cedem o leme ao sonho. A utopia está em vias de assumir o comando do mundo mas não resultará em nada. Ela necessita da ideologia para convencer o homem da «legitimidade» da transgressão. As utopias cientificistas ou politicas de hoje não fazem senão espelhar a enésima sociedade ideal. Pretendem que para alcançar esse fim seja preciso modificar o homem ou reconstruí-lo. Sem essa modificação do homem, a construção da sociedade ideal estará bloqueada. Segundo essa lógica, os cristãos serão desprezíveis se recusarem aderir a esse projecto; devem ser perseguidos.

Ora, o homem de hoje deve libertar-se dessas armadilhas ideológicas que o confinam em novas escravidões. O que é preciso é restaurar o respeito devido ao homem. É preciso chamar o homem à conversão do coração para que possa abrir-se aos valores verdadeiros e engajar-se no seu serviço. Essa restauração do homem implica uma etapa preliminar: é preciso desmascarar as armadilhas prometeicas e tornar manifesto o peso do pecado que elas injectam nas nossas sociedades. Será preciso também adoptar uma visão prospectiva da sociedade e da biosfera, pois as duas, homem e biosfera, só serão salvas juntas.

Essa reapropriação do homem por ele mesmo permite que se tomem hoje medidas em função da sociedade que se quer construir. É o que nos ensinou a prospectiva. Cristã ou não, a moral não se pode mais satisfazer com a previsão que vê no futuro uma simples extrapolação do presente. De facto, no caso da previsão, o futuro previsto está determinado; ele escapa à responsabilidade moral. A prospectiva por sua vez, considera que esse futuro a  construir-se não é o objecto de um sonho; é ele que determina o presente e faz da decisão um acto moralmente responsável.

Levar a esperança ao mundo

Dessas novas escravidões o homem não sairá se não voltar a ser senhor de si, reafirmando a sua capacidade de discernir e decidir. Prever o futuro como mera extrapolação do presente, como o seu prolongamento, não é de modo nenhum suficiente para dar sentido à acção. Uma concepção previsionista do futuro não abre espaço algum à decisão livre e responsável, pois o futuro já está ali determinado. A moral da responsabilidade convida-nos a agir no mundo de hoje tendo em vista um mundo melhor que desejamos preparar para os jovens de hoje. Toda a moral referente à sexualidade humana e à família deve dirigir a sua reflexão a longo prazo. O futuro que preparamos para as gerações que virão depende da qualidade das decisões que tomamos – ou não tomamos – hoje. Os pobres e as crianças são nossos senhores. Devemos preocuparmo-nos com eles. Somos por eles responsáveis. Devem poder segurar a mão que lhes estendemos para levá-los da morte à vida. A prospectiva deixa um amplo espaço de livre decisão e assim de abertura aos valores hierarquizados. Ela mobiliza a vontade; convida ao engajamento; comove o coração diante de todas as misérias sobre as quais o homem, se quiser, pode agir.

Certamente todos os temas abordados pelo Sínodo da Família merecem ser discutidos. Mas a Igreja corre o risco de se perder se exaltar as previsões delirantes em vez de oferecer à sociedade humana a mensagem de esperança que o Senhor lhe confiou e que ela tem, por mandato, de levar às Nações.


Tradução: Rui A.C. Costa





domingo, 24 de maio de 2015


Governo volta a admitir despesas

de saúde com IVA a 23% no IRS 2015


Na sequência da reforma do IRS e das confusões produzidas pela declaração de facturas como a polémica ontem descrita em «Registar despesas de saúde com IVA diferente na mesma factura pode impedir acesso a benefício fiscal?», o governo vai repor a dedução para efeitos de benefício fiscal das despesas de saúde tributadas à taxa de IVA de 23% desde que suportadas por receita médica.

É isso que se lê no Jornal de Negócios devendo ter efeitos na entrega da declaração de IRS em 2016. Se a reposição se fizer nos moldes em vigor até 2015 a dedução máxima associada ao IVA a 23% será de €65.





sábado, 23 de maio de 2015


Contra a lamúria dos exames


Raquel Abecasis, Renascença, 18 de Maio de 2015

Ao contrário do que tem sido repisado nestes últimos dias, os exames não são nem traumatizantes nem inúteis para os alunos.

Esta é a semana grande para os alunos do 4.º e do 6.º ano, que fazem, no caso do 4.º ano, o primeiro exame das suas vidas.

Ao contrário do que tem sido repisado nestes últimos dias, os exames não são nem traumatizantes nem inúteis para os alunos. A verdade é que esta é uma ocasião para os alunos consolidarem os seus conhecimentos no fim de um ciclo de ensino, antes de passarem para uma fase diferente e mais exigente.

Não é verdade que os exames não acrescentem nada à avaliação contínua. Acrescentam experiência numa área a que não podemos escapar ao longo da vida que é a avaliação instantânea. Como sabemos, esta é fundamental em muitas ocasiões da vida: entrevistas de emprego, momentos de confronto, apresentações públicas, etc.

Argumentar que as crianças são muito novas e que o processo dos exames não traz mais-valias é desconhecer por completo o processo de desenvolvimento de uma criança de nove, dez anos, que já tem capacidade para perceber a importância do momento, estudar para ele e até fazer um esforço suplementar para corrigir erros.

Depois há o argumento de um mau momento na hora do exame. Também essa é uma falsa questão, já que a nota dos exames nesta fase, como todos sabemos, é ponderada com a avaliação contínua e pesa apenas 30% na nota final.

Tudo somado, resta dizer que quem contribui e muito para a má prestação dos alunos são os que atacam este método de avaliação e exercem uma pressão negativa nas crianças, sobrevalorizando os naturais «nervos» pré-exame com discursos sobre ansiedade e traumas psicológicos. Ora, aquela pressão é que contribui para ansiedade e traumas despropositados.





domingo, 17 de maio de 2015


Cientistas alertam para os riscos de cozinhar

com tachos anti-aderentes



Cerca de 200 cientistas assinaram recentemente um manifesto onde expressam a sua preocupação sobre o uso cada vez maior de utensílios de cozinha anti-aderentes. De acordo com os investigadores, os tachos e panelas anti-aderentes são fabricados com químicos conhecidos por poli-perfluoroalquilo.

Estes químicos sintéticos podem ser encontrados por todo o ambiente, bem como em tecidos humanos e animais. Segundo defendem os cientistas, estas substâncias podem ser transferidas dos utensílios de cozinha para a comida, bem como para o ar, água e solo.

A lista de eventuais problemas de saúde que estes compostos sintéticos podem causar é bastante extensa. Entre as patologias incluem-se a obesidade, problemas de fígado, cancro dos rins e dos testículos, diminuição da resposta imunitária às vacinas bem como nascimentos de bebés com peso abaixo do normal, escreve oTreeHugger.

A opinião do grupo de cientistas, redigida naquilo a que foi chamado Declaração de Madrid, foi publicada na revista científica Environmental Health Perspectives. No documento, os investigadores pedem aos governos mundiais para restringir o uso destes químicos bem como para pedir aos seus cidadãos para evitarem o seu uso.





sexta-feira, 15 de maio de 2015


Crime contra a Língua Pátria


Em próximas eleições, votar apenas em partidos que defendam a revogação da lei do aborto ortográfico engendrado por Santana Lopes quando Secretário de Estado de Cavaco, e depois confirmado pelos sucessivos politiqueiros.






sábado, 2 de maio de 2015


Encontrando o ponto fraco

das células cancerosas


Entrevista com o Prof. Patrick Pauwels,

do Centro Médico da Universidade de Antuérpia


Prof. Patrick Pauwels, Head of the Department of Molecular Pathology at the Antwerp University Medical Center, Belgium, talks about the role of molecular pathology in cancer treatment and future perspectives in cancer therapy.

Prof. Pauwels, you are a molecular pathologist specialized in cancer research. Would «cancer profiler» be a good job description?

In a way, yes. Just as a criminal profiler analyzes a criminal’s personality traits to find the person, we try to characterize tumor cells and identify molecular pathways that may serve as therapeutic targets. We try to figure out what makes a cancer vulnerable to medication.

Has molecular pathology brought advances to cancer therapy?

In the past, surgery, chemotherapy and radiotherapy were our only weapons against cancer. Once cancer metastasizes, the effectiveness of these approaches is very limited. Now we have targeted therapies that specifically address the tumor cells’ weak spots and inhibit tumor growth with only few side-effects. By identifying treatment targets, molecular pathology provides rationale for new types of cancer drugs.

But targeted therapies are still only available for a few cancers…

True, only a small percentage of cancers can be treated with targeted drugs nowadays, but the number is increasing. Previously, targeted approaches were only available for leukemias and lymphomas, but now they are available for some breast, lung, colorectal, and skin cancers. These drugs can often halt disease progression, which is huge success in itself, but often the effectiveness is limited to a few months. Molecular research is trying to analyze the mechanisms of resistance.

What will cancer treatment look like in 2050?

Nobody can know for sure, but I think we will simply have more treatment options. I see great potential in the area of immunomodulation. This approach unravels how cancer cells hide from the body’s own immune response and enables lymphocytes, our natural killer cells, to recognize and destroy tumor cells. This is a very promising because it moves beyond slowing the disease progression in the direction actually curing cancer.